(Imagem gerada por IA) Passava o hidratante após o banho e, num gesto distraído, nela tropecei. Como se nunca a tivesse visto. O indicador a encontrou na suavidade do creme. Um pequeno volume em alto-relevo, como uma minicordilheira tatuada para sempre em minha pele: a cicatriz do joelho esquerdo, que ali vivia desde quase sempre. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele dia, décadas atrás, a mãe disse, antes de sair, deixando meu irmão e eu responsáveis por nós mesmos: “Logo estarei de volta. Cuide da sua irmã”. Poucos minutos depois, meu irmão me trancou no guarda-roupa do quarto que dividíamos. A cicatriz é resultado de uma menina assustada tentando sair do cativeiro, que gritou e chorou até ganhar a liberdade e, de alguma forma, se cortou. No joelho direito, outro carimbo de uma aventura muito mais recente: um escorregão em uma trilha de seis horas na Chapada dos Veadeiros. Ah!!! Como é bom saber que mesmo temerosa enfrentei novos desafios, desta vez sem gritar, nem chorar, só suar bastante. Afastei a lembrança e, com o hidratante, alcancei a marca da mão esquerda. Em forma de um pequeno ovo, o queloide há anos se instalou entre o dedão e o indicador, parecendo um botão liga/desliga. Na época, para economizar, tentei me depilar sozinha. Aqueci a cera muito mais do que devia, então, ao retirar o pote do micro-ondas, a cera derretida banhou minha mão como uma larva de vulcão. Se não sabe, não faz, é fácil aprender a lição. Olhei para minha testa refletida no espelho e analisei o “V” marcado como brasa. Aconteceu assim. Minha mãe dava festa em casa. Do lado de fora, brincava de pega-pega com as crianças ao redor do predinho de dois andares onde morávamos na Avenida Afonso Pena. Olhei para trás, não queria ser pega. Quando voltei a olhar para frente, bati a testa contra o portão de ferro que dividia a garagem com o corredor dos fundos. Pah! Muito choro e um “V” para chamar de meu. Moral da história? Aprendi cedo a olhar só pra frente. Continuei na autoexcursão percorrendo meu corpo todo em busca de mais histórias importantes da minha biografia. Na velocidade macia do hidratante, encontrei a tatuagem que habita há 30 anos o tornozelo direito. Era um dia nublado em Ubatuba. Parei em qualquer estúdio de praia e me deixei tatuar, sem pensar muito que a tatuagem me faria eterna companhia. Certas coisas são para sempre. Subi o olhar para as canelas. As primeiras manchinhas brancas indicavam que banhos de sol sempre judiaram da pele, mas também energizaram a alma. É o sol que também desenhou as sardas do meu rosto. Desde a época em que eu pegava o ônibus na Avenida Conselheiro Nébias, altura do Hospital dos Estivadores, carregando uma cadeira pesada de praia debaixo do braço para me bronzear com Rayito de Sol ouvindo walkman. Reparei que minhas mãos e antebraços estampam marcas recentes que ainda se cobrem com carapaça de sangue escuro. Logo virarão casca. Foram riscados pelo amor dos meus gatinhos, a dor gostosa do carinho de um felino, afaga sem querer ferir. Marcas são como mapas. Indicam caminhos percorridos, apontam as paradas que foram necessárias e orientam para que a trajetória adiante deixe sinais mais leves e menos profundos, registros de quem aprende a atravessar a vida sabendo onde pisar.