A regulamentação das redes sociais no Brasil tem suscitado controvérsia (Pixabay) Estava meio dormindo, meio acordada, aquela preguiça gostosa de uma manhã de sábado sem compromissos, quando ouvi o conhecido “plim”. O celular anunciava a chegada de uma mensagem. Entreabri os olhos na largura suficiente para alcançar o telefone que estava na cabeceira. Abri e lá estava ela. Aquela imagem meio sem sentido, meio sem noção para as sete da manhã: um quibe frito com um aparelho de audição. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Após alguns segundos organizando os pensamentos, entendi que a mensagem respondia à minha enviada na noite anterior, quando contava a um amigo que mora na Alemanha sobre os últimos casos de violência contra a mulher. A resposta dele? “Quibisurdo”. Mesmo sendo o tema gravíssimo, me tirou um sorriso do rosto. A figurinha “colou” naquela manhã. As figurinhas se transformaram quase em um idioma próprio no País. Tudo começou em 2018, quando um aplicativo de mensagens lançou um pacote para divertir os usuários. Mas a grande virada veio depois, com a possibilidade de criação das próprias figurinhas. As coleções, então, se multiplicaram como álbum de Copa do Mundo. Fotos pessoais, de famosos, de brinquedos, de desenhos animados, de pets, além de milhares de figurinhas aleatórias que representam amor, ódio, compaixão, preguiça, entre tantos outros sentimentos que guardamos, mas que, com as figurinhas, expressamos sem qualquer vergonha. Assim como tem todo tipo de gente, tem todo tipo de figurinha. Se você reparar, a partir delas podemos avaliar o comportamento e o olhar que as pessoas fazem do mundo. Por exemplo, minhas amigas mais carinhosas têm em seu “álbum de figurinhas” inúmeras versões de corações. Já as que gostam de pet criaram um verdadeiro arsenal de imagens de cães, gatos, aves, tartarugas, enfim, bichinhos engraçadinhos que revelam a ternura e o olhar afetuoso do remetente pelos olhos dos animais. Meus conhecidos mais politizados criaram um repertório com candidatos, eleitos e políticos até já fora da política e os usam a toda hora. Os famosos “kkkkkk” das risadas ganharam ares de “best-sellers”. São versões que, com o perdão do trocadilho, fizeram muitos “emojis” chorarem de inveja, com medo de um fim próximo. Mas nada supera as figurinhas que viraram memes, uma forma sucinta de se fazer rir. Nazaré Tedesco confusa, a Glória Pires não sendo capaz de opinar, a fã da Xuxa ainda criança e sua frase emblemática “que show da Xuxa é esse?”, a cantora Gretchen revirando os olhos traduzindo falta de paciência, entre tantas outras que revelam a memória coletiva compartilhada em um clique. Humor rápido, expressão emocional, fáceis de entender, funcionam em várias situações e são ótimas para quem tem pressa e deseja dizer muito com pouco. Mas você já pensou como seu acervo de figurinhas retrata sua própria identidade? Sim, as figurinhas que escolhe dizem muito sobre você. Sem perceber, cada pessoa cria seu vocabulário próprio, um acervo íntimo, um diário fantasiado de imagens inofensivas. Tem quem sempre responda com ironia, com exagero dramático ou acolhimento. É a exposição com uma camada sofisticada de proteção. O seu álbum de figurinhas se tornou, sem que você talvez tenha se dado conta, no retrato de sua alma. Sendo assim, cuidado. Porque entre o impulso e a resposta mora sua personalidade e se há uma coisa impossível de se apagar é a figurinha.