Filme de Marianna Brennand conta drama de vítimas de abuso sexual (Paris Filmes/ Divulgação) Manas é tão humano e sensível quanto preciso ao denunciar uma realidade cruel, por vezes, silenciada: os abusos sexuais de meninas nas balsas ou por seus próprios pais, na Ilha de Marajó, no Pará, Região Norte do Brasil. É impossível sair incólume de uma sessão desse filme que trata de um tema tão sério e urgente. Manas já está em cartaz nas salas de cinema. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o primeiro filme de ficção da documentarista Marianna Brennand, que optou por dar voz às vítimas reais por meio de personagens fictícios. “Era inaceitável para mim como documentarista colocar à frente da câmera crianças, adolescentes e mulheres para recontarem situações de abuso pelas quais haviam passado. Seria cometer mais uma violência contra elas”, declarou. Marianna prova o seu respeito às meninas marajoaras na forma como conduz os fatos na trama. O enredo se desenrola de um jeito bem próprio de cineastas mulheres, sem apelos desnecessários, sem cenas explícitas de abusos sexuais e estupros, apostando tudo nos diálogos e atuações repletos de sentimentos e emoções que nos dão a percepção exata do quão grave isso é. Na ficção, um rosto belo e expressivo conduz o drama das meninas de Marajó. É o de Jamilli Correa, uma atriz paraense estreante, que interpreta a protagonista Marcielle, cujo apelido é Tielle. A personagem é uma garota de 13 anos que vive junto com o pai, Marcílio, interpretado por Rômulo Braga, a mãe, Danielle, personagem de Fátima Macedo, e três irmãos. A família reside em uma casa de madeira erguida sobre palafitas, em condições muito precárias, se alimentando de açaí. Marcielle cultua a imagem de Cláudia, sua irmã mais velha, que teria partido após supostamente arrumar um homem bom nas balsas que passam pela região. Mas, Tielle se desilude ao descobrir a verdade e percebe que está à mercê de abusadores, sendo um deles o próprio pai. Preocupada com a irmã mais nova, Carol, e ciente de um futuro nada promissor, ela decide enfrentar o pai a qualquer custo para proteger sua família. A trama ganha um contorno especial quando a delegada Aretha, interpretada pela atriz paraense Dira Paes, entra em cena. Além de âncora moral da narrativa, ela é a rede de apoio fundamental para Tielle, assegurando à garota que há esperança. Manas impressiona ainda pela fotografia que explora a natureza exuberante da Ilha de Marajó em contraste com a brutalidade nos lares. Fato é que o drama das meninas de Marajó reverbera mundo afora. Manas já conquistou mais de 20 prêmios internacionais desde o seu lançamento no prestigiado Festival de Veneza, na Itália, em agosto do ano passado, e neste ano já registra participação em mais de 15 festivais. Um dos produtores associados é o cineasta Walter Salles, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui, estrelado pela atriz Fernanda Torres. Manas me remete ao romance Os Miseráveis, de Victor Hugo, publicado em 1862. Tal qual este que é um dos maiores clássicos da literatura mundial, o olhar de Marianna Brennand nos oferece o retrato fiel da violência oriunda da miséria, o último estágio da pobreza material e espiritual, da carestia extrema que bestializa, que aniquila qualquer senso de civilidade, levando um pai a estuprar a própria filha e achar isso um direito, enquanto a mãe, resignada, permite o horror apenas por questão de dependência de seu provedor algoz. A necessidade cala os vulneráveis e fortalece os opressores. Assim se estabelece a crise social, fruto da relação da miséria com a violência. Relação esta que é uma propriedade inata do ser humano tão repugnante que transborda às artes, seja num romance do século 19 ou num filme do século 21, para reflexão.