Azul Guaita faz Tita, que “tempera” a comida com seus sentimentos (Divulgação/HBO) A comida como expressão de emoções muito profundas e marca de uma cultura tão rica como a mexicana. A história – bela e trágica – de Como Água Para Chocolate, desde que o livro da mexicana Laura Esquivel foi lançado em 1989, migrou do best-seller de realismo fantástico para as telas dos cinemas (em 1992), para os palcos em um balé em 2022 e também para um musical teatral. Agora, via Max, ganha as telinhas na série, em seis episódios, que tem ótima produção e reforça o aspecto dramático da trama. Para quem não conhece a história, uma sinopse curta: acompanhamos a história de Tita, uma jovem rejeitada e tratada com desprezo pela mãe, Mama Elena, desde o nascimento (que, simbolicamente, aconteceu na cozinha da casa). Ela desenvolve uma relação maternal com a criada Nacha, que a introduz nas artes gastronômicas. O cenário da história já é tenso e triste por si: o México do início do século 20, em que avança de forma rápida o desejo de mudança e a revolução que tantas vidas tirou. Em um país ainda apegado às tradições, Tita é apenas uma passageira em sua própria vida, sem autonomia para construir seu próprio destino. Essa prisão às tradições se revela de forma dura: já adulta, Tita é obrigada a abrir mão de seu grande amor, Pedro, porque a tradição da família dita que a filha mais nova não pode se casar e deve dedicar a vida a cuidar da mãe (no caso, a mulher que a odeia). Pior: por um arranjo familiar, Pedro acaba ficando noivo de sua irmã, Rosaura. O que se segue na história é uma sucessão de tragédias. Como apenas dois episódios foram lançados até o momento, não é possível saber se todas estarão na adaptação da Max. E eu também não vou estragar a alegria de nenhum desavisado contando o que vai acontecer, mas espere por intrigas familiares, violências de diversos tipos (inclusive sexual), mortes, fantasmas, traições e reviravoltas. Mas o que marca definitivamente a história é a comida feita por Tita, que acaba sendo “temperada” pelos sentimentos intensos da moça e faz com que todos os que a consomem sofram com “efeitos colaterais”. É nas receitas, sabores e temperos que Tita se revela. Ótima recriação de época, boas interpretações e muito cuidado na parte técnica fazem da série Como Água para Chocolate uma excelente opção para quem curte histórias de amor problemáticas e as deliciosas situações tão características do realismo fantástico. Tem sido bem interessante acompanhar as adaptações via streaming de clássicos literários regionais como este, o italiano Decameron e a mais do que esperada versão de Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel Garcia Marquez, que estreia em dezembro na Netflix. Torcendo para esta tendência chegar por aqui e vermos grandes títulos brasileiros também ganharem vida! Por ora, arrisque sem medo uma visita a este clássico da literatura latino-americana!