(AdobeStock) O Dia das Mães está batendo à porta. De um lado, surgem homenagens sinceras, cheias de amor e gratidão. De outro, persistem os julgamentos — principalmente sobre mulheres que fazem o que podem em um mundo onde o feminino raramente é considerado bom o suficiente. Para as mães solo, o cenário é ainda mais duro. Não apenas porque criam filhos e filhas contando com pouco ou nenhum apoio, mas porque, em pleno 2025, seguem sendo alvo de preconceito. Como se a dedicação e os esforços que fazem fossem menos relevantes — ou, pior, um castigo por terem se tornado “mães solteiras”. Culpa delas! É o que ainda se ouve. Uma sensação amarga, difícil de suportar, como já me contaram algumas amigas, entre lágrimas. Entre as muitas mensagens de compaixão e empatia deixadas por papa Francisco — cuja perda recente ecoa em um tempo marcado por guerras, autoritarismos e manipulações —, uma foi especialmente marcante para essas mulheres: “Não existe mãe solteira. Mãe não é estado civil.” Que bonito seria se, nesta data, conseguíssemos parar de cochichar entre dentes: “ah, ela é mãe solteira”, seguido daquele silêncio inquisidor e do peito estufado de quem se julga melhor. E sabemos: quem muito se ocupa da vida alheia, em geral, tem pouco a oferecer com a própria. Agora, quando o assunto é o pai solteiro, o cenário muda. A mesma sociedade que julga mães solo transforma esses homens em heróis. O “solteiro” vira adjetivo nobre. “Nossa, ele alimenta os filhos, vai à reunião da escola, se sacrifica!”. E ela? Imprudente. Irresponsável. O que ele faz é louvável. O que ela faz é obrigação — e ainda sob o peso de salários menores, falta de apoio, jornadas duplas ou triplas, muitas vezes cuidando também de idosos ou outros dependentes. A romantização precisa acabar. Assim como a punição disfarçada de julgamento social. Dias atrás, depois de dar aula em um campus universitário na região de Santo Amaro, em São Paulo, esperava o trem na plataforma quando uma aluna se aproximou. Seguimos juntas por algumas estações. Ela me contou que vê as filhas apenas a cada 15 dias, nos finais de semana. Quem cuida delas diariamente é o ex-companheiro — ele ganha mais, tem estabilidade. Ela, embora ame profundamente as filhas, está investindo na carreira e nos estudos. Dorme cinco horas por noite, trabalha, estuda, sonha com um futuro melhor. “Sei que parece errado, só levo para passear…”, começou ela. Interrompi com carinho: “Não tem nada de errado. Você tem todo direito de, junto do pai, decidir o melhor arranjo para criar suas filhas. E tem o direito de continuar crescendo como mulher, como ser humano.” O desconforto dela durante o relato revela o que ainda se cobra das mulheres: que sintam culpa por se priorizarem — mesmo quando isso significa cuidar melhor da própria família a longo prazo. Maternidade não é prisão. É uma dimensão da identidade, entre tantas outras que compõem uma mulher. Neste Dia das Mães, que sejamos capazes de não condenar. De não julgar. De dar suporte a quem já enfrenta desafios imensos — especialmente às mães solo. Que elas sejam vistas com o respeito, a empatia e o acolhimento que merecem. P.S.: Recomendo a música Cria, da Maria Rita, com participação do filho dela, Antônio, ainda pequeno na época da gravação. Como diz a canção, essa relação é reflexo no espelho — e sempre leva à emoção.