<p data-end="903" data-start="111">Luciano Quirino vive um dos momentos mais férteis de sua carreira. Aos 59 anos, o ator, nascido em Santos, soma quase quatro décadas de trabalhos marcantes na televisão, no cinema e no teatro – e segue se reinventando. Entre um set e outro, transita com a mesma entrega entre personagens cômicos, dramas históricos e figuras reais. No ar em uma participação em Êta Mundo Melhor!, onde dá vida ao divertido Doutor Carneiro, Quirino também já se prepara para estrear no remake de Dona Beja (HBO Max, 2026), enquanto grava um longa original da Netflix inspirado no caso Elise Matsunaga. Paralelamente, empresta corpo e voz a Lima Barreto e ainda encontra tempo para desenvolver projetos autorais. Isso tudo sempre carregando consigo a raiz afetiva de Santos, cidade que considera porto seguro.</p> <p data-end="1433" data-start="905"><strong data-end="1050" data-start="905">Você está em uma fase muito intensa da carreira, entre TV, cinema e streaming. Como tem sido viver tantos projetos diferentes ao mesmo tempo?</strong><br data-end="1053" data-start="1050" /> É uma fase de muita intensidade e, ao mesmo tempo, de muito aprendizado. Cada projeto pede um corpo, uma escuta e uma entrega diferentes. Eu me sinto privilegiado por transitar entre TV, cinema e streaming, porque cada linguagem me desafia de um jeito. É cansativo, claro, mas é também uma alegria saber que meu trabalho está chegando a públicos diversos, em formatos distintos.</p> <p data-end="2013" data-start="1435"><strong data-end="1595" data-start="1435">Em Êta Mundo Melhor!, você faz o Doutor Carneiro, com sotaque caipira e até mudanças físicas no personagem. Como foi se divertir criando essa figura cômica?</strong><br data-end="1598" data-start="1595" /> Foi delicioso. O Doutor Carneiro é um personagem de composição: trabalhei o sotaque, a postura, até a forma de andar. Fiz pequenas mudanças físicas para ele ganhar mais presença. Ao mesmo tempo, tinha essa camada de humor, que me deu liberdade e vontade de brincar. Acho que é um dos grandes prazeres da profissão: você poder criar uma figura que não tem nada a ver com você, mas que se torna real para o público.</p> <p data-end="2553" data-start="2015"><strong data-end="2172" data-start="2015">Sobre Dona Beja, você reinterpretou José Carneiro de Mendonça. Quais mudanças trouxe para tornar o personagem mais contemporâneo sem perder sua essência?</strong><br data-end="2175" data-start="2172" /> O desafio foi justamente esse: manter a essência histórica, mas trazer um olhar que dialogasse com os tempos de hoje. Eu trabalhei a desconstrução daquela masculinidade rígida, tóxica, tão presente nos homens da época. Busquei humanizá-lo, dar camadas de fragilidade e contradição. Assim, o personagem fica mais próximo do público contemporâneo sem perder sua força dramática.</p> <p data-end="3124" data-start="2555"><strong data-end="2732" data-start="2555">Gravando o filme da Netflix sobre o caso Elise Matsunaga, você precisa lidar com uma história real. Como é equilibrar o respeito pelos fatos e a liberdade artística do ator?</strong><br data-end="2735" data-start="2732" /> Esse equilíbrio é fundamental. A gente lida com dores reais, histórias que marcaram pessoas. Então existe uma responsabilidade ética, um respeito profundo. Ao mesmo tempo, como ator, preciso encontrar minha chave criativa. Busco sempre construir a partir da verdade, não de uma verdade documental, mas da verdade humana. É esse encontro entre rigor e liberdade que dá vida ao personagem.</p> <p data-end="3724" data-start="3126"><strong data-end="3298" data-start="3126">No projeto Por Dentro da Sessão, você interpreta Lima Barreto. Como foi mergulhar na vida de um grande escritor e trazer suas questões à tona para debates terapêuticos?</strong><br data-end="3301" data-start="3298" /> Foi muito intenso. Lima Barreto é um gigante da literatura e, ao mesmo tempo, um homem atravessado por dores profundas: o racismo, a exclusão, o alcoolismo. Interpretá-lo não foi apenas dar corpo a um escritor, mas a um ser humano que lutava contra seus fantasmas. E o mais bonito é que o projeto trazia essas questões para a roda, em debates terapêuticos. Foi uma experiência artística e também social, quase uma missão.</p> <p data-end="4308" data-start="3726"><strong data-end="3893" data-start="3726">Olhando para sua trajetória, de Laços de Família a trabalhos no cinema com Meirelles e Babenco, existe algum papel que mudou completamente a sua visão sobre atuar?</strong><br data-end="3896" data-start="3893" /> Cada papel me transforma um pouco, mas alguns deixam marcas mais profundas. Trabalhar com diretores como Meirelles e Babenco me deu novas chaves de entendimento do cinema. Mas talvez o teatro seja o espaço que mais me modifica: estar diante do público, sem rede de proteção, muda a forma como você se relaciona com a arte e com a vida. Não existe uma virada única, existe um processo contínuo de transformação.</p> <p data-end="4716" data-start="4310"><strong data-end="4436" data-start="4310">Você nasceu em Santos. Em 2017 recebeu uma homenagem, inclusive, no festival de cinema. Ainda vem com frequência à Cidade?</strong><br data-end="4439" data-start="4436" /> Sempre que posso, volto. Santos é meu porto seguro, minha raiz. Foi emocionante receber aquela homenagem em 2017, porque é como ser reconhecido pela própria casa. Hoje, a vida profissional me mantém mais no Rio e em São Paulo, mas Santos está sempre no meu horizonte afetivo.</p> <p data-end="5252" data-start="4718"><strong data-end="4819" data-start="4718">Que lembranças de Santos você carrega e de que forma a Cidade influenciou sua carreira como ator?</strong><br data-end="4822" data-start="4819" /> Carrego a infância na praia, o cheiro do mar, a sensação de liberdade que só quem cresceu em cidade litorânea conhece. Santos me deu régua e compasso: foi de onde saí para o mundo, mas com uma base sólida, feita de simplicidade e afeto. Acho que essa vivência de cidade-porta, de lugar de partida e chegada, sempre influenciou minha carreira. Me deu coragem para buscar o novo, mas também raízes para nunca esquecer quem eu sou.</p>