(Julio Aracack/Divulgação) Aos 33 anos, Lucas Drummond se vê mergulhado em uma das maiores emoções que um ator pode sentir: ser protagonista de um filme pela primeira vez. Na semana passada, ele esteve no México, onde participou do Festival Internacional de Cinema em Guadalajara com o filme que protagoniza, Apenas Coisas Boas, cuja estreia está prevista para 2026. Graças ao longa, em que vive o personagem Antônio, também esteve em Curitiba (PR) e, nos próximos dias, viajará a São Francisco, nos EUA. Em paralelo, Lucas está em dois curtas - um deles, Nesta Data Querida, será exibido no Santos Film Fest no próximo dia 29 -, em uma minissérie e, em breve, em uma peça de teatro. Ao domingo+, ele fala sobre a carreira, o momento do cinema nacional após o Oscar para Ainda Estou Aqui e a comunicação com o público. Você vive seu primeiro protagonista no filme Apenas Coisas Boas, que estreia este mês em festivais no Brasil, no México e nos EUA. Como foi compor o personagem Antônio, que se apaixona por um outro homem na década de 1980 e o reencontra 40 anos depois? O mais desafiador para mim, no processo de preparação para o Antônio, foi a relação que ele possui com os bichos. Antônio é um homem do campo, solitário, cuja única companhia são os seus animais. No filme, em diversas cenas, eu “contraceno” com vacas, cavalos… eles são a verdadeira família do Antônio e o personagem tem uma relação de muito afeto e cuidado com os bichos que cria. Eu, por outro lado, sou um cara muito urbano. Apesar de adorar animais, não tenho nem mesmo um pet em casa (risos). Por isso, elenco como maior desafio lidar com os animais e isso engloba criar uma relação com eles, aprender a ordenhar, cavalgar, enfim, me apropriar desse universo distante da minha rotina para fazer com verdade. Como você vê a abordagem da arte brasileira em relação à temática LGBT? Houve uma evolução nos últimos anos ou ainda há um longo caminho a ser percorrido? Acho que evoluímos muito, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. O cinema LGBTQIA+ ainda é visto como um cinema de nicho no Brasil. Isso muitas vezes reduz as narrativas e as obras à temática da sexualidade e de gênero, quando na verdade esse é apenas um aspecto dessas obras, que em geral são muito mais profundos e complexos. Você já notou alguma diferença de tratamento ou repercussão em relação ao cinema nacional depois da conquista do Oscar de Melhor Filme Internacional para Ainda Estou Aqui? Acredita que esse prêmio pode impulsionar nossas produções? A repercussão de Ainda Estou Aqui certamente voltou as atenções para o nosso cinema, tanto dentro quanto fora de casa. Ela trouxe o público de volta às salas e renovou o interesse do espectador brasileiro pelo nosso cinema. Ao mesmo tempo, voltou os olhares da indústria mundial para o cinema brasileiro, o que tem dado mais espaço para os nossos filmes nos festivais internacionais também. O Oscar conquistado também tem laureado as nossas produções, a exemplo da vitória de O Último Azul, de Gabriel Mascaro, no Festival de Berlim, e O Agente Secreto, do Kleber Mendonça Filho, em Cannes, ambos este ano. Estamos vivendo um momento maravilhoso em nosso cinema! Que seja daí para mais. Sua trajetória é marcada por vários filmes, séries e passagens pelo teatro, mas poucas participações em novelas. Como é sua relação com este tipo de obra? Deseja contracenar em mais produções do tipo? Quando eu era pequeno, a minha mãe trabalhava fora para sustentar a mim e ao meu irmão, então eu fui criado pela Nininha, que trabalhou na minha família por 45 anos, até se aposentar. Ela era noveleira de carteirinha. E foi através da nossa relação que eu fui apresentado e desenvolvi a paixão por esse gênero. A primeira que lembro de termos acompanhado juntos foi Quatro Por Quatro, da TV Globo. Tanto que, nessa mesma época, ganhei duas tartarugas e lembro que dei a elas os nomes de Babalu e Rai, personagens da Letícia Spiller e do Marcelo Novaes nessa novela. Sim, eu adoro novela e só não fiz nenhum papel relevante porque ainda não chegou um convite para isso. Mas quando a hora chegar, farei com o maior prazer. Até porque a televisão te proporciona uma visibilidade que ajuda muito a alavancar projetos pessoais. Como eu tenho vários projetos, tanto no teatro quanto no cinema, seria unir o útil ao agradável! Em quais outras produções o público poderá te ver em breve? Além do longa Apenas Coisas Boas, eu tenho outros três projetos para estrear: os curtas Nesta Data Querida, do qual eu sou coprodutor, e O Motorista, ambos dirigidos pelo André Leão, e a minissérie Máscaras de Oxigênio (não) Cairão Automaticamente, dirigida pelo Marcelo Gomes e pela Caro Minêm e que estreia no segundo semestre na plataforma de streaming HBO Max. Para quem também curte teatro, em outubro eu estrearei um novo espetáculo, a comédia dramática O Formigueiro, escrita e dirigida pelo Thiago Marinho e produzida por mim. Estamos levantando este projeto há três anos e fico feliz que ele finalmente vai ganhar os palcos. Quais os principais desafios que você precisou lidar na carreira? Desde quando veio o desejo de ser ator? Eu acho que o desejo de ser ator sempre esteve no meu imaginário. Desde pequeno, o teatro e o audiovisual me fascinam. Aos 11 anos, eu entrei para O Tablado (tradicional escola de teatro fundada em 1951), onde estudei até os 18 anos, quando comecei a trabalhar profissionalmente. O que eu acho mais lindo nessa profissão é a gente poder criar um espelho para a sociedade refletir sobre si própria, sobre as suas questões e sobre o seu tempo. A arte cria uma comunhão com o público, através da qual o espectador pode se enxergar e perceber que não está sozinho. Cria um senso de comunidade mesmo. Você tem uma experiência prática dessa comunicação com o público? Quando eu escrevi, produzi e protagonizei o curta Depois Daquela Festa, recebi várias mensagens de homens mais velhos dizendo que o curta os tinha motivado a se assumirem para os seus filhos e familiares. Que o meu trabalho e de todos os envolvidos no filme, claro, tinham dado a coragem de que eles precisavam. Tem coisa mais linda que isso? Qual a mensagem que você deixa a quem deseja ingressar no mundo da arte? Quais os desafios mais intensos que um profissional deve estar preparado para enfrentar? Acho que o principal deles é a instabilidade da nossa profissão. Às vezes você tem trabalho, às vezes não. Eu entendi muito cedo que, através da autoprodução, o ator criar suas próprias oportunidades, como também escolher os rumos que ele quer para a sua carreira. Então, o conselho que eu dou é: se joga, bota a sua cara no mundo e não espere ninguém querer trabalhar com você. Não fique esperando o telefone tocar para você. Encontre o seu caminho e o mercado encontrará você.