(FreePik) Estou diante do meu notebook, na bancada do meu escritório em casa. Lá na ponta da mesa, dois olhinhos atentos e amarelos me encaram. É Lilith, a gatinha que morava no estacionamento do meu prédio há mais de quatro anos. Poucos dias atrás, ela foi finalmente resgatada graças à união de esforços de um grupo de moradores. Gente que sempre gostou dela, deu comida, água e a considera guardiã do condomínio. Uma frajolinha linda, com pelagem branca, quase no formato de infinito na carinha, marcante entre a maior parte da pelagem preta. Castrada, examinada, medicada, em segurança e confortável deitada sobre os meus livros, Lilith começa uma nova vida. Ainda não conhece o carinho — e foge rápido de qualquer tentativa de afago. Mas chegar o mais próximo de mim que conseguiu até agora, na ponta da bancada, é o primeiro sinal de que há confiança em construção. Um grande passo de patinha, no tempo dela. E amor também é sobre paciência. Não importa a mordida que ganhei na mão, reação de medo diante de mudanças inesperadas e de dor por conta de uma infecção (já tratada). Lilith ajuda a lembrar que confiança não surge do dia para a noite. É preciso merecê-la. Provar com atitudes concretas, consistentes e constantes que há troca e trabalho contínuo, regado a transparência e vulnerabilidade recíproca, acontecendo. O cuidar e se deixar cuidar vai virando sinônimo de amar e pertencer. A confiança reduz incertezas, permitindo abertura e colaboração mútua. Esse serzinho de três quilos também se tornou agente de um despertar de senso de comunidade. Graças a ela, vizinhos que há anos moram no mesmo lugar e nunca tinham se falado formaram um time que a acolhe e se acolhe. Nos revezamos no atender das necessidades de Lilith, trocamos informações, debatemos ideias, votamos em soluções e tudo mais que colabore com o bem-estar de nossa guardiã: remédios, sachês, ração, areia, atendimento veterinário, força-tarefa para colocar na caixinha de transporte, entre outros meios e presentes de cuidado com a gatinha. O senso de comunidade é um sentimento de conexão que mostra que não estamos sozinhos nos desafios e experiências. Estrutura um sistema de apoio mútuo e compartilhado com inúmeros benefícios. Desde a melhora da saúde mental, com redução de estresse, ansiedade e solidão, elevando a motivação e a satisfação, até o crescimento de um estado de espírito que nutre individualmente e fortalece o coletivo. Se todos os moradores do condomínio entendem o poder do grupo em prol da gatinha? Infelizmente, não. Há quem sempre a quis fora daqui, a acusando de coisas que nunca fez. Uma pena. A comunidade tem muito a ganhar quando se mobiliza por um propósito — e não com foco em benefícios pessoais. Mas, assim como Lilith, talvez eles precisem de um tempo de compreensão sobre o bem que a convivência com um animalzinho — e pacífica entre vizinhos — nos traz de positivo. A Lei de Crimes Ambientais considera maus-tratos qualquer ato que cause sofrimento aos animais, incluindo a falta de alimentação. Com base nesse princípio, o ato de proibir a alimentação de um animal comunitário que já estabeleceu laços de dependência com moradores pode ser interpretado como maus-tratos. Diversas decisões judiciais vêm sendo tomadas nesse sentido. Juízes determinaram que condomínios não podem impedir que moradores forneçam comida e água a gatos de rua. A proibição pode levar à fome e ao sofrimento deles, o que é crime. O condomínio tem direito de criar regras de convivência. No entanto, a lei tem poder superior a essas normas. Mesmo que o regimento interno proíba a presença de animais em áreas comuns, essa regra não pode ir contra a Lei de Proteção Animal. Proibições absolutas são consideradas ilegais. Não bastasse confiança e comunidade, nossa Lilith ainda nos ensinou sobre justiça! Sorte daqueles que a querem bem.