(Pixabay) Chegou em casa tímido, medroso e bem pequenino, se fazendo de rogado no colo da vó. Nasceu no Morro do Pacheco, onde na época as ruas eram de terra batida e as escadarias sem acabamento de concreto. Das janelas, além da vista do centro que se expandia, viam-se os bananais, uma proteção natural da encosta. Vó Maria habitou o morro porque minha bisa procurou abrigo por lá junto com tantos imigrantes espanhóis e portugueses ao desembarcarem no porto sete décadas atrás. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Naquele dia, muitos anos depois, a vó visitava uma vizinha dos tempos do Pacheco. Nada tinha sido planejado, mas chegando lá, aconteceu. Meu irmão acompanhava a avó e se engraçou com os filhotinhos que brincavam serelepes entre si. A vó, encantada com a alegria do garoto, perguntou: — Quer levar um? — Minha mãe não vai deixar, vó. — Eu falo com ela. E assim foi a adoção. Chegou em casa sem aviso prédio. A mãe, viciada em limpeza, arregalou os olhos e vociferou: “Quem vai limpar a m.... dele, posso saber?”. O pai logo garantiu tarefa: “Será o guardião da casa”. O filhotinho tão fofo cresceu pouco. Baixote, tinha patas curtas; as partes quase encostavam no chão. Com pelos dourados, meu irmão o nomeou: “Se chamará Leão”. E assim foi. Um nome nunca combinou tanto com um cãozinho. As gengivas eram negras como petróleo e os dentes, ahhh!!! Se aqueles caninos falassem, certamente diriam quantas pessoas Leão mordeu entre amigos e familiares ao longo da vida. Só a mim foram três vezes. Que herança do Pacheco! A família começou a se dar conta da índole de Leão ainda pequenino, diante de seu comportamento com pássaros que vinham comer na goiabeira do quintal e com os gatos que surrupiavam pelo muro dos fundos. Quase ninguém passava vivo por lá. Nem mesmo a bola que lhe dávamos para brincar. Com o tempo, a coisa piorou e as pessoas se tornaram também seu alvo. A mãe só saiu ilesa dessa lista muito por conta da distância que mantinha da fera. “Não dou confiança”. Se Leão tivesse sido gente, certamente seria o personagem Hannibal Lecter. Seu instinto assassino era incontrolável. Tentamos de tudo que dispúnhamos na época para domar seu gênio, mas “tudo” se resumia à oferta dos restos do almoço e jantar e das tentativas de lhe conseguir uma namorada. Sempre falhas. Nenhuma cachorrinha se entregava ao comportamento violento do animal. A fama de Leão se espalhou. Certo Réveillon, a família reunida em casa, quase 20 pessoas. Os fogos da meia-noite começaram e, mesmo preso, Leão fugiu. Arrancou a coleira, pulou o muro que dividia o quintal da área de serviço. Da garagem da frente, escutei o grito: “O Leão tá solto, o Leão tá solto!!!”. A família toda correu para a rua e a festa de Ano Novo só voltou para dentro de casa quando meu pai conseguiu prendê-lo. Hoje, a 13 dias de comemorarmos o Dia do Cachorro (celebrado em 26 de agosto), nos lembramos dele com uma mistura de medo, riso e saudade. Leão deixou marcas e não foi só de dentes. Apesar de tudo, afinal, Leão era família.