Atriz é protagonista de Prazer, Zezé! O Musical, em cartaz no Sesc 14 Bis, em São Paulo (Priscila Prade/Divulgação) Levar aos palcos a vida de um dos nomes mais potentes da cultura brasileira não é tarefa simples e Larissa Noel sabe bem disso. Aos 29 anos, a atriz encara seu primeiro protagonismo nos palcos interpretando Zezé Motta em Prazer, Zezé! O Musical, espetáculo que revisita a trajetória da artista sob um olhar crítico e sensível. Em temporada até 21 de abril, no Sesc 14 Bis, em São Paulo, a montagem mergulha na história de uma mulher negra que construiu sua carreira enfrentando barreiras estruturais e abre espaço para reflexões que seguem atuais. Em entrevista, Larissa detalha o processo de preparação, os desafios de interpretar diferentes fases da homenageada e o impacto de representar esse legado nos palcos. Ela também fala da sua participação na série Emergência Radioativa, sobre a tragédia do césio-137 em Goiânia. Interpretar Zezé Motta nos palcos é um presente? O que você está sentindo e como tem sido sua relação com a própria Zezé? Com certeza é um presente, pela trajetória de vida artística e megainspiradora que ela tem, pela potência que ela representa na história da cultura brasileira. Nos falamos apenas uma vez no primeiro encontro, foi bem rápido, mas muito especial. Durante a preparação para o musical, houve algum aspecto da história ou da personalidade de Zezé Motta que te surpreendeu ou emocionou mais profundamente? O que me surpreendeu foi o tamanho da discografia de Zezé, com inúmeras músicas. Não sabia da existência delas! O espetáculo propõe um olhar crítico sobre a trajetória de Zezé. De que forma essa perspectiva aparece em cena? Todas as costuras de encenação e músicas fazem a gente mergulhar nas histórias e experiências artísticas que ela teve durante a vida e isso nos emociona e até mesmo nos coloca em reflexão. Você mencionou que se identifica com Zezé na relação com a arte e nas escolhas de carreira. Em quais momentos da sua própria trajetória essa conexão ficou mais evidente? Quando decidimos estudar teatro para além dos cursos convencionais fora das artes. Eu fiz curso de enfermagem (sem finalizar). Ela fez curso de contabilidade. Nossos pais tinham uma preocupação com nossa vida financeira e profissional e ambas também eram muito ativas nas atividades escolares que envolviam arte. Musicais exigem uma preparação intensa, com canto, atuação e movimento. Qual tem sido o maior desafio físico ou emocional durante os ensaios de Prazer, Zezé!? O fato de interpretar Zezé em todas as fases da sua vida, com alteração no tônus do movimento e vocais. O desafio é alterar esses timbres durante as duas horas de espetáculo A carreira de Zezé Motta abriu caminhos para muitas artistas negras no Brasil. O que representar essa história significa para você, como atriz negra da sua geração? Significa afirmar diariamente que tudo o que a Zezé bateu no peito para dizer que era uma necessidade se tornou possibilidade! A criação de um banco de dados (o Cidan), por exemplo, para catalogar os artistas pretos no Brasil, fez com que os produtores começassem a enxergar mais artistas negros, e se hoje eu me enxergo como protagonista é porque lá atrás ela e outros artistas também movimentaram o mercado para começar a redirecionar esse lugar de protagonismo preto. Ao interpretar Zezé Motta, você sente que também está ajudando a manter viva uma memória importante da luta por espaço e reconhecimento de artistas negros no Brasil? Com absoluta certeza, muitas jovens que estão ingressando no meio artístico me procuram para conversar sobre como é estar no meio, e agora, tendo também esse espetáculo como referência conseguem sonhar e concretizar algo que talvez pudesse estar só no imaginário delas. Como eu disse, é a possibilidade de tornar isso real. Além do teatro, você também vem construindo uma trajetória no audiovisual. O que muda para você como atriz ao transitar entre palco, TV e streaming? Como atriz, absolutamente nada. O que a gente administra são as linguagens diferentes em cada um, como explorar e atravessar o telespectador ou a plateia é diferente em cada meio de comunicação e para mim essa magia do interpretar de maneiras diferentes é o mais legal! Na série Emergência Radioativa, você interpreta uma das primeiras pessoas contaminadas no acidente do césio-137 de Goiânia. Como foi mergulhar em um episódio tão marcante do Brasil? Intenso! Era um elenco muito bom, e todos estavam muito mergulhados na história. Cada cena gravada me colocava num lugar de tensão do que provavelmente aconteceu durante o período da contaminação e só de imaginar, já emocionava muito a todos. Relembrar e no set reviver esses momentos desde a contaminação, até as cenas de conflito de médicos e pacientes, foi bem pesado. Ao mesmo tempo que todos ali era muito técnicos, aprendi muito com toda a equipe e elenco. Depois de viver uma personagem tão potente como Zezé Motta, que caminhos ou personagens você gostaria de explorar nos próximos passos da sua carreira? O maravilhoso de ser ator é justamente essa possibilidade de ser mil em um e o mais divertido para mim é isso. Em relação a personagens, eu ainda não penso numa preferência. Meus planos agora são ingressar mais em projetos de audiovisual/TV e explorar esse universo, mostrando assim como Zezé a versatilidade que tenho como multiartista.