Jacqueline Vargas é roteirista de sucessos como Floribella e Malhação (Divulgação) Autora, psicanalista, e roteirista, Jacqueline Vargas é a mente criativa por trás de trabalhos como a série Sessão de Terapia e as novelas Floribella e Malhação-Viva a Diferença. Nascida no Rio de Janeiro, iniciou sua jornada no mundo artístico nos palcos, como atriz. Junto com a sua carreira no mundo das artes, se dedica à psicanálise. Há mais de 20 anos, elabora roteiros para cinema e TV mas, recentemente, expandiu suas habilidades para o mundo dos podcasts e também como escritora. Em 2024, lançou seu primeiro livro infantojuvenil, A Arte de Cancelar a Si Mesmo, que mistura romance e fantasia e traz um tema muito atual que é a superexposição nas redes sociais e o cancelamento de quem somos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Você tem uma longa experiência como roteirista em gêneros diversos, mas em Sessão de Terapia pôde usar seu conhecimento também como psicanalista. Foi diferente dos outros trabalhos? Sessão de Terapia foi uma série peculiar, justamente por conta do formato. Era um paciente por dia, a estrutura, a linguagem, tudo era diferente. Foi por causa da série que comecei a estudar psicanálise. Nós tivemos um intervalo grande entre as temporadas e durante esse híato, fiz psicanálise. Quando voltamos, já estava formada. Não que eu soubesse muita coisa, mas nesse período, pude ter uma introdução melhor sobre os temas. Acho que quando você tem o mínimo de conhecimento sobre o assunto, se apropria mais, ousa mais. Quando não tem, tem que ter mais pesquisa, imersão. Foi mais prazeroso, e, por isso, acho que é uma das coisas mais autorais que fiz, mesmo sendo uma obra adaptada. Como surgem as ideias para um roteiro? E a construção dos personagens? As ideias podem surgir das mais diferentes maneiras, você pode estar caminhando, lendo um livro, cozinhando, conversando com alguém e de repente algo clica, alguém fala algo interessante e parece que os pontos vão juntando na sua cabeça e você pensa: “Isso daria uma história”. Tem a encomenda, quando você é procurada por um cliente para desenvolver uma história com tais elementos e tem que por a cabeça para funcionar. Uma vez que tem a história, o plot inicial, começa a construir o personagem. Se vai fazer uma trama sobre uma igreja mal assombrada, você pensa: “Quero um padre que seja muito discreto, que ande sem fazer barulho”, e começa a observar pessoas que podem parecer com ele, com o que está surgindo. Começo a construir o personagem fisicamente e depois vou para a história de vida, a psique. É um trabalho grande e quanto mais complexo for o personagem, quanto mais elementos você der a ele, melhor para você. Quanto mais completo está o personagem, ele te dá a história, você não precisa ficar inventando, ela vem junto. Outra vertente de trabalho são os podcasts como o #TdVaiFicar, que se tornou um dos programas mais ouvidos do ano de 2021. Por que você acha que os podcasts caíram no gosto do público brasileiro? Gosto de podcast porque o som é um instinto. Quando você está na barriga da sua mãe, está ouvindo o barulho do funcionamento do corpo, ouvindo tudo. O podcast no Brasil funcionou e continua funcionando bem porque se torna um amigo. A voz se torna uma voz conhecida. Você está trabalhando, fazendo faxina, exercício e tem uma companhia, ouvindo uma história, aprendendo alguma coisa, tirando uma dúvida. Não fica só. Acho que podemos investir muito mais nos podcasts de ficção porque eles proporcionam algo importante, principalmente para a geração mais jovem, que é o estímulo à fantasia, à imaginação. Eles não dão tudo pronto. Quando você vai ver um filme ou uma série, está tudo pronto, você senta e passivamente recebe aquela história, todos os elementos. Agora quando você ouve uma audiosserie ou audiolivro, você tem que fazer a sua parte, tem que imaginar, ver a história com seus olhos. Além do audiovisual, você entrou na literatura, primeiro lançando um livro em que fala da não maternidade. O que te levou a escrever sobre o tema? Escrevi o livro porque não tenho filhos e passei por vários processos na “não maternidade”. É um livro de poema de várias épocas. As perguntas que mais escuto quando digo que não tenho filho são direcionadas para sanar o problema de não ter filho, minha sensação é essa. As pessoas olham para quem não tem filhos e veem isso como um problema, sempre com “Ah, por que você não tem filhos?”, “Por que você não teve?”, “Você tem algum problema de saúde?”, “Aconteceu alguma coisa?”, “Ainda dá tempo de adotar, por que você não adotou?”, inclusive, uma vez eu estava em um lugar e as pessoas falaram “vamos arrumar uma criança para você!” e eu pensei que não é assim, como se eu precisasse da criança para ficar completa. Geralmente, o que ouço é isso, sempre no “por que”. Sou uma mulher sem filhos por opção e me identifico com a temática. Do que fala seu livro infantojuvenil? Fala da superexposição nas redes sociais, mas fala também de deixar registros nas mídias. Você vê o título do livro A arte de Cancelar A Si Mesmo e você pensa que é sobre cancelamento e, eu também estou falando de cancelamento, mas não só aquele de “Eu fiz algo errado e provoquei o meu cancelamento”. Às vezes o cancelamento pode ser do sujeito, quando você cancela a si mesmo, quando você deixa de ser você para ser uma pessoa que você não é e não quer ser somente para você surfar nas redes sociais ou para agradar alguém. Fala da Majô, uma influencer muito conhecida, muito famosa e talentosa e com 15 anos, ela some. Dizem que ela era obrigada a fazer aquilo, que ela fugiu, ninguém sabe o que aconteceu, Reza a lenda que ela quer se cancelar. Ela quer se deletar. A escolha foi justamente por uma observação das redes sociais hoje, de como isso é uma constante. É impossível falar do jovem adulto hoje e ele não estar com uma tela da mão, a tela é uma constante, é raro um jovem que não esteja em alguma rede social. Isso pode influenciar em vários aspectos e o que mais me intriga é como essa geração vai ser daqui a uns anos quando olharem para o passado e verem toda uma infância e adolescência registrada em detalhes na Internet. Na Internet, você pode apagar, mas, isso não significa que isso é de fato apagado. Tem algum novo projeto em mente? Terminar o segundo livro e publicar, porque é uma trilogia, Trilogia Virtual. O primeiro fala sobre a exposição nas mídias e o segundo é um romance que trata da sexualização da juventude e, em paralelo, da falta de manejo para flertar, para namorar.