Suzana Castelo: “Quando viramos mãe, a vida faz com que cada momento valha muito a pena" (André Wanderley/Divulgação) A atriz, apresentadora e produtora cearense Suzana Castelo sempre teve uma forte ligação com a arte. Na carreira, enfrentou desafios marcantes, como o filme Delicadeza (2022), que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz do 13° Festival Triunfo de Cinema Nacional. No teatro, destaque para a peça LiLi, idealizada por ela e inspirada nos diários de Lili Elbe, que também deram origem ao filme A Garota Dinamarquesa. A montagem chamou a atenção do roteirista indicado ao Oscar John Logan, que escreveu uma adaptação e levou o espetáculo a Nova Iorque. Suzana também é idealizadora, produtora e atriz do filme Guido, com direção de Jayme Monjardim, que conta a história do médico, seminarista e sufista brasileiro Guido Schäffer, que morreu aos 34 anos e está em processo de canonização pelo Vaticano. Ao domingo+, ela fala sobre o filme, a carreira e como a maternidade a transformou. "Hoje, posso dizer que enfrento melhor os meus desafios". Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sua trajetória começou no teatro, um espaço de experimentação e criação. O que dessa vivência você carrega até hoje para o cinema e o audiovisual? A experiência no teatro realmente fez com que eu tivesse um olhar voltado, principalmente, para a criação de personagens, bastante profundo. Aprendi muito a desenvolver cada movimento do corpo e ter um tempo longo de criação do personagem (preparação). Isso me faz ter uma base para estar pronta na chegada ao set. Essa intensidade de preparação dos personagens foi dada pelo teatro, assim como a visão do todo ao mesmo tempo. Falo isso porque no teatro a gente acaba aprendendo a fazer um pouco de tudo, em especial no meu caso, que fiz parte de uma companhia. Ou seja, ajudamos desde da criação do projeto ao desenvolvimento do texto, cenário, figurino e por aí vai. O teatro me deu essa visão artística ampla. Você teve uma formação internacional em Londres e depois aprofundou seus estudos no Brasil com nomes importantes do teatro. Como essa mistura de referências moldou sua identidade artística? Estudei quatro anos em Londres e ter tido essa experiência de vida e carreira me fez ter certeza do meu movimento. Sou uma admiradora de atores ingleses, pois eles têm uma vivência teatral muito grande. Lá, trabalhei muito o todo. Como falei anteriormente, é ter uma criação profunda, do corpo ao texto. Essa vivência que tive lá, a partir do corpo, me fez, ao voltar para o Brasil, começar a trabalhar com pessoas muito interessantes, tanto no teatro como no audiovisual. Fui somando cada vez mais para entregar o meu melhor. Aqui no Brasil, trabalhei com diretores no treino do improviso e isso foi somado com a experiência que tive lá fora. Aos poucos, fui desenvolvendo minha identidade artística. Ao longo da carreira, você também passou a idealizar e produzir projetos. Em que momento percebeu essa necessidade de ir além da atuação? Essa necessidade surgiu porque, em primeiro lugar, nem sempre eu estava trabalhando. E quando estava em algum projeto, me encantava pensar como aquilo poderia ficar ainda mais interessante ao público. Eu sempre tive essa visão. Dessa forma, analisava cada projeto com mais atenção desde a atuação até a divulgação. O meu olhar começou a ficar curioso e aguçado para projetos. Fui me aperfeiçoando e ao mesmo tempo veio a questão da necessidade, por nem sempre estar fazendo um trabalho. Em um momento posso estar em algo muito legal e daqui a pouco não ter algo em vista. É muito angustiante esse movimento, meio montanha-russa, pelo qual os atores passam frequentemente. A partir daí, comecei a pensar: preciso idealizar meus projetos, fazer minhas escolhas acontecerem e não ficar só esperando. Dessa forma, posso continuar trabalhando e fazendo as coisas que tenham demanda de público. Você tem três filhos. Como a maternidade influencia suas escolhas profissionais e a maneira como você constrói personagens? A maternidade mudou tudo! Primeiro que passei a não levar tão a sério as dificuldades, passei a enfrentar as coisas com muito mais leveza e garra. Falo isso porque, antes da maternidade, surgiam algumas situações, processos da vida pessoal e profissional, que me deixavam abalada. Fosse um personagem que não conseguia, um processo mais desafiador que às vezes me deixava angustiada ou chateada... Com a maternidade, as coisas passaram a ter um peso menor. Hoje, posso dizer que enfrento melhor os meus desafios e sou capaz de me aprofundar mais nas emoções. Quando viramos mãe, a vida faz com que cada momento valha muito a pena, porque quando você está focado em um projeto, ou compromisso, é um momento que você não está com seu filho. Você quer dar tudo de si, fazer valer, e com isso, acaba sendo mais seletiva com seu tempo e suas escolhas. O espetáculo LiLi, idealizado por você, ganhou projeção internacional. Como foi ver uma criação tão pessoal atravessar fronteiras culturais? Esse foi o primeiro projeto que realmente tomei frente, como está sendo com Guido agora. Um projeto que nasceu muito de um olhar que tive. Assisti ao filme, vi que esse projeto tinha sido baseado em um livro, uma adaptação, e essa adaptação foi feita a partir de diários que já estavam em domínio público. Como na minha história, enquanto artista e produtora, aprendi que esse tipos de obra — histórias reais — funcionam muito para se transformar em dramaturgia, resolvi seguir e colocar em prática. Dessa forma montei o projeto e mergulhei no processo. Tudo estava muito claro para mim, as coisas foram acontecendo. Como ele chegou a Nova Iorque? A primeira temporada foi um sucesso, com fila de espera, e quando meu parceiro foi passar uma temporada em Nova Iorque, conheceu o roteirista John Logan. Com isso, foi desenvolvendo uma parceria até que ele recebeu o texto do nosso trabalho para ler, traduzimos o texto para inglês e ele se envolveu no projeto, gostou muito do que leu, da nossa criação e a adaptou. Foi uma adaptação linda, por sinal. Ficamos muito felizes com essa parceria e com resultado final. É muito legal quando pensamos e idealizamos um projeto que dá certo. Atingimos nosso objetivo, que é conquistar o público. Agora, você chega ao cinema com um projeto muito especial, o longa Guido, sobre Guido Schäffer. O que te motivou a transformar essa história real em filme? A motivação para fazer esse filme veio por meio de uma experiência muito forte que tive com a fé em 2022, algo muito forte, místico, bem sobrenatural e inesperado. Ganhei uma fé inabalável e devo muito à intercessão do Guido. Ficou muito claro para mim que foi uma intercessão dele, porque na época passei a ir à missa todos os dias, justamente na Igreja Nossa Senhora da Paz (em Ipanema, no Rio de Janeiro, onde Guido dirigiu um grupo de oração). Duas semanas após ter essa experiência que me fez querer ir à missa diariamente, estudar, me aprofundar e ver que tudo que eu procurava estava ali, descobri que tinha um altar do Guido e tive uma sensação de como se o conhecesse de algum lugar. Quando cheguei em casa nesse dia, muito inquieta, em um momento de ebulição de uma recém-experiência muito forte com a fé, encontrei uma relíquia dele, um pedacinho de algo que já pertenceu a ele, como se fosse um santinho, sabe? Foi quando me dei conta que tinha isso há quase dez anos comigo. Tinha recebido anos antes e por alguma razão não havia jogado fora. Como isso te mudou? Eu nunca nem tinha prestado atenção, mas foi nesse momento que percebi e acreditei que ele tinha sido um grande intercessor daquela minha experiência muito forte. Entendi que precisava contar a história dele, fui percebendo e vendo que tinha uma coisa muito poderosa ali. Pesquisei mais e entendi que a história dele era extremamente cinematográfica: um jovem carioca, surfista, um grande médico, que doou a vida às pessoas mais vulneráveis, pessoas em situação de rua que nem os hospitais queriam receber. E ele morreu muito jovem, aos 34 anos, surfando, e pode se tornar o primeiro santo carioca. Tudo muito impactante. Então, entendi que toda essa minha experiência e o meu estudo me fariam contar essa história com toda dignidade e respeito que ele merece, respeitando a essência do Guido e ao mesmo tempo podendo levar tudo isso ao grande público. Essa história é realmente muito envolvente. Além de idealizar e coproduzir, você também atua no longa e dividirá o set com nomes como Danilo Mesquita, Malu Galli e Edson Celulari, sob direção de Jayme Monjardim. Como está sendo essa experiência coletiva? Foi um presente que o Jayme Monjardim me deu, a personagem Júlia. Deixei bastante nas mãos dele a escolha do elenco, fiz muitos projetos pensando em que personagem atuaria, mas com esse filme foi diferente. Queria muito contar essa história e não sabia o que poderia fazer ou iria abordar ainda, quais personagens específicas femininas teriam e se haveria algum para mim. Está sendo muito lindo ver pessoas como Malu Galli, Danilo Mesquita e Edson Celulari, tão talentosos e experientes, estarem neste projeto. Eu me sinto muito agradecida por estar trocando com pessoas sensíveis e dedicadas como eles. E estou amando fazer a minha personagem. Muito enriquecedora e que tem uma função dramática importante na história, pois ela foi noiva do Guido. É muito legal construir um personagem que teve um peso importante na vida e que impactou no processo de decisão dele para seguir o sacerdócio. Paralelamente, você também está à frente do podcast Café no Set. O que mais te instiga nas conversas com outros profissionais? Esse projeto de podcast eu ajudei a criar. Inclusive, é uma ideia de um grupo que me chamou e eles pensaram em fazer algum programa sobre cinema e na conversa fomos trazendo novas ideias e um conceito de produto e personalidades. Esse trabalho tem um papo profundo sobre cinema, sobre a vida como um todo. É maravilhoso fazer esse projeto, é uma forma de valorizar cada vez mais cada profissional da nossa área e eternizar o processo artístico de cada profissional.