A atriz e escritora Ingra Lyberato tem se dedicado também aos estudos de autoconhecimento e terapias (Ricardo Lage/Divulgação) Reconhecida por seus trabalhos marcantes na TV, no teatro e no cinema, a atriz e escritora Ingra Lyberato tem se dedicado também aos estudos de autoconhecimento e terapias que utiliza desde jovem. Autora de dois livros, ela lançará em janeiro sua 3ª obra, com o título O Despertar do Amor Sistêmico, Arte, Constelação Familiar e Xamanismo. No livro, Ingra fala da expansão da consciência para uma vida mais leve e criativa. Ao domingo+, ela detalha o novo desafio e aborda as transformações. Seus pais eram cineastas, você nasceu no cinema. Praticamente, a carreira na dramaturgia se impôs. Como foi expandir o seu horizonte e começar a escrever livros, além dos roteiros? Parece que até hoje eu vivi o sonho dos meus pais, que também se tornaram meus sonhos por causa da herança natural. Somos constituídos das experiências do passado, dos medos e sonhos dos nossos ancestrais. Portanto, existe muita força na conexão com nosso sistema familiar. Essa influência não está sujeita à crença de cada um. É como a lei da gravidade: você acredite ou não, ela está sendo aplicada em você. Eu recebi essa herança positiva de facilidade e ao mesmo tempo de busca do meu lugar no universo das artes. Herdei a busca por originalidade e fiz o caminho. Já o trabalho do universo terapêutico tem a ver com a ruptura de alguns medos e com passos inéditos que já posso dar em relação ao meu sistema. Sinto como um movimento em direção à individuação proposta por Jung. A artista está aqui dentro e se manifesta também dentro das sessões terapêuticas. Por exemplo, utilizo músicas, cantadas por mim. Mas nessas horas é a arte a serviço de transformações profundas, a arte como umas das ferramentas do processo terapêutico. Você publicou o seu primeiro livro, O Medo do Sucesso, em 2016. De onde veio a inspiração para a obra? Uma xamã e escritora, Ana Vitória Vieira Monteiro, fundadora do grupo de xamanismo do qual faço parte há 12 anos, identificou que eu carregava esse medo do sucesso, pois observou que sempre que eu estava no auge da exposição natural do trabalho de atriz, desaparecia de cena. No meu processo de mergulho profundo, percebi que colecionava muitos medos e que uma forma de curar o medo da exposição seria arrancar as máscaras de perfeição para revelar minhas fragilidades, publicando para todo mundo ver. Um tratamento de choque que eu senti que dava conta de viver para me superar. Esse primeiro livro foi uma cura profunda que mudou minha vida. A partir dele, meus medos deixaram de me bloquear internamente e eu passei a dizer sim para os novos caminhos que a vida me convida a trilhar. Toda a experiência de mais de década tem me mostrado que estou aqui para servir à vida e hoje eu obedeço tranquilamente os chamados que escuto através do meu coração, agora mais sensível e presente nas minhas tomadas de decisão. Isso pode parecer papo meio fora da realidade, mas é algo muito concreto. Simplesmente parei de seguir tanto os ditames da mente racional ou ego (que produz os medos) para escutar mais a sabedoria do coração, que é o grande mestre. Responsável pela coragem, coração que age. Esse é um processo infinito que acontece a cada instante, pois estamos falando de mudança de paradigma, onde saímos da ilusão da separação para enxergar a interrelação entre tudo o que existe. O que a levou para esse caminho de estudos? Desde minha adolescência, gostava de assuntos ligados ao autoconhecimento e à espiritualidade. Não tinha TV em casa, morava num sítio e de noite a minha mãe Alba lia livros que traziam conhecimentos filosóficos. No início da vida adulta, descobri a física quântica, o poder da mente e a visão sistêmica, mas sempre utilizei esses conhecimentos para crescer na carreira, nas relações sociais. Aos 46 anos, me peguei ainda buscando o sentido da minha vida. Já tinha realizado a maioria dos desejos que as pessoas julgam ser a fórmula da felicidade: sucesso, fama, modelo de beleza, casamentos que me ensinaram muito, um filho maravilhoso, mas com tudo isso eu sentia que carregava contradições, mentiras, máscaras, carências, ainda não estava sendo eu e, como disse, colecionava medos. Pedi ao Universo, à Vida e a Deus que me revelassem a verdade, expandissem minha consciência para além das escolhas automáticas, as repetições. Em pouco tempo, um caminho se abriu. Tive minha experiência xamânica dia 7 de setembro de 2013 e desde então são inúmeras curas que literalmente salvaram minha existência de muita ilusão. Você já pratica a constelação familiar desde os anos 90, época em que se falava pouco ou nada desse assunto. Como descobriu a constelação familiar e o que ela representou para você? Foi em 1996. Eu fazia parte de um grupo de estudos sobre física quântica e sobre o livro Um Curso em Milagres, com a psicóloga Cida Rabelo, no Rio. Ela soube da existência de Bert Hellinger (sistematizador da Constelação Familiar) através de uma aula com Rupert Sheldrake, o biólogo inglês que observou os campos mórficos. Já tive o privilégio de fazer seu workshop. Na época, a Cida resolveu ir ao encontro de Bert Hellinger e passou a frequentar seus workshops pelo mundo. Bert nem sonhava em vir ao Brasil. Quando Cida voltou do primeiro encontro com ele, montou um grupo de treinamento para ela. Eu estava nesse grupo. A primeira grande expansão de consciência aconteceu me expondo nos palcos teatrais, essa foi a segunda maior. Eu nunca havia experimentado canalizar informações do campo psíquico de outra pessoa de maneira instantânea. Estou falando aqui do método fenomenológico utilizado como ferramenta na Constelação Familiar. Daí veio todo o conhecimento sistêmico e tudo isso ia me encantando cada vez mais. Como, nessa época, eu utilizava esse conhecimento apenas para minha vida, pouco importava se ninguém conhecia. Vivíamos a Constelação os finais de semana inteiros. Não queríamos parar! Hoje é diferente. Quero contribuir para disseminar esse conhecimento através dos encontros presenciais, virtuais, de aulas e de livros. O que descobriu? Eu descobri que o tal livre arbítrio está resumido à escolha entre obedecer as leis que regem as relações ou não obedecer (risos). Parece pouco, mas na verdade isso muda toda a experiência de vida. Eu parei de brigar ou querer controlar o outro e a vida. Já entendi e aceitei que sou uma continuação dos meus ancestrais e a única maneira de viver novas histórias é primeiro olhar para trás, reverenciar, agradecer para então receber a força que vem de muito longe, o fluxo da vida que nos pede para nos tornarmos adultos e termos a coragem de soltar o passado para dar novos passos, evoluir. Você lança em janeiro o seu terceiro livro, O Despertar do Amor Sistêmico, Arte, Constelação Familiar e Xamanismo. Do que ele trata e como esses três temas conversam entre si? Foi só no processo de escrita desse livro, que durou quase três anos, que descobri a interrelação entre esses caminhos. Hoje, estão completamente entrelaçados dentro de mim e na prática. A arte é o início de tudo, é como fui criada e como vejo o mundo. Meus olhos foram estimulados pelos meus pais e pela profissão a enxergar sutilezas na natureza humana e poesia em gestos do dia a dia. Na minha experiência com constelação familiar, não havia arte no sentido da expressão artística, mas então eu fiz uma formação que utiliza musicoterapia: TSFI (terapia sistêmica fenomenológica integrativa). Nessa abordagem, uma das ferramentas de ordenação do campo, além das frases, é a música que na maioria das vezes eu canto. Na TSFI, tem também a abertura para a expressão corporal pelo conhecimento da traumoterapia que revela que o corpo não esquece as experiências. Tenho descoberto que nosso corpo é nosso inconsciente materializado. Da maneira que facilito, tem arte a serviço do processo terapêutico. Por fim, o grupo de xamanismo, que integro há 12 anos, é formado por artistas e tem seu trabalho ritualístico consagrado à criação artística. A expressão espiritual através da arte. Além disso tenho usado a constelação amiliar no processo criativo, na preparação das minhas personagens. Fiz em um trabalho meu e já ofereci para colegas com resultados impressionantes de experiências profundas de conexão com os personagens. Outras pessoas também têm usado no processo da escrita de roteiros e preparação dos atores de suas séries. É o caso da roteirista turca Nuran Evren Sit, criadora da série de sucesso na Netflix Uma Nova Mulher, que fala sobre constelação familiar. Trouxemos Nuran ao Brasil no mês passado e fizemos vários workshops apresentando a aplicação da constelação familiar na arte. Na carreira artística, tem planos ou projetos em andamento? Eu brinco que “obedeço ordens superiores" (risos). No momento, estou dedicada a lançar esse livro, mas existe sim possibilidades de atuar em breve, mas ainda não posso falar sobre. De qualquer forma sigo facilitando constelação familiar, dando aula e escrevendo até o convite se oficializar. Hoje, como você se vê? Atriz ou facilitadora para auto-ajuda? Está completamente entrelaçado. Vamos colocar assim: quando estou trabalhando como atriz, a facilitadora de constelação trabalha nas horas vagas. Hoje sou uma atriz com um olhar mais profundo e trago algumas novas ferramentas de preparação para mim e para os colegas que quiserem experimentar. Quando não estou atuando, me dedico em tempo integral aos estudos e atendo uma demanda crescente, de pessoas que querem viver a experiência da constelação familiar, do Banho de Floresta (cursei formação de mais de dois anos em ecopsicologia aplicada) e querem participar de aulas que ensinam sobre essa nova forma de ser e estar no mundo. Quem dita meu movimento é a própria vida e eu me dedico de corpo e alma ao que ela traz. Qual o seu maior sonho? Eu vivo meu maior sonho todos os dias, fazendo meu melhor. Lembrando que esse melhor está mais ligado a fazer com amor do que atendendo às exigências inalcançáveis do “eu idealizado”. Não tenho mais a ilusão de que existe algo maior do que esse momento presente. O estado de presença e concordância com a vida é uma benção. Traz força e paz para ser criativa e ocupar meu lugar servindo de alguma maneira. É quase como se não faltasse nada, mas ao mesmo tempo tenho um trabalho gigantesco a fazer: melhorar como ser humano, expandindo o amor maduro, amor sistêmico.