“Não tem como pensar em ingressar na carreira teatral se não tiver”, diz Hugo (Aloysio Araripe/Divulgação) O ator Hugo Kerth, de 34 anos, brilha no musical Espelho Mágico, que aborda os 60 anos da TV Globo e, depois de temporada em São Paulo, segue para temporada no Rio de Janeiro. Além de interpretar o icônico personagem Odorico Paraguaçu, da novela O Bem Amado, ele coopera atrás dos palcos. Formado em canto pela New York Vocal Coaching, Kerth é coach de voz do protagonista do musical, o ator Marcos Veras. Ao domingo+, ele faz um balanço do trabalho no espetáculo, admite ter o sonho de fazer cinema e novelas e dá importantes conselhos a quem pensa em trilhar carreira na área artística. "Não tem como pensar em ingressar na carreira teatral se não tiver persistência, ouvidos abertos para críticas, humildade para ouvir os muitos nãos e fé para continuar, mesmo com adversidades". Você está no espetáculo Espelho Mágico, que conta os 60 anos de história da TV Globo. Como é interpretar um dos personagens mais marcantes da teledramaturgia brasileira, Odorico Paraguaçu, da novela O Bem Amado (1973)? Interpretar um personagem de tanta relevância para a teledramaturgia brasileira é, antes de tudo, uma honra e um privilégio. Assisti à icônica interpretação do Paulo Gracindo, que foi a inspiração original, e pude extrair dele as referências para a minha própria interpretação deste personagem. Como surgiu o convite para participar desse musical? Eu fiz todo o processo das audições. Minha ligação com a TV Globo é de muita memória afetiva, principalmente os programas infantis, que são de onde vêm as memórias mais antigas minhas com a televisão. Sair para a escola e voltar logo para assistir à TV. Além de interpretar Odorico Paraguaçu nos palcos, você tem uma função importante fora dele, sendo coach de voz do protagonista Marcos Veras, pois você é formado em canto pela New York Vocal Coaching e professor da instituição. Como é esse trabalho? Ser preparador vocal e professor de canto é minha função há mais de dez anos, em paralelo com a atuação. Nesse projeto, tenho o prazer de colocar ambas em prática. O Marcos Veras me chamou, ainda nos ensaios, para ajudá-lo com as músicas do espetáculo e com a resistência vocal, já que ele quase não sai de cena. E ainda naquela época dei algumas aulas para ele, outras durante a montagem de São Paulo e vamos seguir com a preparação no Rio. É um trabalho que exige dedicação e tempo, mas os resultados dessa prática e dessa disciplina são notórios! Sua carreira artística é voltada ao teatro, com participações em inúmeros musicais. Você sempre quis trabalhar nessa área ou foi uma oportunidade que surgiu? Eu sempre quis trabalhar com teatro. Saí de Teresópolis para cursar Artes Cênicas na UniRio, mas foi na própria instituição que tive contato com o teatro musical pela primeira vez. Ali conheci o projeto que me deu destaque (The Book of Mormon) e desde então não parei de fazer musicais. O teatro sempre foi uma vocação, desde pequeno, mas o musical em si só surgiu nessa época da faculdade. Tem o sonho de fazer novelas ou cinema? Bastante. Já tive pequenas oportunidades na TV, mas que nunca chegaram a ser levadas adiante, seja pelo projeto em si, seja pela minha agenda de aulas e de palco. Mas, sem dúvida, fazer trabalhos no cinema e na TV está nos meus planos. Após as exibições de Espelho Mágico chegarem ao fim, quais seus planos profissionais? Quero me dedicar ao ensino do canto e à pesquisa em voz. Atualmente sou membro da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, assistente do Centro de Estudos da Voz de São Paulo, coordenado pela fonoaudióloga Mara Behlau, e em outubro apresento um trabalho importante em uma conferência em Los Angeles, na área de voz, pela Vasta, instituição internacional de renome de coaches de voz. Ainda este ano, será lançado um projeto meu de ensino a distância, cujo nome ainda não posso revelar, e tenho certeza que vai impactar não somente meus alunos, mas toda a comunidade de professores de canto, pesquisadores e artistas que trabalham com a voz cantada. Qual conselho você dá a quem deseja ingressar na carreira artística, em especial a teatral? Paciencia y fé, parafraseando uma conhecida personagem do musical In The Heights. Não tem como pensar em ingressar na carreira teatral se não tiver persistência, ouvidos abertos para críticas, humildade para ouvir os muitos nãos e fé para continuar, mesmo com adversidades. Todos têm oportunidades, mas elas são desiguais, infelizmente. Estude, sobretudo, antes de qualquer coisa. Busque formações em escolas de teatro especializadas, corra atrás de professores capacitados, faça audições. Sem a tentativa de ser visto primeiro, de ser visto tentando, não tem como o mercado te absorver. Como você vê a nova geração que procura o teatro? A geração Z está chegando aos palcos da mesma forma que ocorria antigamente? Definitivamente, não. A minha geração já é uma geração de internet. Porém, não como essa, que hoje tem a internet na palma da mão o dia inteiro, sendo consumida pelas redes sociais, pelos memes, pelos vídeos virais e pela constante necessidade de permanecer on-line e ser visto pela audiência. O artista dessa geração tem um desafio diferente do que eu tinha quando ingressei no teatro, lá em 2003, que é a adaptação de linguagens. As novelas, por exemplo, saíram da televisão e estão nas redes sociais, nas chamadas novelas verticais. Que nome se dá a isso? É uma novela/série que virou vídeo de internet? Ou é a internet que agora entrega novelas? O tipo de atuação muda junto com o tempo de exibição? Na minha opinião, o jovem que deseja ingressar no mercado precisa estar atento não somente ao lugar em que desejar estar, mas em qual veículo e para qual ferramenta ele tem que se adaptar. É tudo uma questão de linguagem, adaptação ao mundo moderno e visão de mercado.