(Divulgação/Paris Filmes) Homem com H é daqueles filmes que você assiste, se apaixona e coloca na estante virtual dos seus favoritos para ver de novo, de novo e de novo, incontáveis vezes. Escrito e dirigido por Esmir Filho, retrata a trajetória de Ney de Souza Pereira, o Ney Matogrosso, de 83 anos, desde a infância até o estrelato. O roteiro costura uma trama de acontecimentos importantes na vida pessoal e artística de Ney, revelando pouco a pouco a sua personalidade forte, assertiva e criativa. Mostra um homem cabeça feita desde menino, que não teve espaço para ser criança, crescendo sob a rígida educação do pai militar (Rômulo Braga), a quem respeitava, amava e tinha como referência máxima, mas contestava. O longa-metragem se desenrola seguindo a cronologia de fatos marcantes nos anos em que se sucederam, como a sua inserção na banda de rock Secos & Molhados, a construção da sua personagem artística e o relacionamento com Cazuza, entre outros pontos. O filme é um deslumbramento tão ousado e arrebatador quanto o homenageado e, portanto, um tributo precioso ao artista ainda em vida. Trata-se de uma cinebiografia ainda mais especial, porque Ney acompanhou algumas gravações no próprio set de filmagens, validando cada parte de sua história na obra fictícia. É Jesuíta Barbosa, de 33 anos, quem interpreta, ou melhor dizendo, incorpora Ney Matogrosso na telona. O ator pernambucano dá vida ao lendário mato-grossense em uma entrega nada menos do que fascinante, apoteótica e apaixonante. Jesuíta usou toda a sua versatilidade, carisma, beleza, brilho e talento na reconstrução da persona impactante de Ney. Por vezes, nos confundimos se a aparição em cena é a ficção ou a realidade, não somente pelos figurinos fidedignos, especialmente na fase dos Secos & Molhados, ou por requebrar com toda a sensualidade quanto o homenageado, e sim por Jesuíta interpretá-lo sem imitá-lo. O ator entrega uma performance que nos oferece uma experiência sensorial, emocional e vibrante. Parte fundamental desse encanto são os expressivos olhos castanhos de Jesuíta, tanto quanto os de Ney. Para além de um roteiro fora da curva, Homem com H prima pela direção de arte. É um filme esteticamente lindo, com cenários montados a partir de fotos do próprio Ney, que documentam fases de sua vida, desde a infância até os dias de hoje. As cores quentes e frias, ora condensadas, ora em profundo contraste, dão a dimensão exata das dores, alegrias e êxtase vivenciados por Ney no decurso de sua vida. A trilha sonora é coprotagonista desse espetáculo dionísico, para o deleite do espectador e fã de canções como Rosa de Hiroshima, Homem com H, Sangue Latino e Balada do Louco, entre outras. Ainda sobre a relação de Ney com o seu pai, a reconciliação é coroada com O Mundo é um Moinho, do mestre Cartola, na versão gravada por Ney. Se, por um lado, a aparição de Cazuza (Jullio Reis) é uma das sequências mais nostálgicas do filme, é a relação amorosa de Ney com o médico Marco (Bruno Montaleone), que morre em consequência do vírus HIV, a mais comovente. O grande trunfo de Homem com H não é reconstituir a personalidade fascinante de um mito de carne e osso, mas construir uma narrativa tão sedutora quanto impactante que nos surpreende até nos fatos cotidianos da vida do artista, abrindo e bagunçando as gavetas de nossas emoções, sentimentos e nossas próprias memórias, embaladas pelas canções de Ney Matogrosso. Em resumo, Homem com H nos diz que o sucesso na vida, sob todos os aspectos, é para quem se atreve, ousa e se permite ser livre, dando vazão aos instintos e intuições. Então, assim como Ney Matogrosso, seja bicho, seja gente, seja autêntico, viva intensamente. Nota da crítica: + + + + +