Gustavo Vaz: “Sou um artista que busca estar sempre em escuta, com a sensibilidade aberta para o espírito do nosso tempo" (Caio Oviedo/Divulgação) Gustavo Vaz transita entre do terror psicológico de Reencarne ao olhar político de Justino, passando pela força do teatro e pelo experimentalismo que ele cultiva há mais de uma década. O ator — também escritor e criador — se tornou uma voz inquieta de sua geração. Nesta entrevista, ele fala sobre o mergulho no universo sombrio de Reencarne, reflete sobre espiritualidade, afeto e política. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Reencarne traz uma atmosfera sombria e sobrenatural pouco explorada nas produções brasileiras. Como foi para você mergulhar nesse universo e equilibrar o terror com o drama humano do seu personagem, Ricardo? Nós passamos por um processo de preparação muito significativo com a Estrela Strauss, no qual algumas dessas questões surgiram em diferentes momentos. Havia, no início, uma preocupação com o gênero — essa linguagem particular do terror — e se precisaríamos adotar uma abordagem distinta por se tratar de uma série desse tipo. Mas, ao longo do trabalho, fomos entendendo que o essencial continuava sendo o mesmo: construir a humanidade dos personagens, desenvolver as relações com suas nuances e complexidades. O restante — os efeitos visuais, a montagem e a trilha sonora — completaria o conjunto, ajudando a criar essa atmosfera sobrenatural que envolve a narrativa. Você descreve o Ricardo como um homem que tenta manter o amor e a família enquanto tudo à volta parece ruir. Você busca em você vulnerabilidades para formar o personagem? De certa forma, acredito que nós, artistas, sempre acessamos lugares pessoais — experiências passadas — para compreender as situações pelas quais nossos personagens estão passando. Sem dúvida, emprestei muito da minha própria história para construir essa relação: momentos em que senti que poderia estar perdendo coisas importantes na minha trajetória, vínculos significativos, pessoas essenciais. Esses reflexos de vivências reais certamente fizeram parte da composição. Mas muito também nasce no jogo cênico. No encontro com a Taís e com a Júlia, fui descobrindo a natureza dessa relação, a qualidade e a profundidade do vínculo entre os personagens. Essa é sua segunda parceria com Taís Araújo, depois de Aruanas. O que mudou na forma de vocês contracenarem desde aquele primeiro trabalho até agora? Meu primeiro encontro com a Taís, em Aruanas, foi muito divertido. Embora tenhamos contracenado pouco naquela série, o jogo fluiu de forma muito natural. A Taís é uma atriz de escuta muito atenta, com uma interpretação naturalista extremamente refinada. Já naquela época eu percebi essa potência dela em cena, mesmo nas poucas interações que tivemos. Em Reencarne, pude confirmar isso plenamente: contracenar com a Taís é sempre uma experiência viva. Cada cena é diferente, cada take traz um frescor novo. Não sei se algo mudou exatamente, mas acredito que nosso trabalho se aprofundou. Tivemos mais tempo juntos, o que permitiu nos divertir mais e trocar de maneira muito rica. Foi uma parceria muito feliz para mim. Que leitura você faz dessa mistura entre o real e o espiritual no contexto atual? Acho que vivemos uma época marcada por um grande afastamento dessa relação sagrada com a vida. A sociedade neoliberal em que estamos inseridos estimula uma competição incessante, uma lógica em que o outro é visto quase como um obstáculo — quando, na verdade, é justamente na relação com o outro que encontramos sentido, que construímos o significado da existência e o contato com o sagrado. Infelizmente, vivemos tempos empobrecidos nesse aspecto: perdemos, em grande parte, a conexão com o mistério, com o espiritual, que é algo essencial à experiência humana. A série, embora pertença ao gênero do terror, toca nessas camadas do desconhecido que também moldam quem somos — e talvez até o motivo de estarmos aqui. Vivemos numa sociedade que parece funcionar para nos afastar dessa dimensão: somos constantemente levados ao consumo, à busca incessante por dopamina, imersos em um fluxo de informações e estímulos que não nos permitem o silêncio nem a escuta interior. Trabalhamos de forma exaustiva e, nos momentos de descanso, nos perdemos em telas e redes sociais. Tudo isso cria uma desconexão profunda — de nós conosco mesmos, com os outros e, em última instância, com a natureza. Acredito que a busca pelo sagrado e pelo mistério é fundamental para uma experiência humana plena. Mas, dentro de uma sociedade que celebra a competição, o individualismo e o empreendedorismo como valores absolutos, torna-se cada vez mais difícil encontrar espaço e tempo para o silêncio, para o desconhecido — tanto o do mundo quanto o que habita dentro de nós. Você voltou aos palcos com Terminal, peça que também escreveu. Como esse processo autoral influencia o seu olhar como ator? Meu desejo pela criação autoral vem de muito tempo. Há 13 anos fundei, ao lado do Bernardo Galegale, a ExCompanhia, um grupo de pesquisa cênica multimídia que trabalha com dramaturgia site-specific, com a noção de teatro expandido, que ultrapassa os limites do palco, e também com a aproximação entre arte e tecnologia. Esse impulso de desenvolver um olhar próprio sobre as coisas me acompanha há bastante tempo. De certa forma, acredito que o trabalho do ator já é, em si, um ato autoral. Mesmo partindo de um roteiro pré-existente e sob a condução de uma direção. A diferença talvez esteja no grau de liberdade e no tempo de elaboração. Você vai interpretar um pastor evangélico num filme que toca em temas delicados sobre fé e poder político. Como você se prepara para um papel que lida com crenças tão enraizadas no Brasil? Acabo de ter uma semana de preparação em Salvador, junto com o diretor José Eduardo Belmonte e um elenco maravilhoso. Foi um período muito rico, em que tivemos tempo para nos ouvir, conversar e experimentar camadas desses personagens — refletindo sobre as complexidades e possibilidades do roteiro, e aproximando suas discussões da atualidade. Esse processo já se tornou um material importante para intuir caminhos de aproximação com o personagem. Você está escrevendo um novo monólogo que une arte, tecnologia e meio ambiente. Como enxerga o papel da arte diante das transformações (e ameaças) do nosso tempo? Sou um artista que busca estar sempre em escuta, com a sensibilidade aberta para o espírito do nosso tempo, esse zeitgeist que nos atravessa. Dentro da ExCompanhia, esse tem sido um eixo constante de pesquisa: entender a tecnologia não apenas como ferramenta, mas como força que transforma a experiência humana e as relações entre as pessoas. Nos últimos trabalhos, o grupo tem se debruçado sobre como a tecnologia, dentro do sistema econômico atual, é utilizada tanto para o desenvolvimento quanto para a exploração e a manutenção de privilégios e estruturas de poder. Esse olhar para o contemporâneo parte sempre de perguntas: por que as coisas são como são? Para onde estamos indo enquanto sociedade? O que os movimentos de hoje anunciam sobre o futuro? Acredito que a arte tem, em alguma medida, essa função e esse poder — o de olhar para o mundo de forma antecipatória, como uma antena que capta o que ainda está por vir. Falar desses temas hoje, provocar reflexão e servir como ponto de alerta sobre os efeitos da tecnologia em um sistema capitalista de exploração e acumulação — e sobre suas consequências para a natureza e para a própria experiência de ser humano — me parece urgente. Nosso tempo, em muitos sentidos, parece estar se esgotando, e talvez a arte seja uma das últimas formas de tentar escutar e reagir a isso.