[[legacy_image_246696]] Ao longo de mais de 30 anos, cientistas brasileiros e colegas do exterior estudam os golfinhos de Laguna, em Santa Catarina. Lá, esses animais desenvolveram uma notável relação com os pescadores, da qual ambos se beneficiam. Por muito tempo, os especialistas até duvidaram dos relatos. Mas um estudo que acaba de ser publicado conclui que a parceria existe e é um comportamento passado ao longo de gerações de golfinhos e humanos. O objetivo das duas espécies é o mesmo: capturar a maior quantidade possível de tainhas. Não se sabe como essa relação começou, mas o tempo permitiu uma troca de informações que passou a definir ambos. Tal qual cães que pastoreiam ovelhas, os golfinhos cercam os cardumes, batem as caudas na água para indicar a presença dos peixes e os pescadores lançam as redes. Encurraladas e dispersas, as tainhas caem tanto nas redes quanto se tornam presas mais fáceis para os golfinhos – que costumam agir com parceiros de sua espécie, com os quais parecem compartilhar esses conhecimentos. A prática, estudada inclusive com a ajuda de drones e hidrofones, coloca a cooperação existente em Laguna como uma das mais bem documentadas no mundo (veja detalhes em Guia Alado). Mesmo assim, ela ainda causa muita perplexidade entre os especialistas. E na lista de motivos está a questão de que tal comportamento pressupõe a existência de uma cultura, perpassando gerações. No mundo, ainda são poucos os registros documentados. Com exceção de cetáceos e de um pássaro africano, apenas primatas como chimpanzés e orangotangos já demonstraram tal capacidade. Além da dificuldade que envolve esse tipo de estudo, há um fator ainda mais limitante: parte dessa cultura está desaparecendo. Tanto os pescadores quanto os golfinhos andam escasseando. Trata-se da descontinuidade de todo um saber. A esperança hoje, dizem os cientistas, repousa no registro dessa história. As provas coletadas pela Ciência talvez nos façam mais humildes e permitam ver o mundo além dos humanos. Guia aladoRelatos antigos, costumes ancestrais e evidências científicas demonstram que a relação de parceria e transmissão de conhecimento entre a vida não domesticada e os humanos já foi mais numerosa. Hoje, de fato, temos poucos exemplos documentados. É o caso de uma ave africana, que recebeu o sugestivo nome de Guia do Mel. Por meio de vocalizações específicas (trinados), ela ajuda os nativos na localização de colmeias. O humano fica com o mel, que o pássaro não consome, e este, livre das abelhas, alimenta-se da cera e das larvas. Há, também, casos de aprendizado. No Japão, na década de 1950, os macacos da ilha Koshima comiam batatas impregnadas com terra. Um dia, um deles começou a limpá-las em um regato. Com o tempo, todo o comportamento do bando mudou.