Gabriel Santana celebra sucesso (Divulgação) Aos 26 anos e com mais de uma década de carreira, Gabriel Santana vive uma fase de expansão profissional. Em cartaz com a comédia O Marido da Minha Mulher, até o dia 28 no Teatro Itália, em São Paulo, o ator celebra o sucesso da montagem e destaca a importância do palco em sua formação artística. Conhecido por trabalhos em Chiquititas, Malhação e Pantanal, ele também reflete sobre a visibilidade conquistada após o BBB 23, a importância da representatividade LGBTQA+ e os novos caminhos que vem trilhando como produtor, diretor e empreendedor. Em entrevista, Gabriel define o momento atual da trajetória em uma palavra: semear. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O Marido da Minha Mulher tem lotado sessões em São Paulo. Na sua visão, qual é o principal ingrediente que faz essa história continuar conquistando o público depois de tantos anos? Acredito que o sucesso da peça se deve, principalmente, ao tema. Desde que o mundo é mundo e o teatro é teatro, nós falamos sobre relacionamentos, ciúmes e como lidar - ou não - com isso, expondo os lados positivos e negativos de uma vida a dois. Na peça, nós pegamos essa situação de ciúme dentro de uma relação e a esgarçamos ao máximo. Chegamos ao ponto em que o personagem morre e, mesmo morto, não quer que a mulher se case com o seu pior inimigo. É um tema cômico, mas também um reflexo de algo que as pessoas têm medo e, por identificação ou por achar um absurdo, acabam rindo da própria desgraça. Esse texto, somado a uma boa atuação, direção e produção, faz com que a peça continue há mais de dez anos sendo reconhecida no Brasil todo e com salas cheias. Você é conhecido por trabalhos na televisão, mas agora está à frente de uma comédia teatral que depende muito da resposta da plateia. O que o teatro ao vivo tem te ensinado como ator? O teatro profissional está na minha vida desde 2015. Minha carreira foi construída paralelamente entre o audiovisual e os palcos. Foi o teatro que me deu a base, que me fez entender o ofício da atuação, as linguagens e tudo o que eu sei e desenvolvo. O audiovisual traz uma repercussão midiática mais rápida e fácil, as pessoas me reconhecem muito por conta disso. Mas essa competência que mostro nas telas foi muito aperfeiçoada no teatro. Toda a base de atuação contemporânea do audiovisual deriva do teatro. O palco me ensinou a dar nome às técnicas e me trouxe profundidade de conhecimento, tanto de pesquisa quanto de prática. Sou formado em Artes Cênicas e pós-graduado em Direção, então todo o meu entendimento de atuação vem do teatro. Seu personagem, Alex, retorna como fantasma para impedir o casamento da própria esposa com seu maior rival. O que mais te divertiu e o que foi mais desafiador? O mais divertido é que o Alex é uma caricatura do ser humano moderno, especialmente dentro do arquétipo masculino. Ele é tão preso ao relacionamento e tem um ciúme tão exacerbado que, mesmo após a morte, não aceita que a parceira siga a vida com outra pessoa - ainda mais com alguém que ele não gostava em vida. Chega a ser bizarro, porque ele prefere obrigar o melhor amigo a se casar com a viúva do que vê-la com outro homem. Ele impõe isso de uma forma violenta, caricata e até castradora, verbalizando coisas como: “você vai casar com ela, mas não quero contato físico, beijo e muito menos sexo”. O desafio é fazer essa caricatura soar humana, real e natural. Além disso, há o desafio técnico do ofício. Como o Alex é um fantasma, apenas um personagem em cena consegue enxergá-lo e ouvi-lo: o melhor amigo dele, interpretado pelo Gustavo. Então, mesmo que a cena tenha quatro atores no palco, meu único recurso de contracena direta é com o Gustavo, o que exige que toda a minha atenção esteja nele. É muito difícil se relacionar indiretamente com os outros personagens, reagindo ao que acontece sem puxar o foco da cena para mim quando a atenção precisa estar em outra situação. Foi um grande desafio nos ensaios. A peça aposta bastante em improviso e interação com o público. Teve alguma situação inesperada ou especialmente engraçada? O Gustavo (parceiro de cena) é imparável, ele improvisa o tempo inteiro e nos pega desprevenidos em muitos momentos. O maior desafio é manter a seriedade e não perder o ritmo porque você está rindo da piada inesperada que ele acabou de fazer. Tenho aprendido muito com ele, que tem desfeito muitos medos e inseguranças minhas em cena. Lidar com o público é sempre um desafio, especialmente com a plateia contemporânea, que está muito acostumada com a dinâmica do stand-up comedy e busca essa relação direta com quem está no palco. Em muitas situações, as pessoas interagem de um jeito engraçado porque estão muito envolvidas na história. Elas chegam a parar a cena para reclamar, rir ou fazer comentários em voz alta. Temos até uma espectadora assídua, uma senhorinha chamada dona Dalva, que já foi assistir à peça umas três vezes. Nós já a conhecemos. Quando ela está na plateia, a gente já se avisa nos bastidores: “A dona Dalva está aí hoje, o que será que ela vai falar?”. É desafiador, mas muito divertido, porque nos coloca em uma posição de construir o espetáculo junto com o público, entendendo que a plateia é parte integrante da apresentação. Você passou por produções muito populares, como Chiquititas, Malhação e Pantanal. Como você avalia a evolução do ator Gabriel desde aqueles primeiros trabalhos até hoje? Eu vejo como um processo natural de amadurecimento. Comecei a atuar muito cedo, com 13 anos. Por mais que a rotina intensa que tive em Chiquititas - gravando de segunda a sábado por dois anos - tenha me dado uma bagagem prática imensa, o tempo e a constante busca por evolução foram fundamentais. Eu sei de tudo o que preciso melhorar e busco isso incansavelmente. A carreira de ator é uma maratona a longo prazo, e a nossa querida Fernanda Montenegro está aí para provar isso com sua trajetória brilhante. Diante da minha idade e dos projetos que já realizei, me considero um ótimo artista e ator, mas entendo que o Gabriel de 13 anos foi amadurecendo junto com o Gabriel profissional. Essa sede de conhecimento e de aperfeiçoamento reflete diretamente nos trabalhos que fiz. Passei por Chiquititas, Malhação, Pantanal, pelo Big Brother Brasil 23, e hoje tenho feito séries e filmes com cargas dramáticas cada vez mais complexas e desafiadoras. Avalio minha carreira hoje como algo sólido e muito interessante. Depois da experiência no Big Brother Brasil 23, sua relação com o público mudou? De que forma essa exposição influenciou sua carreira? O BBB é o maior reality show do mundo em termos de audiência, engajamento e convivência. A exposição midiática que ele proporciona é surpreendente. Acredito que o programa deu a oportunidade de as pessoas conhecerem o Gabriel além do ator, a pessoa por trás das personagens. Hoje em dia, sinto que o público me reconhece muito mais pelo meu próprio nome. Claro que o carinho pelas personagens antigas continua, muitas pessoas ainda me param e dizem: “Olha, o Mosca de Chiquititas! É Gabriel seu nome, né?”. Adoro e tenho muito orgulho de ser reconhecido pelo Mosca, pelo Cleber de Malhação, pelo Renato de Pantanal, ou pelos meus trabalhos no cinema e no teatro. Mas o BBB me colocou em um lugar diferente e muito especial, que é o de ser validado como indivíduo pelo público. Foi um divisor de águas importante na minha trajetória. Estamos no Mês do Orgulho LGBTQA+. Como bissexual, qual a importância de ocupar espaços de destaque contribuindo para a representatividade? A representatividade é um pilar essencial, mas ela precisa ir além da superfície. Não adianta termos apenas a pessoa em frente às câmeras ocupando um lugar de visibilidade se todas as camadas por trás - roteiristas, diretores, produtores, equipes de câmera e assistência - não forem proporcionalmente diversas também. Acho fundamental que pessoas bissexuais, pretas, mulheres, gays e transexuais ocupem todos os espaços na sociedade. E quando digo todos os espaços, me refiro tanto ao que aparece na tela quanto aos bastidores, de forma proporcional à realidade demográfica do nosso país. Se mais da metade da população brasileira é preta, por que essa mesma proporção não se reflete nas equipes que dirigem, escrevem, produzem e atuam? A arte é sobre narrativa. Ninguém melhor para contar uma história, com suas dores e especificidades, do que alguém que viveu aquela experiência na pele. Ter essa diversidade na liderança é o que de fato gera a melhor história para ser contada. Ver atores bissexuais, pretos e trans nas telas é um excelente primeiro passo, mas o objetivo final é estrutural e deve alcançar todas as etapas da produção artística. Se pudesse definir o momento atual da sua trajetória em uma única palavra, qual seria? A palavra seria semear. Sinto que tenho semeado em diferentes frentes e momentos, cada um por uma razão específica. Tenho buscado aprender com os meus erros para fazer diferente e tentar acertar nas próximas oportunidades, o que por si só já é semear novas possibilidades. Estou semeando no setor artístico, evoluindo no meu ofício como ator; semeando novas frentes como produtor e diretor; e semeando minha relação com o público como figura pública. É uma fase de plantio, aprendizado e colheita contínua. Existe uma frase simples, mas muito real, que diz que ninguém é tão sábio que não tenha nada a aprender, e ninguém é tão leigo que não tenha nada a ensinar. Quando olho para os meus 12 ou 13 anos de carreira, sinto muito orgulho de tudo o que construí para chegar até aqui, mas sei que a estrada é longa e estou apenas no começo. Tenho 26 anos de idade, muito caminho pela frente, muitos ‘sims’ e ‘nãos’ para receber, e sigo firme nesse processo de semeadura.