Com o primeiro protagonista da carreira, uma participação em série já consolidada e um papel desafiador no cinema, o ator Gabriel Barreto atravessa um momento de intensidade criativa e transformação. Ele falou sobre as novidades, como a novela vertical que já tem mais de 15 milhões de visualizações, os aprendizados e como enxerga o futuro do audiovisual brasileiro. Como foi protagonizar Com Licença, Eu Sou o Big Boss, novela vertical da plataforma ReelShort? Quais foram os principais desafios desse novo modelo? Foi meu primeiro protagonista, então esse fato por si só já é um desafio, no melhor dos aspectos. Foi engrandecedor em todos os campos. Nessa produção, as coisas acontecem muito rápido, então a disponibilidade tem que ser total, no sentido de escuta, atenção, jogabilidade com o elenco. Todos temos que criar uma conexão muito rápida e presente. E tivemos isso com o elenco, que é excelente. O diretor, Marcelo Zambelli, supercraque de novelas e cinema, deixou tudo muito tranquilo no set. O Alex Kingsley é um personagem que testa o caráter das pessoas ao seu redor. Como foi construir esse perfil? O Alex foi um processo, apesar de rápido, vertical, porque é aquele personagem que sabe de tudo o que está acontecendo, enquanto todos os outros estão sem nenhuma ideia, ou uma falsa ideia. Foi divertido criar esse limiar tênue de estar testando o limite do próprio Alex em relação aos outros personagens. O que mais me atraiu foi exatamente essa perspectiva que vemos muito nas peças de Gogol: o personagem e o espectador sabem tudo, enquanto todo o resto não sabe. A novela vertical já ultrapassou milhões de visualizações. Como você enxerga o impacto desse novo formato de ‘pílulas de dramaturgia’ no futuro do audiovisual brasileiro? Nesse momento passamos a marca de 15 milhões. Vejo o impacto, literalmente, nos números, pois são milhões de pessoas apaixonadas por esse formato. Pessoas na rua me chamam de Alex, algo que, além de eu nunca ter vivido, estava meio em extinção: o reconhecimento público. Isso se dá devido ao alcance do formato. Pelas notícias, é um caminho sem volta, no melhor dos sentidos. Grandes emissoras do País já estão apostando forte. Mais produtos, mais empregos, mais possibilidades de criação, expansão de tudo. Como sempre digo, não vai diminuir a audiência de outros produtos, nem substituir, mas somar e multiplicar. Você também está na quinta temporada de Arcanjo Renegado, do Globoplay. Como está sendo a experiência de integrar o elenco e contracenar com nomes como Paloma Bernardi e Emílio Orciolo Netto? Foi excelente, um momento importante na minha trajetória. Apesar de ser uma rápida, porém importante participação, estar em um produto há anos consolidado, realizado por uma produtora da envergadura do AfroReggae Audiovisual, significa muito para mim. Estar em cena com esses nomes foi extremamente doce, essa é a palavra. Dias muito gostosos, leves, com gente muito experiente que me fez me sentir em casa e tranquilo para gravar. No filme A Vida de Cada Um, você interpreta o Reginaldo, um personagem com uma carga bem negativa. Como foi o processo de se preparar para esse papel e se distanciar do Gabriel do dia a dia? O Reginaldo é um contraventor, envolvido com esquemas ilegais, jogo do bicho… um arquétipo incrível para pesquisar, mas também muito próximo de mim. Cresci no subúrbio do Rio, em um meio no qual figuras assim sempre estiveram mais ou menos próximas, então me inspirei muito em pessoas que conheci. Pesquisei bastante também personagens do universo Rodrigueano. Passei muitos dias cheirando soro em pó em casa (risos), pois o Reginaldo é viciado em cocaína. Foi uma experiência intensa fisicamente, porque é algo estranho ao corpo e gera sensações que te apoiam na construção. Você engordou 7 quilos e mudou sua postura física para viver o Reginaldo. Como foi essa transformação e que aprendizados ela trouxe como ator? Eu estava fazendo uma peça de Nelson (Rodrigues) e não queria estar no padrão estético que o mercado nos baliza, então no processo já fui desconstruindo isso com cautela e saúde. Quando veio a aprovação do filme, decidi ficar ainda mais distante do meu dia a dia. Engordar, em regra, não é difícil, né? (risos) Difícil foi recuperar depois. Mas aprendi também que há outras formas de desconstrução que não são exatamente físicas. O que importa é o estado, a pulsação. Isso é o que constrói ou desconstrói. Com tantas frentes em andamento – novela vertical, série, cinema –, como você equilibra a intensidade dos projetos com sua vida pessoal e seu desenvolvimento como artista? Minha vida pessoal é meu trabalho. Eu não tenho essa divisão, ser ator no Brasil depende de toda intensidade que você puder depositar. Todos os projetos que participo são responsáveis diretos pelo meu desenvolvimento como artista. O meu dia a dia, o meu andar na rua, observar as situações e a vida, todas as coisas que vejo, ouço, leio, as conversas que tenho, tudo isso é responsável pelo meu desenvolvimento. Energeticamente e espiritualmente a busca é a mesma. É lindo ser artista, porque nosso evoluir está totalmente entrelaçado entre trabalho e vida. Quais são seus próximos projetos? Nesse momento estou extremamente focado no roteiro de Tudo que Quisermos, um curta que escrevi, vou dirigir e atuar. Ele será rodado em novembro. É meu trabalho de conclusão da pós-graduação em direção audiovisual na CAL, escola onde fiz toda minha formação como artista. Ao mesmo tempo, ensaio a peça A Serpente, de Nelson Rodrigues, com direção de Anna Helena Madruga, prevista para o começo do ano que vem. No campo da pesquisa, participo de um treinamento contínuo em Máscaras Balinesas, com Fabiana de Mello e Souza, na Casa das Máscaras, que está me transformando como ator. Estou amando. E nos momentos de lazer, o que você gosta de fazer? Sair para jantar, estar com amigos, caminhar – caminho muito. Leio, assisto, gosto muito de ficar em casa também. Vejo todos os jogos do Flamengo, de preferência no Maracanã.