(Imagem gerada por IA) Tão fanático por futebol, meu pai acompanhava os jogos com os olhos grudados na TV de tubo e os ouvidos colados no radinho de pilha. Ou a gente permanecia em silêncio ou meu pai mandava todo mundo calar a boca, como se apitasse uma final. Futebol lá em casa era mesmo coisa de vida ou morte. Uma vez, ainda criança, engasguei na cozinha e, naquela aflição horrível de puxar o ar e não vir, corri para a sala em busca de socorro. Minha mãe se aproximou correndo e gritando para o meu pai que, mesmo vidrado no jogo, bateu forte nas minhas costas, sem sequer olhar para mim. O alimento escorregou, tão rápido quanto ele voltou para o sofá. Na juventude, jogava na várzea santista, porta de entrada para o futebol profissional. Chegou a ser convidado para compor o time profissional da Portuguesa Santista, mas o salário baixo o fez desistir. Preferiu a vida dura de mecânico no Porto de Santos, apagando as chances de um futuro talvez mais promissor. Virou palmeirense depois de assistir ao Ademir da Guia, o Divino. Mas, para o meu pai, não importava o time: acompanhava qualquer disputa, mesmo da Série D. Continuou por anos a “pelada” com os amigos na praia, até que quebrou a perna, ficou meses se recuperando e aposentou suas chuteiras de vez. A última Copa do meu pai foi em 1994, também nos Estados Unidos. Ganhamos o tetracampeonato com uma equipe de grandes astros: Bebeto, Dunga, Branco, Romário. Carlos Alberto Parreira era o técnico; Mário Zagallo o coordenador. Lembro-me de uma cena em que Romário reclamou de um lance não marcado pelo juiz, colocou as mãos na cintura e ficou parado em campo, como se estivesse, tranquilo, num bate-bola na Praia do Gonzaga. Meu pai não perdoou: “Copa do Mundo e o cara reclamando ao invés de correr atrás da bola! Brincadeira!”. Se meu pai tivesse assistido à Copa de 2014, certamente morreria de novo, mas de desgosto. “Como assim minha filha?”, “Pai, no ano em que a Copa foi sediada no Brasil perdemos de 7 x 1 para a Alemanha”. “Dentro de casa? Que vergonha!”, diria. O jogo de estreia da seleção brasileira nesta Copa também decepcionaria meu pai, afinal o Marrocos, seleção sem tradição, desempenhou visivelmente melhor. O que meu pai acharia disso tudo? — Pai, o Brasil empatou na estreia. — Contra quem? Itália? Inglaterra? Argentina? — Contra o Marrocos. Ah! E o Romário achou um bom resultado, viu. — Brincadeira! — Ah, pai! A seleção brasileira há tempos não é mais a mesma! Tivemos craques como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Roberto Carlos, mas agora nossa esperança no Neymar está abalada porque ele se machucou de novo. — Quem é Neymar? — A promessa de um novo Pelé, que nunca se concretizou. — Quem é o grande craque atualmente? — Queremos encontrar no Vinícius Júnior o herói que toda Copa buscamos, mas uma andorinha só não faz verão, você sabe. — Quem é o técnico da seleção? — Carlo Ancelotti. — Ele é paulista? — Não pai, ele é italiano. — No país do futebol, um técnico estrangeiro. Sorte a minha de não estar mais vivo, minha filha.