Jacob Elordi é a criatura e Oscar Isaac, o criador, em drama gótico (Divulgação/Netflix) O paradoxo entre a ciência e o sentido da vida foi levado à literatura por uma jovem britânica de 18 anos chamada Mary Shelley, no século 19. Em 1818, ela publicou o romance gótico Frankenstein. Passados dois séculos, a obra teve inúmeras releituras, especialmente no grande ecrã. Agora, o clássico do terror ganha a sua versão mais refinada e lindamente ilustrada pelas mãos do mestre do realismo fantástico Guillermo del Toro. O aclamado cineasta e roteirista mexicano, que assina títulos como Pinóquio por Guillermo del Toro (2022), A Forma da Água (2017) e A Colina Escarlate (2015), tomou a liberdade de mergulhar ainda mais fundo na psique humana ao retratar o paradoxo entre ciência e sentido da vida. O drama entre criador e criatura ganhou cores fortes e intensidade subjetiva. O contraste entre ciência e alma tem contornos coloridos, com destaque para um vermelho escarlate pontual, figurinos exuberantes, maquiagem da criatura impressionante e aflitiva, cenários suntuosos e uma trilha sonora que conduz às sombras da mente, da ambição e da vaidade à dor aguda e irremediável da solidão. Frankenstein, de del Toro, é sobre humanidade. Se o filósofo francês René Descartes chegou à conclusão “Penso, logo existo”, del Toro reinterpreta a maior questão do espírito humano: “Sinto, logo existo” — o despertar analítico me leva a crer que existo porque sinto e não porque penso, mas o sofrimento esvazia o sentido de viver e a morte me parece um alívio. É sobre isso. Na trama, o médico excêntrico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) cria um monstro (Jacob Elordi) de dois metros de altura, todo remendado com membros e ossos humanos, dotado de força descomunal e animado com energia elétrica produzida por um raio. Energia essa que veio do céu e lhe deu uma alma. Uma variável que Victor não cogitou no seu processo meticuloso de criação. Então, ele é questionado por seu irmão William: “Victor, você já pensou onde a alma fica no corpo?”. O filme se desenrola em flashback e é dividido em dois atos: o primeiro conta a versão do criador e o segundo, a da criatura. Del Toro é um provocador, primeiramente oferece ao espectador uma aula de anatomia, levantando questões sobre ciência, ética e loucura, apenas para, no segundo momento, apertar o coração, comover, testar o nosso quinhão de humanidade a ponto de nos fazer querer abraçar a criatura horrenda, forte e frágil ao mesmo tempo, vulnerável, doce e solitária, caçada como uma presa, à mercê da crueldade do homem. Afinal, quem é o monstro? Criador ou criatura? Eis a questão. Mas del Toro lapidou ainda mais sua obra: a mãe e o interesse romântico de Victor e de William são interpretadas pela mesma atriz, Mia Goth. O cineasta sugere, ao propor a semelhança física das duas, o Complexo de Édipo conceituado por Sigmund Freud. As atuações de Oscar Isaac, Jacob Elordi e Mia Goth são notáveis e dão ritmo às 2h30 de um drama profundo cuja alma artística se completa com a trilha sonora do compositor francês Alexandre Desplat (A Forma da Água). Frankenstein é a quintessência do cinema, filme para a galeria dos melhores do século. O longa-metragem tem potencial para o Oscar 2026 nas categorias de Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Ator (Isaac), Ator Coadjuvante (Jacob), Edição, Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Cabelo e Maquiagem e Trilha Sonora. Pode ser agraciado como Melhor Filme. É uma produção da Netflix, O2 Filmes e Columbia Pictures. Ratificando sua mensagem no filme, del Toro cita o poeta britânico Lord Byron: “E assim o coração há de se partir, mas, partido, ainda viverá”. E a máxima: “Só monstros brincam de Deus”. Assista! Boa semana!