Russell Crowe interpreta Hermann Göring, o braço direito de Hitler (Diamond Filmes/Divulgação) Há uma explicação científica para a crueldade cometida pelos nazistas ao determinarem o extermínio de milhões de pessoas, em sua maioria judeus, durante a Segunda Guerra Mundial? Há um traço psicológico capaz de determinar o mal? No intuito de obter essas respostas, um médico psiquiatra foi designado para investigar as mentes dos principais líderes nazistas sob julgamento do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg (1945 a 1946). O tenente-coronel Douglas Kelley analisou ao menos 22 homens do estafe de Adolf Hitler, no Terceiro Reich, detidos em uma prisão secreta em Luxemburgo. Um dos presos era Hermann Göring, o braço direito de Hitler e o segundo na linha sucessória do regime. A história real é contada no livro O Nazista e o Psiquiatra, de Jack El-Hai, que inspirou o filme Nuremberg (2025), escrito e dirigido por James Vanderbilt, em cartaz nos cinemas. O trabalho essencial de Kelley era garantir a sanidade mental dos presos até o julgamento final. Dos 24 principais réus, 12 foram sentenciados à morte por enforcamento, enquanto os demais receberam penas de prisão (perpétua ou temporária) ou foram absolvidos. Concentrado na relação médico-paciente estabelecida entre Douglas Kelley e Hermann Göring, o enredo tenta explicar o que pensavam os comandantes nazistas na promoção do extermínio em massa de judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais e alemães anti-nazistas. Rami Malek (Dr. Kelley) e Russell Crowe (Göring) conduzem o drama com interpretações irretocáveis de duas personalidades complexas e em lados opostos. O que começa como um thriller psicológico ganha contornos profundos de humanidade. Se, no início, há um jogo de manipulação tanto por parte do psiquiatra quanto do paciente responsável por crimes de guerra hediondos, no decorrer das sessões nasce uma espécie de amizade entre Kelley e Göring, o que pode pôr em risco a investigação psiquiátrica. Crowe domina o filme. Sem recorrer a caricaturas, constrói um Göring frio, articulado e humano. Há momentos em que o personagem, falando em inglês com perfeito sotaque alemão, seduz pela lógica e é aí que o desconforto se instala. Arrisco dizer que a performance do neozelandês pode lhe render a quarta indicação ao Oscar de Melhor Ator, repetindo o feito histórico de indicações consecutivas por O Informante (1999), Gladiador (2000), pelo qual venceu em 2001, e Uma Mente Brilhante (2001). Malek, por sua vez, funciona como contraponto moral e psicológico. Seu personagem observa, escuta, tenta compreender um nazista, e cai em um dilema ético. O longa-metragem acerta ao manter esse terreno ambíguo, inerente à natureza humana. O elenco coadjuvante dá peso ao drama. Michael Shannon traz gravidade ao procurador Robert Jackson, que confronta Göring no tribunal, enquanto Leo Woodall arremata com o aspecto emocional do contexto histórico. Todos os personagens orbitam a tensão central entre razão e barbárie, emoção e conflito moral, objetividade e subjetividade. Sem apelações ou excessos, Vanderbilt conduz o filme com frieza calculada e insere imagens de campos de concentração em momentos pontuais, com cortes para as falas dos nazistas. Quando o psiquiatra conclui sua investigação, o diagnóstico é estarrecedor: o horror foi planejado por gente sã, sem transtornos mentais. Há um subtexto contemporâneo. Ao discutir liderança carismática, manipulação de massas e discursos de ódio, o filme ecoa para além de 1946, alertando que o mal é cíclico. Dessa forma, Nuremberg nos faz refletir. Vale o ingresso. Boa semana!