(Adobe Stock) Dizem que só os fracos ficam doentes, mas no Brasil é preciso ser forte para cair de cama. Há alguns dias, acordei cedo sentindo minha garganta. A saliva machucava a boca seca a cada engolir. As têmporas pressionavam levemente, o incômodo denunciava que algo está surgindo. Procurei me hidratar ao máximo, acompanhando os sintomas que pareciam amenos demais para preocupações. Até que um vento mais fresco e um drinque malfeito em um aniversário bem chuvoso completaram a disseminação viral. Engolir ficara difícil. Um exame no espelho comprovou que a coloração extra vermelha anunciava uma infecção, atestada pelo médico da UPA de São Francisco Xavier, uma pacata comunidade com 8 mil habitantes na Serra da Mantiqueira, onde eu frequentava uma feira literária. Fiquei surpresa com as instalações da saúde pública, o bom atendimento e, claro, a falta de fila de espera e saí de lá tranquila, com receita de antitérmico e anti-inflamatório e a certeza de que em poucos dias o corpo se encarregaria do resto. Pelo contrário. Na manhã seguinte, engolir se transformara em uma tortura e a cada piscada uma secreção viscosa escorria dos olhos anunciando uma conjuntivite. Já em São Paulo, busquei o pronto-atendimento em um hospital privado. A infecção se estendera para as vistas. Meu bolso saiu recheando de receitas. Horas depois, porém, meu ouvido direito começou a apitar e percebi dificuldades na escuta. Entendi que precisava de um especialista e consegui uma consulta com um otorrinolaringologista para a tarde seguinte. A infecção se alastrara para o ouvido, causando uma otite tão importante que saí de lá com receita de antibiótico para 15 dias e encaminhamento para uma audiometria de urgência a avaliar possíveis danos irreversíveis, o que não se concretizou. Fiquei com medo, me senti sozinha, comecei a pensar na finitude e em como não temos controle de nada. Mas antes que minha autocompaixão se alastrasse também de forma viral, ponderei as facilidades as quais somente privilegiados possuem neste País. Consegui atendimento de qualidade, ágil e em pouco tempo. O pior não aconteceu (como a perda da audição) muito provavelmente porque faço parte de uma pequena parcela que conta com acesso médico de excelência. Um privilégio conquistado por poucos, visto que ascender a posição social, como é meu caso, em um país desigual, é milagre para a maioria. O corriqueiro é a demora no atendimento. Policlínicas e hospitais razoáveis têm boa atuação em Santos, mesmo assim, em algumas situações mais graves, o melhor caminho acaba sendo subir a Serra. Você que me lê, muito provavelmente, também possui um nível de privilégio bem diferente dos moradores, por exemplo, da comunidade do Cachoeira, em Guarujá, onde uma consulta pelo SUS pode demorar seis meses. Quanto a mim, sigo refletindo sobre saúde e seus desafios, com a certeza de que o atendimento me salvou, mas também a sopa de legumes com músculo da minha amiga Miria, o brigadeiro entregue pela Michele e o chá de hortelã da Regina. Ficar doente é também para quem tem alguém que nos cuide, este sim, um grande privilégio.