Jonah Wren Phillips e Sally Hawkins no longa que está nos cinemas (Divulgação) Quase sempre, quando o drama repleto de camadas emocionais e suspense psicológico se sobrepõe aos sustos no gênero terror, o filme acertou 50% da trama. O complemento vem com um roteiro bem escrito, aproveitado pelo elenco até nos subtextos. Assim acontece com Faça Ela Voltar, escrito e dirigido pelos irmãos australianos Michael Philippou e Danny Philippou, de Fale Comigo (2022), que estreou quinta-feira nos cinemas. O longa-metragem é uma produção da A24. Quem conduz a trama é a atriz britânica Sally Hawkins, de 49 anos, que ganhou projeção internacional com sua atuação no drama de fantasia A Forma da Água (2017), de Guillermo del Toro. Na pele de Laura, uma mãe em luto profundo após perder a filha, Hawkins entrega uma mulher cuja dor a leva às raias da loucura. Sua atuação precisa, com carga dramática na medida exata do desespero e da angústia que só uma mãe pode experimentar, é o show do filme. A história é toda dela. É Hawkins em uma de suas representações artísticas mais magníficas, descabelada, com expressões assustadoras na face e na voz, transitando entre a doçura e a crueldade, entre a sanidade manipuladora e a bestialidade. Sally Hawkins é um espetáculo cênico no decurso de toda a trama. É justamente desse sofrimento intenso da protagonista que vem o gatilho para um horror absoluto, tornando Faça Ela Voltar um dos filmes de terror mais perturbadores do gênero. Os irmãos Philippou amarram nesse contexto avassalador o sobrenatural baseado no ocultismo, com rituais de sacrifícios humanos, ainda que exiba apenas fragmentos das atrocidades. O resultado é um roteiro criativo e ousado que combina drama psicológico, body horror e suspense com uma densidade emocional rara. Convencida de que pode trazer a filha de volta da morte, Laura recorre a rituais macabros e comete crimes hediondos com uma frieza assustadora. O amor de mãe, incondicional, se mistura a traços de psicopatia, tornando a protagonista ambígua e experimentando uma complexidade psicológica pouco observada em filmes de terror. Seguindo com o seu plano, Laura adota Piper (Sora Wong), uma garota deficiente visual que acaba de ficar órfã de pai. Mas Piper tem um meio-irmão, Andy (Billy Barrat), e Laura é obrigada a receber os dois juntos temporariamente. Por serem menores de idade, eles foram levados para o orfanato onde Laura trabalhou, e foi feita a mediação para o processo de adoção. Laura acolhe Piper com carinho superprotetor de mãe, mas Andy logo percebe que há algo muito errado por trás das aparências. Sua desconfiança aumenta quando Laura apresenta Oliver (Jonah Wren Phillips), um garotinho de 10 anos muito quieto, apático e estranho. Embora haja cenas perturbadoras e chocantes, o longa-metragem prende a atenção de tal forma que, mesmo fechando os olhos por alguns instantes em situações que provocam aflição e desconforto, o espectador quer ver o que vai acontecer na cena seguinte, e assim até o desfecho dessa trama diabólica. O delírio da protagonista leva a uma reviravolta no final que a humaniza ao ponto de provocar toda sorte de emoções em quem assiste: horror, repulsa e até comoção. Afinal, ela é uma mãe enfrentando uma dor irremediável. Vale ressaltar que, ao colocar o drama emocional em primeiro plano e o terror em segundo, Faça Ela Voltar se junta a filmes como O Sexto Sentido (1999), de M. Night Shyamalan, Os Outros (2001), de Alejandro Amenábar, e Hereditário (2018), de Ari Aster, entre outros. Vá ao cinema. Boa semana e até a próxima!