[[legacy_image_359583]] Queria muito falar mais sobre o amor. Queria muito refletir sobre questões mais profundas da vida. Queria muito apenas transcrever uma conversa leve entre amigas e abordar a amizade como remédio para a solidão. Mas com tudo que está acontecendo não posso falar sobre nada disso. Queria escrever sobre o nada, simplesmente flanar nos meus próprios pensamentos e trazer poesia à vida pelas palavras. Por outro lado, queria também abordar temas mais sérios como a exploração imobiliária, a epidemia de dengue, ou o vírus da gripe no inverno. Também queria dialogar mais sobre o miúdo do cotidiano, como a flor que cai da árvore e fica colada na calçada, a criança que chora no colo da mãe, o cachorro que assiste DogTV, o frescor de um banho de cachoeira ou sonhar com o show da Madonna (e se tivesse sido em Santos?). Queria escrever sobre as frustrações da vida, o cuidar do outro, o sincericídio ou o aborto aprovado na França. Sobre o movimento de mulheres assumindo seus cabelos brancos, sobre o racismo estrutural e como precisamos quebrar essas barreiras para atingirmos uma sociedade igualitária. Os jardins da praia ou os edifícios tortos na praia de Santos certamente dariam ótimas crônicas. Assim como o bondinho funicular do Monte Serrat (ah, quantas lembranças), ou a aventura de voar de parapente em São Vicente com pavor de altura, ou o Orquidário que já chegou a ser o maior parque do gênero ao ar livre do mundo. Mas com tudo que está acontecendo não posso falar sobre nada disso (mesmo querendo muito). Podemos ser os próximos a morar em um abrigo e não ter outra coisa para falar. Desta vez foi o Rio Grande do Sul. Quase um estado inteiro vivendo, literalmente, na lama. Um futuro incerto pela frente. É por isso que não posso falar sobre outra coisa. O que provoca eventos climáticos extremos é a negligência política com a flexibilização de leis ambientais, a exploração ilimitada de recursos naturais, a falta de investimento em prevenção e o negacionismo ambiental. As catástrofes ambientais não acontecem mais de tempos em tempos. Elas vêm acontecendo com uma frequência suficiente, em várias partes do mundo, para nos mostrar que todas as previsões dos cientistas estão se consolidando, porém de maneira muito mais rápida do que o esperado. Então, eu só tenho isso para escrever hoje: 155 mortos, 89 desaparecidos, 806 feridos, mais de 2,3 milhões de pessoas afetadas, mais de 617,5 mil desabrigados, 463 cidades atingidas. Como vê, caro leitor (a), não há outro assunto a ser dito.