(foto Adobe Stock) A cirurgia realizada no presidente Luiz Inácio Lula da Silva para drenar um hematoma na cabeça tomou conta do noticiário na última semana. O procedimento foi consequência de um acidente doméstico ocorrido em outubro, quando o chefe do Executivo escorregou e caiu no Palácio da Alvorada. Esse hematoma, na verdade, se trata de um coágulo tardio, uma situação que pode ocorrer com mais frequência em pessoas idosas. O neuroci-rurgião Felippe Pacheco fala mais sobre o assunto ao domingo+. Como costuma ser a evolução de um trauma cranioencefálico (TCE)? O TCE está entre os principais tipos de traumas nos serviços de emergência de todo o mundo. Ele pode ser leve, moderado ou grave, de acordo com a escala de coma em Glasgow, que mostra o grau de consciência do paciente, assim como a sua resposta motora, verbal e a abertura ocular espontânea (que mede a capacidade de o paciente abrir os olhos em resposta a estímulos). Por meio dessas respostas, o médico vai classificar o trauma encefálico como leve, moderado ou grave. O que, em geral, acontece nesses impactos? Quando acontece um trauma craniano em que existe amnesia lacunar (que é a perda de memória sobre algum fato), assim como vômitos, perda de consciência ou convulsão, é importante que o paciente seja avaliado no pronto-socorro por um neurocirurgião, que vai solicitar tomografia de urgência. No entanto, nem todo trauma craniano necessita de uma avaliação de especialista ou de um exame de imagem de urgência. Isso, inclusive, iria sobrecarregar os prontos-socorros. Há pessoas mais suscetíveis a sofrer desse problema? Sim, isso ocorre, principalmente, com quem lida com o alcoolismo, idosos e demenciados. Esses pacientes costumam ter uma atrofia do cérebro. Nós possuímos uma veia que liga o cérebro à capa que o envolve, que se chama dura-máter, uma membrana espessa, resistente e fibrosa. Tudo que faz essa veia esticar oferece risco de hematoma subdural, que é o acúmulo de sangue entre o cérebro e seu revestimento externo, o crânio. Essas chamadas veias ponte, que ficam entre o cérebro e o osso do crânio, têm maior propensão a sangramentos nos pacientes com maior atrofia cerebral. Mas, também pode acontecer em pacientes jovens e com o cérebro normal. Esses sangramentos são abundantes? Os sangramentos por veia ponte geralmente são do tipo venoso (não arterial). Então, eles iniciam com baixa intensidade, ou seja, sem tanto volume de sangue. Começam com uma fina camada e, com o passar do tempo, vão formando uma membrana que aumenta de tamanho com o acúmulo de líquidos, mesmo que a veia tenha parado de sangrar. Quanto tempo demora para ocorrer esse processo? O tempo de formação e expansão do hematoma pode durar cerca de dois meses. E, normalmente, os traumas foram leves. Às vezes, nem daria para ver o sangramento na tomografia, por exemplo, mas, por todo esse mecanismo, ele vai expandindo e acaba se complicando. Quais são os principais sintomas? Dor de cabeça persistente, déficit cognitivo, ou seja, o paciente fica subitamente sonolento e com perda de memória e de atenção, rebaixamento do nível de consciência, paralisias em membro do corpo, normalmente contralateral, ou seja, do outro lado em que houve o trauma na cabeça, e até convulsão. Como é feito o diagnóstico? Principalmente por tomografia computadorizada. O tratamento é sempre cirúrgico ou há alternativas? Vai depender da espessura e da localização do hematoma e do quadro neurológico que ele está provocando. Dependendo desses sintomas, a indicação é, sim, cirúrgica. Se o paciente está com dor de cabeça, mas segue bem e sem risco, o tratamento muda e pode ser feito com medicamentos eficazes na dissolução do hematoma. O tratamento com remédios é um recurso, desde que com acompanhamento feito com as tomografias. Como é feita a cirurgia? A cirurgia pode ser uma craniotomia aberta, com a remoção de parte do osso do crânio, o cérebro exposto para que seja feita uma lavagem na região e o cirurgião desfazendo essas membranas. Muitas vezes é necessária uma lavagem exaustiva entre a membrana e o cérebro. Já há casos que exigem apenas um duplo furo (entre um e dois centímetros de diâmetro) no crânio, com um tipo de broca de alta rotação. Nessa situação, existe a lavagem seguida da colocação de um dreno, que fica por uns três dias com o paciente em repouso. Geralmente, é um procedimento simples, em que há um rápido retorno as atividades do dia a dia.