Ana Vitória Tereza de Magalhães: “É urgente que nossas cidades se tornem mais ‘azuis’" (Divulgação) Mineira de nascimento, hoje Ana Vitória Tereza de Magalhães mora cercada pelo mar, nos Açores, em Portugal. Não poderia ser diferente, afinal ela é uma das maiores especialistas internacionais em cultura oceânica. Atuou em projetos da Organização das Nações Unidas (ONU), Unesco e Comissão Europeia e foi uma das responsáveis pelo desenvolvimento da Rede Global de Escolas Azuis. Com mais de dez anos de experiência na intersecção entre cultura, educação e sustentabilidade marinha, sua trajetória é marcada pela defesa da valorização das comunidades costeiras e pela promoção de uma economia oceânica inclusiva e regenerativa. Esteve em Santos para a Escola Avançada de Cultura Oceânica (Advanced School of Ocean Literacy), organizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que discutiu estratégias globais de integração entre ciência, educação, cultura e políticas públicas ligadas ao oceano. Foi neste contexto que concedeu a entrevista ao Domingo+, em que fala sobre desafios e oportunidades para cidades litorâneas como Santos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Considerando que Santos é uma cidade litorânea impactada diretamente por mudanças climáticas, como a cultura oceânica pode contribuir para a resiliência da população local frente a eventos extremos, como tempestades e aumento do nível do mar? A cultura oceânica é, antes de tudo, o reconhecimento da profunda interdependência entre nós e o oceano, e vice-versa. Ela é uma ferramenta multidisciplinar poderosa, que pode apoiar cidades como Santos a se tornarem mais resilientes e preparadas para os múltiplos desafios das mudanças climáticas. Quando compreendida e aplicada, a cultura oceânica atua como uma ferramenta de gestão de risco. Ela pode orientar desde ações educativas até decisões estratégicas em planejamento urbano, infraestrutura e políticas públicas. Um exemplo prático é sua aplicação na revisão de planos urbanísticos municipais (plano diretor): diante do aumento do nível do mar e da frequência de eventos extremos, será necessário repensar como construímos nossas cidades, onde plantamos árvores, como gerimos resíduos, onde localizamos equipamentos públicos essenciais, como hospitais, e que tipo de transporte priorizamos. Ela oferece conhecimento para que urbanistas, arquitetos, planejadores, gestores públicos, empresas e comunidades compreendam quais áreas estão mais vulneráveis, quais devem ser preservadas ou adaptadas e como promover um desenvolvimento urbano que esteja em harmonia com os sistemas naturais. Também ajuda a população a entender seu papel, tanto como agente de transformação quanto como beneficiária de cidades mais preparadas e integradas ao oceano. É urgente que nossas cidades se tornem mais ‘azuis’, ou seja, que passem a olhar para o oceano de forma estratégica, não apenas como fonte de recursos econômicos, mas como um aliado essencial na regulação do clima, na segurança alimentar, na preservação do patrimônio cultural e na adaptação climática. Fortalecê-la é, portanto, fortalecer a capacidade das cidades, de se reinventar frente à crise climática, colocando o oceano no centro das soluções. Santos é a primeira cidade do mundo a estabelecer a cultura oceânica como política pública e a incluí-la no currículo escolar regular. O que você acha que isso pode impactar na prática? Incluir a cultura oceânica no currículo escolar é um passo histórico, e profundamente transformador. Graças a essa iniciativa pioneira, mais crianças e jovens terão acesso a uma educação de qualidade sobre o oceano, desde cedo. E isso não deve ser subestimado: levar o oceano para a sala de aula é investir no futuro. Essa mudança impacta estudantes, professores e toda a comunidade escolar de maneira profunda. Uma simples atividade relacionada ao mar pode despertar vocações, inspirar sonhos e formar as bases para carreiras ligadas à sustentabilidade, ciência, inovação, arte e cultura oceânica. Mais do que formar futuros biólogos marinhos ou oceanógrafos, essa abordagem amplia horizontes: estamos preparando jornalistas, diplomatas, artistas, urbanistas, investidores, educadores, cientistas sociais e tomadores de decisão que compreendem o papel vital do oceano em suas áreas de atuação. Trata-se de construir uma geração com consciência oceânica integrada, capaz de enxergar o mar não apenas como um recurso, mas como um sistema vivo essencial à nossa existência — ligado à regulação do clima, à cultura, à economia e ao bem-estar. Santos mostra que é possível transformar visão em política pública concreta. E essa experiência pode servir de modelo para outras cidades costeiras no Brasil e no mundo. A cultura oceânica nas escolas é, sem dúvida, uma estratégia de longo prazo para fortalecer a resiliência, a equidade e a sustentabilidade das futuras gerações. Você menciona a importância das mulheres na economia azul. Como podemos fortalecer a participação feminina nas comunidades costeiras brasileiras em ações de conservação e gestão costeira? Embora as mulheres desempenhem um papel essencial nas comunidades costeiras, percebemos que elas ainda são minoria em muitos setores da economia azul. Persistem barreiras estruturais e culturais que dificultam seu acesso a oportunidades no mar, desde estigmas históricos, como a crença de que mulheres em embarcações trazem má sorte, até desafios contemporâneos, como o machismo, a desigualdade de gênero na ciência, o pouco incentivo ao empreendedorismo feminino e as dificuldades em conciliar carreira e maternidade. Apesar desses obstáculos, as mulheres continuam sendo verdadeiras guardiãs do oceano. Em diversas comunidades costeiras brasileiras, são elas que preservam e transmitem saberes ancestrais sobre o mar, por meio do artesanato, da música tradicional, de técnicas de pesca, do preparo de alimentos e de práticas culturais ligadas à vida costeira. Muitas vezes, também são chefes de família, assumindo a responsabilidade pela segurança alimentar, pela transmissão de valores e pela preservação dos territórios onde vivem. Para fortalecer sua participação, é fundamental garantir educação e capacitação técnica, promover políticas públicas com recorte de gênero, ampliar o acesso ao financiamento para iniciativas lideradas por mulheres e, acima de tudo, ouvir suas vozes nas decisões sobre gestão e conservação costeira. As mulheres vivenciam o oceano de formas únicas, conectadas ao cuidado, à continuidade da vida e ao desejo de proteger o que é essencial para as próximas gerações. Valorizar essa perspectiva é uma forma poderosa de construir uma economia azul mais justa, diversa e resiliente</CW>. Como cidades portuárias e industrializadas podem equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental do oceano, mantendo os valores culturais e tradições locais? Equilibrar desenvolvimento econômico com preservação ambiental e valorização cultural não é uma perda, é um ganho estratégico. Cidades como Santos têm uma oportunidade única de se posicionar como líderes em economia azul sustentável, integrando cultura, meio ambiente e inovação. Empresas que adotam práticas sustentáveis e respeitam as tradições culturais locais tendem a ser mais resilientes e até mais rentáveis no longo prazo. Por exemplo, ao apoiar práticas tradicionais de pesca artesanal, uma empresa se conecta genuinamente com o território, valoriza o conhecimento local e fortalece vínculos sociais. Isso vai além da responsabilidade social corporativa: estamos falando de ESG na prática, incorporando os valores imateriais do oceano à estratégia empresarial. O oceano não tem apenas valor ecológico ou econômico, ele também tem um valor cultural, emocional e simbólico, que precisa ser reconhecido. Como mensurar a beleza de uma paisagem azul vista da janela? Esse tipo de valor não se mede em reais, mas tem um peso imenso na qualidade de vida e identidade de uma cidade. Por isso, ouvir as comunidades locais é essencial. O diálogo com pescadores, artistas, educadores e moradores costeiros traz soluções mais justas, enraizadas na realidade. E ao integrar esses saberes com inovação e governança, criamos um modelo mais equilibrado de desenvolvimento, onde todos ganham: o meio ambiente, a economia e as pessoas. Você enxerga iniciativas ou projetos em Santos que já estejam alinhados à cultura oceânica? Quais poderiam servir de modelo para outras cidades costeiras? Sim, as Escolas Azuis são um excelente exemplo de iniciativa alinhada à cultura oceânica. Mais do que trazer o oceano para dentro da sala de aula, elas funcionam como pontos de conexão entre educação, comunidade, ciência e políticas públicas. Ao estabelecer parcerias com diferentes setores, como empresas, universidades, ONGs e governos locais, essas escolas ampliam o alcance da cultura oceânica para toda uma comunidade. Uma única Escola Azul pode, por exemplo, organizar viagens de estudo a áreas costeiras com apoio de órgãos públicos, promover palestras com profissionais da economia azul, colaborar com cientistas em projetos de monitoramento ambiental e até contribuir para a construção de um currículo escolar mais conectado com o oceano. Ou seja, ela deixa de ser um espaço isolado de ensino e se torna um hub de transformação territorial. Quando falamos de uma rede de Escolas Azuis, o impacto se multiplica. Milhares de estudantes têm acesso a conteúdos e experiências que formam futuros profissionais, mas também cidadãos mais conscientes, engajados e conectados ao oceano. Esse é, sem dúvida, um modelo inspirador que pode ser adaptado e replicado por outras cidades costeiras, no Brasil e no mundo, respeitando os contextos e saberes locais.