O que muda na memória quando envelhecemos? E quais capacidades podem permanecer ou até se aprimorar com o passar dos anos? As respostas ajudam a compreender uma diferença importante: alterações cognitivas não significam, necessariamente, adoecimento cerebral. Distinguir essas situações foi um dos temas debatidos por especialistas no 8º Despertando a Sociedade para a Saúde do Cérebro, recentemente realizado em São Paulo. A discussão vai além dos esquecimentos. A cognição envolve capacidades utilizadas para prestar atenção, falar, planejar, orientar-se e tomar decisões. Cuidar dessas funções, portanto, tem relação direta com a autonomia e a qualidade de vida. “A cognição atua na concentração para falar, planejar, se orientar e tomar decisões. Temos que trabalhar cada vez mais isso, sobretudo com um perfil populacional vivendo cada vez mais”, afirma o neurologista Marcelo Houat, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Durante o encontro, ele destacou a importância da estimulação e da reabilitação cognitiva, principalmente após os 60 anos. A geriatra Sumika Mori Lin, também do Hospital das Clínicas da USP, chama a atenção para mudanças que podem fazer parte do envelhecimento. Entre elas estão alterações na atenção seletiva e dividida, na memória operacional e na capacidade de manipular informações mentalmente. “Mudança cognitiva não é adoecimento cerebral”, ressalta. Esse olhar permite compreender a maturidade para além das perdas. A neurocientista Sharon Simon, da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, destacou que o envelhecimento também pode ser acompanhado de ganhos no vocabulário, aprimoramento da linguagem e ampliação do conhecimento de mundo. A manutenção de alguns tipos de memória e tomadas de decisão mais assertivas estão entre as capacidades mencionadas pela especialista. Em uma rotina marcada por multitarefas, Sharon recomenda recursos simples, como o uso de lembretes para auxiliar a atenção. A orientação vem acompanhada de um cuidado: dúvidas sobre a memória devem ser levadas a especialistas. “Caso tenhamos dúvidas, precisamos recorrer a especialistas, fazer avaliação e adotar as medidas necessárias”, afirma. A mensagem é que uma queixa de memória, por si só, não equivale a um diagnóstico. A promoção da saúde cerebral também exige uma discussão mais ampla sobre longevidade. Para a gerontóloga Thais Bento Lima-Silva, docente da USP, é necessário mudar a forma de lidar com o envelhecimento e ampliar a conscientização sobre prevenção. “Temos que mudar paradigmas e atuar com a prevenção. Isso é promover uma longevidade ativa”, diz. O presidente da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG), Henrique Salmazo, destacou a estimulação cognitiva sensorial entre as medidas discutidas para a população idosa. Já o geriatra Leandro Minozzo, docente da Feevale, no Rio Grande do Sul, defendeu o investimento em saúde e estimulação cognitiva. Realizado pela ABG e pelo Supera, rede de estimulação cognitiva, o encontro incentivou a iniciativa de conscientização e combate ao preconceito relacionado à doença de Alzheimer e a outras demências. Nesse debate, a médica Celene Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer e Condições Similares, ressaltou a importância de enfrentar visões negativas sobre as demências e respeitar as dificuldades de cada pessoa. “Temos que nos desafiar, respeitar as dificuldades e ressignificar as demências”, afirmou. Para entender a cognição: vai além da memória: envolve atenção, linguagem, planejamento, orientação e tomada de decisões. Mudanças não são um diagnóstico: algumas alterações podem fazer parte do envelhecimento. Dúvidas sobre a memória devem ser avaliadas por especialistas. Há habilidades que podem se preservar: vocabulário, linguagem, conhecimentos acumulados e alguns tipos de memória estão entre as capacidades destacadas no encontro. Lembretes podem ajudar: a recomendação apresentada foi utilizar esses recursos para auxiliar a atenção no cotidiano.