(Adobe Stock) Eu gostaria que neste 8 de março o Dia Internacional da Mulher fosse, finalmente, apenas de boas notícias. Porém, cá estamos, em pleno século 21, temendo por nossa condição feminina. Há poucos dias, ao final da aula, um grupo de seis alunas se aproximou para aquele bate-papo aleatório gostoso, menos sobre a disciplina e mais sobre a vida. Entramos no tema dos feminicídios em série que chocam o Brasil de 2026 - ou apenas parte do país, já que a outra parte se sente no direito de perseguir, intimidar, bater, machucar e matar mulheres. Nem todo homem, claro. Mas sempre um homem. No decorrer da conversa, as meninas confessaram estar desanimadas e mesmo desconfiadas de se relacionarem amorosamente. Na flor dos 20 e poucos anos, elas já colecionam experiências negativas, vividas ou que mulheres próximas a elas viveram, em histórias que começam como contos de fadas e acabam em violências físicas, emocionais, verbais. Fiquei muito triste pelas garotas. Ser tão jovem e não acreditar no amor é alarmante. Não que estar em um relacionamento seja obrigatório e necessário para mulheres. Passamos dessa fase tola de imaginar que namoros e casamentos significam a grande conquista de nossa existência. Ao mesmo tempo, a troca nas relações a dois, quando saudáveis, bonitas e equilibradas, nos trazem felicidade e crescimento pessoal. O problema é que as jovens têm cada vez mais dificuldade de enxergar onde estão as tais relações verdadeiramente (e não instagramáveis) saudáveis, bonitas e equilibradas. Será que existem de fato? Difícil crer quando todos os dias há mais uma mulher assassinada por um ex-companheiro ou companheiro. Mesmo que ela tenha medida protetiva. Mesmo que ela seja mãe dos filhos dele. Mesmo que ela esteja no trabalho, em plena luz do dia. Vimos recentemente cenas desesperadoras no noticiário, como a de uma mulher escalando um portão para tentar fugir de seu agressor. Sendo caçada. E na sequência morta aos pontapés. Soubemos de outra esfaqueada na joalheria na qual trabalhava dentro de um shopping. Para todo mundo ver, em plena luz do dia, sem que o assassino tivesse medo da consequência. Quando parece que não pode piorar, a notícia com a qual iniciamos março foi a de uma moça de 17 anos que sofreu um estupro coletivo. Chamada para um encontro por um adolescente com o qual já se relacionava, se deparou com outros quatro homens, maiores de idade, a encurralando em um quarto. De que maneira argumentar com minhas alunas que relacionamentos valem a pena? É uma dor profunda acompanhar essas histórias. Gatilhos são disparados em nós. O sentimento de revolta só aumenta. E ainda há quem questione por que as mulheres andam com raiva. Que ninguém apareça com a má ideia de dizer que é nossa culpa tudo o que está acontecendo, afinal, não nos colocamos mais nos nossos “devidos lugares”. Ou que nunca estamos satisfeitas com o que já foi conquistado. Não estamos mesmo! Nosso devido lugar é onde nos interessa estar, seja qual for. Só ficaremos satisfeitas quando não houver mais nenhum milímetro de desigualdade de gênero. Principalmente, só vamos parar de gritar quando não estivermos mais ameaçadas. Homens, não basta dizer não sou violento, não participo ou não concordo com a violência contra a mulher. Intervenha, não seja conivente com o que outros homens fazem e falam. Policie e reflita sobre seu próprio machismo. Denuncie. Melhore. Lide com seu desconforto. Porque não existe nenhuma possibilidade de aceitarmos voltar para trás.