(Imagem gerada por IA) Minha família me levou muito ao cinema desde criança. Foi com a tia Regina, que também é minha madrinha, que assisti nas telonas E.T., o Extraterrestre, aos 3 anos. Com olhos cheios de lágrimas, eu perguntava em determinado momento da história: ele morreu? Fiquei feliz de saber logo que não e que, finalmente, E.T. conseguiria voltar para casa. Lembro do meu pai levar meu irmão, com 9 anos, e eu, com 5, para assistir a Gremlins, no Cine Iporanga. A projeção falhou no meio e as pessoas ao redor começaram a dizer que eram os Gremlins aprontando. Meu pai reforçou que os Gremlins haviam mesmo sabotado tudo! A gente ficou doido e se divertiu com aquilo! Lá pelos meus 13 anos, minha mãe decidiu que eu deveria assistir a filmes mais complexos, com histórias densas. Dramas, filmes históricos baseados em fatos reais e suspenses psicológicos passaram a ser parte dos nossos passeios aos finais de semana. A Lista de Schindler e Em Nome do Pai foram alguns dos que mais me marcaram. Depois da sessão, era hora do capuccino com croissant em uma cafeteria do Miramar Shopping (me sentia muito gente grande com esse lanchinho). Não só isso. Era a deixa para minha mãe, professora, “tomar a lição”. Qual sua análise do filme? Entendeu aquela parte tal? Relacionou com o quê? Minha mãe me oferecia, e eu ainda não entendia, a oportunidade de formar repertório. Se ela tinha absoluta consciência do que estava fazendo? Talvez, não. Mas ela sabia. De alguma maneira, ela sabia quanto minhas experiências cinematográficas construiriam parte importante do meu conhecimento. Hoje, em sala de aula, indico filmes aos meus estudantes para complementar estudos e busco no cinema compreensão sobre o mundo. As mães sempre sabem. De uma maneira ou de outra, elas encontram um caminho para preparar filhas e filhos para a vida. Cada uma à sua maneira, a partir do próprio repertório, e pensando também nas oportunidades que não tiveram ou precisaram abrir mão, mães estão criando suas meninas e seus meninos o tempo todo, inclusive quando ninguém está notando. E como tantos não notam esse trabalho 24 horas, sete dias na semana, é fácil criticar quando “parece” que a mãe não deu conta. “Parece” entre aspas mesmo. Porque ela está lá, equilibrando vinte pratinhos que giram loucamente nas varinhas e se apenas um cai, essa mãe não sabe ser mãe, dizem os desocupados. “A culpa materna é um dispositivo de controle social. Ela serve para manter as mulheres em um determinado lugar, sempre em dívida com um ideal de mãe perfeita que não existe”, afirma a psicanalista Vera Iaconelli no livro Mal-Estar na Maternidade. Em 1949, o psicanalista e pediatra inglês Donald Winnicott criou o conceito de “mãe suficientemente boa”. Ou seja, uma mãe que não é perfeita, mas oferece um ambiente seguro no qual o filho cresce com apoio físico e emocional. Para o especialista, a mãe que falha é a melhor para o desenvolvimento do ser humano, ensinando que as frustrações são parte do amadurecimento. Progressivamente, ela se torna menos necessária, promovendo a independência dos filhos. Deixem as mulheres falharem e não darem conta de suas crias quando não for possível. Ao invés de apontar o dedo, ofereça ajuda, sem conselhos não solicitados. Elas sabem o que estão fazendo. Só estão cansadas. E quando aceitam a imperfeição é quando mais transformam para melhor a vida de seus descendentes. P.S.: como cantou Paul McCartney com a banda Wings em Mama’s Little Girl, a menininha da mamãe tem que trilhar a própria montanha porque não pode levá-la o tempo todo consigo. Minha mãe sabia disso. Ela me preparou para eu trilhar minha própria montanha.