Marcus Montenegro: “Acho humanamente impossível você só expressar a sua arte sem expressar o seu valor" (Edu Rodrigues/Divulgação) À frente de uma das maiores empresas de agenciamento artístico do Brasil, Marcus Montenegro construiu sua trajetória defendendo consistência, formação e longevidade em um mercado frequentemente guiado pelo imediatismo. Com mais de 300 artistas no casting, se tornou uma das vozes mais atuantes na valorização dos veteranos da dramaturgia e no enfrentamento ao etarismo na indústria audiovisual. Autor do livro Ser Artista – Guia Para uma Carreira Sólida no Mundo da Atuação, escrito com Arnaldo Bloch e publicado pela HarperCollins Brasil, Montenegro também comanda o podcast Ser Artista, que se consolidou como espaço de conversas profundas sobre arte, carreira e responsabilidade cultural. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Seu lema é que “a arte salva, cura, educa e resiste”. Em que momentos da sua própria trajetória você percebeu esse poder transformador da arte de forma concreta? O meu lema – “a arte salva, cura, educa e resiste” – inicia desde o momento que eu optei pela carreira no teatro. Eu comecei uma carreira muito jovem no programa Pequenas Empresas e Grandes Negócios, produzindo para a TV Globo, em 1987. Em 1989, quando acabou o meu primeiro contrato, tive a possibilidade de ir para a televisão ser produtor executivo de novela, e eu não quis, porque já produzia no teatro a Fafy Siqueira e um musical infantil chamado Desenvolvimento, da Flávia Monteiro. Entendi que o meu comprometimento e a minha paixão pelo teatro eram muito maiores que qualquer outra coisa. E entendi o poder transformador da arte, não só na educação, também na sociedade. Ali eu optei pelo meu caminho dentro da área de produção cultural. E nasceu o lema “a arte salva, cura, educa e resiste”. A campanha Quero Veteranos na TV trouxe o debate sobre etarismo para o audiovisual. Quais avanços você já percebeu e quais barreiras ainda precisam ser rompidas? E como fazer isso? O avanço em 2025 foi nítido para a campanha Quero Veteranos na TV. A discussão, literalmente, foi para a mesa dos executivos. Nós tivemos uma quantidade de atores, 50+, retornando para personagens estratégicos nas novelas e no mercado audiovisual, de uma certa maneira, com protagonismos em quantidade infinitamente maiores que nos últimos cinco anos. Tivemos a Suely Franco como a grande rainha de tudo isso. Há cinco anos que nós não tínhamos uma personagem de mais de 80 anos com a importância de protagonismo numa obra de dramaturgia. E agora eu percebo que a discussão está totalmente na mesa, que as pessoas estão preocupadas com esse equilíbrio de encontros de gerações nos elencos. Trabalhando com nomes históricos da dramaturgia brasileira, como Nathalia Timberg e Irene Ravache, o que os artistas veteranos ensinam que nenhuma escola de atuação consegue transmitir? Os veteranos ensinam tudo o que há de melhor na profissão. Legado, comprometimento, disciplina, qualidade nas escolhas. Eles transmitem seriedade, transmitem comprometimento na forma de desenvolver a carreira. Com eles aprendi absolutamente tudo o que há de melhor para a arte de atuar e não só para a arte, também sobre gerenciar carreiras, através da formação, cultura e educação. No livro Ser Artista – Guia Para uma Carreira Sólida no Mundo da Atuação, você diferencia celebridade e artista. Qual é a diferença? E como quem está começando não cair nessa armadilha? Essa é a grande questão do momento, que a celebridade tem a questão só do aparecer, de caçar espaço na mídia por meio de fatos sem embasamento ou sem expressão artística. O artista é isso, ele estuda para tal e ele se expressa por meio da sua arte, seja ela no teatro, no cinema, na televisão, no streaming, seja onde for. A celebridade busca aparecer por aparecer em qualquer situação, seja num lifestyle, numa questão íntima, pessoal, ela busca espaço na mídia por meio de qualquer coisa espontânea que não tenha embasamento artístico. E o artista não, o artista cata o seu espaço pelo trabalho. O podcast Ser Artista traz conversas profundas e humanas. Houve algum depoimento que mudou sua própria visão sobre a profissão ou sobre a vida? O podcast Ser Artista já conta com 80 conversas, todas muito profundas, todas muito impactantes, reveladoras. E agora tem o programa Ser Artista Pensamento também. Mas, com certeza, a Irene Ravache sempre é a entrevista, tanto no Ser Artista Podcast quanto no Ser Artista Pensamento, que mais me impacta. Primeiro porque ela lida com as verdades com muita tranquilidade e sem meias palavras. São sempre entrevistas muito sem máscara, mas ela se entrega por inteiro, com pensamentos altamente modernos, transgressores. Uma mulher muito pioneira na maneira de pensar, muito transparente, transgressora e que nos faz refletir de uma maneira muito clara de como mudar a sociedade com um olhar mais generoso, mas um olhar bem realista. Eu tenho a honra de ser um dos podcasts mais utilizados em doutorados e mestrados em arte do país. E vem aí no futuro o Ser Artista Debate, que é um novo programa de Ser Artista Podcast do canal do YouTube e do canal WePlay. Em um momento de transformações digitais e mudanças no consumo cultural, qual será o papel do artista como agente de reflexão e resistência na sociedade? Eu acho que o artista hoje, mais do que nunca, tem que se preocupar com o conteúdo de qualidade para fazer a sociedade refletir na sua real existência e na sua evolução. Ele deixou de ser apenas um agente que expressa só o seu trabalho pela arte. Ele também tem que expressar o seu pensamento com muita responsabilidade, com muita consciência, com muito conhecimento. Eu acho que mais do que nunca a gente precisa levar para a sociedade essa reflexão por meio do artista. Que ele seja um agente transformador, que faça as pessoas refletirem, pensarem de como conduzir um mundo com muito mais humanidade, com muito mais consistência, com muito mais amor, com muito mais criatividade. Nós não podemos ficar superficiais. Acho humanamente impossível hoje você só expressar a sua arte sem expressar o seu valor e o seu conhecimento. Você precisa ter isso muito claro dentro de você, porque as mídias digitais promovem isso, o acesso à democratização, à informação. Isso é muito bom, que a gente pode formar as pessoas por meio do nosso real pensamento sem ter interlocutores. Quais seus próximos projetos que você pode nos contar? Entre os próximos projetos, em questão digital, está o meu novo programa, Ser Artista no Debate, que é para o segundo semestre. No mercado editorial vem o Arte On, comigo e o André Arteche, que são os livros com os monólogos do projeto Arte On, para gravação de monólogos dos atores. Depois vem o livro do Retiro dos Artistas, também com o André Arteche. Começo ano que vem a minha biografia comemorativa de 40 anos de carreira, escrita pela Tânia Brandão. E depois o grande livro, com Mauro Alencar, que vai comemorar os 75 anos da telenovela brasileira, um livro gigante da TV, com os 350 atores mais importantes da história do País, através das suas personagens que criaram o impacto socioeconômico e político na sociedade.