Emergência Radioativa dá voz às pessoas atingidas em Goiânia (Reprodução/Netflix) A minissérie nacional Emergência Radioativa é inspirada na história real do vazamento de césio-137 em Goiânia (GO), em setembro de 1987 — um dos maiores acidentes radiológicos do mundo ocorrido fora de usinas nucleares. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Em 13 de setembro daquele ano, dois catadores retiraram um aparelho de radioterapia abandonado das ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) e venderam o equipamento a um ferro-velho. A cápsula, revestida de chumbo, continha cloreto de césio: um sal altamente solúvel e radioativo. O material era um pó branco tão fino quanto açúcar, com um brilho azul intenso que despertou a curiosidade de quem teve contato com ele. O acidente de Goiânia foi classificado no nível 5, em uma escala de 1 a 7, pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). A tragédia ficou marcada no imaginário popular graças à intensa cobertura jornalística da época. Mas o grande mérito da série está em deslocar o foco do fato em si para a vida de quem foi atingido. Para a dimensão humana do desastre. O roteiro mostra a dor dos contaminados, que, além do sofrimento extremo causado pelos efeitos da radiação, enfrentaram o medo da morte, o isolamento, a falta de atendimento especializado e a discriminação social. O centro da narrativa está na dona de casa que tenta proteger os filhos sem saber do perigo, no trabalhador que carregou a morte sem perceber, na criança que se encantou com o brilho azul do césio e perdeu a vida dias depois e nos médicos e cientistas que precisaram agir com rapidez e precisão em meio ao caos. Criada por Gustavo Lipsztein e produzida pela Gullane Entretenimento para a Netflix, a produção dá protagonismo a quem atravessou o horror ao longo de cinco episódios memoráveis. A trama mistura realidade e ficção para fins de dramatização. A direção-geral é de Fernando Coimbra, que também assina o roteiro ao lado de Rafael Spínola, Stephanie Degreas e Fernando Garrido. Mesmo com a troca de nomes de alguns personagens, a série conduz o espectador a entender não apenas o que aconteceu, mas o que aquilo significou para quem viveu a tragédia na pele. A produção constrói uma narrativa de tensão sem perder de vista a dignidade dos atingidos. A câmera não está interessada apenas no desastre, mas nas marcas deixadas por ele: nos corpos, nas casas, nas relações. Soma-se a isso uma ambientação de época cuidadosa, que reforça a imersão sem recorrer a excessos. Outro acerto importante é não absolver a negligência. O acidente de Goiânia não foi uma fatalidade, mas resultado de abandono, descaso institucional, falta de fiscalização e irresponsabilidade. Um aparelho de radioterapia foi deixado em uma clínica desativada sem o devido descarte ou proteção. O que veio depois foi consequência de uma cadeia de omissões. Memorável também é a entrega do elenco, que atua com comprometimento e respeito às vítimas. Estão na série Johnny Massaro, Paulo Gorgulho, Bukassa Kabengele, Ana Costa, Tuca Andrada, Leandra Leal, Antonio Saboia, Clarissa Kiste, Emílio de Mello, Alan Rocha, Marina Merlino e William Costa. Emergência Radioativa mexe com a memória coletiva de um país que, querendo ou não, arquivou esse triste episódio na lembrança. Revisitar o desastre pela perspectiva das vítimas provoca reflexão e desperta compaixão. Ao dar rosto, voz e humanidade aos atingidos, Emergência Radioativa não apenas presta homenagem a quem sofreu, mas devolve ao Brasil um capítulo doloroso de sua própria história com a importância que ele merece. E, ao fazer isso, transforma entretenimento em consciência. Isso, no fim das contas, também é serviço público.