(Guilherme O’Odoro/Divulgação) Mulher travesti, afro-indígena, sergipana. É assim que Isis Broken se apresenta cheia de orgulho e com razão. A atriz, cantora e compositora, que vem remando contra a maré, chegou longe. Estreou em sua primeira novela em No Rancho Fundo, dando vida com muito talento à personagem Corina Castello, uma vilã carismática que não mede esforços e não tem limites quando se fala sobre sobrevivência. Antes, gravou para o Globoplay Histórias (Im)possíveis, que ressalta o protagonismo feminino por meio de narrativas revolucionárias. A arte faz parte da vida de Isis desde cedo. Bisneta do coiteiro do bando de Lampião e neta do repentista Ararinha da Viola, antes, compunha e cantava. Foram os videoclipes que a levaram ao audiovisual. Agora, não pretende mais parar, conciliando as carreiras. Em entrevista ao domingo+, ela fala também de preconceito e de como é importante dar visibilidade a artistas não cis (que não se identificam com seu gênero biológico). Nascida no sertão sergipano, assim como sua personagem em No Rancho Fundo, Isis também é solar e, além de se fazer notar, coloca luz em muitas causas. Você está estreando em uma novela em que pode dar vazão para sua voz nordestina. Como tem sido a repercussão de No Rancho Fundo e como ocorre o trabalho em si? As minhas raízes me ajudaram a chegar onde estou hoje, mesmo com tanto preconceito vivido. Interpretar a Corina Castello tem sido um lindo presente e mais uma maneira de mostrar para as pessoas um pouco das referências de Sergipe. Estou recebendo muitas mensagens de carinho do público, falando o quanto ela está sendo revolucionária, nossos corpos trans sendo representados em todos os horários de novela. Me divirto muito nos bastidores, aprendo muito com a minha equipe e os meus colegas, para mim tudo está sendo muito significativo. Quem está fazendo esse papel, em uma obra de abrangência nacional, é uma mulher trans, sergipana e afro-ndígena. Sua estreia acontece ao lado de grandes nomes como Debora Bloch, Andrea Beltrão, Mariana Lima, Alexandre Nero, Edu Moscovis e Welder Rodrigues, entre outros. Como tem sido essa troca e a recepção? É uma honra estar ao lado de grandes nomes, como Welder Rodrigues, Debora Bloch, Alexandre Nero, que são artistas incríveis, e falando especificamente com aqueles que já contracenei, como Thardelly, Clara, Mariana, Titina, Valdinéia, Zé Loreto e Nero, tem sido uma troca incrível e muito inspiradora. Antes de atuar na minissérie Histórias (Im)possíveis, do Globoplay, você se dedicava exclusivamente à música. Hoje, aposta nessas duas vertentes do seu trabalho? A música é algo que sempre esteve comigo, desde nova ela faz parte de mim e é algo que eu amo fazer. Quando componho minhas canções, elas mostram quem eu sou, as minhas raízes, origens e lutas. E foi a música que me levou a ser atriz. Quando comecei a fazer meus videoclipes, uma coisa ligou a outra. Eu amo trabalhar nas duas vertentes. Mulher travesti, afro-indígena, sergipana, ou seja, deve ter passado por muito preconceito. Mais recentemente, teve um filho, Apolo, com seu marido, que é um homem trans. Houve muita transfobia? Como tem sido essa luta? Você acredita que a visibilidade por meio da profissão de atriz ajuda a minimizar o preconceito e disseminar informação? Sim, sofremos muito com o preconceito das pessoas, que nos gerou uma falta de acesso aos cuidados básicos, como o pré-natal do meu esposo (o rapper Aqualien). Tivemos que sair de Sergipe, porque em todos os lugares que procurávamos atendimento médico, havia pessoas muito transfóbicas. Só consegui o apoio nacional após uma denúncia no meu Instagram, que gerou comoção e viemos para São Paulo. Mas, infelizmente, a luta é diária, pelas doses de discriminação que sofremos por viver em uma sociedade machista, racista e transfóbica. Costumo dizer que tudo fica mais difícil quando não se identifica como uma mulher cisgênero. Ser uma das representantes dos corpos trans é muito especial para mim, principalmente estar colaborando para um ajuste social necessário. É fundamental para que atores e atrizes tenham oportunidades de interpretar papéis que não se limitem a narrativas trans, ampliando nossa representação na mídia. Não queremos fazer apenas uma novela e nunca mais aparecer, é importante que conquistemos esses espaços e permaneçamos nele. Quais são os projetos futuros? O que podemos aguardar de Isis Broken profissionalmente? Vêm muitos projetos por aí! Quero continuar levando minha essência e representatividade às telinhas. Estou no processo de produção do meu novo álbum, Orquestra Sinfônica das Cachorras de Rua, que vai explorar o meu lado sensual, trazendo referências à minha morada na Região Sudeste do Brasil. Também para este ano, tem o documentário sobre a gestação e nascimento do Apolo, que aborda todos os desafios que enfrentamos durante esse processo, com a codireção de Tainá Muller.