De volta ao streaming, Aretha Sadick, de 34 anos, vive a enfermeira Camila em Reencarne, nova série original Globoplay. Envolvida em crimes por influência da mãe, interpretada por Grace Passô, a personagem atravessa dilemas morais, afetivos e espirituais. Misturando terror, suspense e drama humano, a produção marca um novo passo na carreira da atriz, que pode ser vista também Em Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente (HBO). Aretha, que emocionou o público nos palcos ao dar vida à icônica Vera Verão no espetáculo Jorge pra sempre Verão, segue expandindo suas fronteiras artísticas entre o teatro e o audiovisual e ainda sonha em fazer uma comédia romântica, papel que seria emblemático para uma mulher trans negra, como conta nessa entrevista. Camila é uma personagem marcada por dilemas morais e emocionais. Como foi para você mergulhar nesse universo de culpa, afeto e transformação, e o que mais te surpreendeu nessa jornada da personagem? Eu, particularmente, não acredito em emoções negativas ou positivas. Todas as emoções são alertas da nossa sensibilidade, avisando que precisamos transformar e mudar algo em nós para nos expandirmos. Ter uma personagem como a Camila, dentro dessa narrativa, foi muito importante para que eu elaborasse meus próprios traumas familiares. A arte é um terreno fértil para que o ser humano possa reelaborar questões humanas. Foi quase um processo terapêutico. Você contracena com grandes nomes como Grace Passô, Taís Araújo, Júlia Dalavia e Isabel Zuaa. Como foi essa troca em cena e o que mais te marcou nesse encontro de gerações e trajetórias tão potentes? Me senti honrada em compor um elenco tão potente, ao lado de atores que admiro há muito tempo. Todos foram muito generosos na partilha, tanto dos conhecimentos adquiridos em anos de profissão, em diferentes formatos, quanto nas cenas em que estávamos juntos. A Isabel Zuaa, minha parceira mais próxima na trama, é uma atriz extremamente sensível, e aprendi muito com ela em cena e nos bastidores. Eu jamais imaginaria atuar com Taís Araújo, e fiquei muito nervosa no dia, mas ela faz questão de tratar toda a equipe com atenção e leveza, então o gelo se quebrou rapidamente. E minha grande satisfação, enquanto atriz, foi poder estar ao lado, sendo filha de Grace Passô, que é genial na sua quietude cheia de inquietações. A série mistura terror, suspense e drama humano, gêneros que nem sempre têm espaço no audiovisual brasileiro. Como foi se desafiar dentro dessa linguagem e o que esse trabalho representa na sua trajetória? Eu amei o desafio de viver e contar um terror brasileiro quente, afetivo e sertanejo. É um gênero que vem sendo repaginado no cinema contemporâneo do mundo todo. Temos uma longa trajetória de filmes do gênero que, infelizmente, acabavam sendo vistos como uma arte menor — o que é uma bobagem. O cinema mundial vem reinventando o terror, principalmente para tratar de temas raciais. De fato, a Camila é uma personagem que marca a minha trajetória, principalmente por fugir do que se vê frequentemente mulheres trans fazendo em atuação no Brasil. Ela tem uma trajetória própria, com começo, meio e fim, um caminho de transformação. E não morre no final (risos). O terror de Reencarne também tem uma camada simbólica, que fala sobre renascimento, culpa e ancestralidade. Você sentiu alguma conexão espiritual ou pessoal com esses temas durante as gravações? Eu sou uma mulher de candomblé e, neste ano, estava vivendo um resguardo simbólico e muito importante na religião. Me senti bastante protegida e fortalecida para abraçar e manipular os temas. A vida e a morte são tratadas de maneira muito diferente nas perspectivas negras de terreiro, um caminho segue interligado ao outro, num ciclo bonito e infinito de renascimento. Se conseguíssemos aceitar definitivamente as nossas raízes negras e indígenas, fincando-as na nossa subjetividade, seria muito bom. No espetáculo Jorge pra sempre Verão, você deu vida à icônica Vera Verão. Que aprendizados essa experiência te trouxe, como artista e como mulher trans, sobre ocupar o palco e recontar a história de um símbolo tão marcante da cultura negra e LGBTQIA+? Jorge pra sempre Verão foi um presente do próprio Jorge Laffond. Reviver a sua icônica personagem em inúmeros palcos do Brasil durante três anos (o tempo que circulamos) foi e sempre será inesquecível. Nesse espetáculo, eu aprendi sobre mim, sobre perdão, sobre família e, tecnicamente, aprendi a improvisar e me adaptar. Foi uma verdadeira escola! Você já comentou que a comunidade negra ainda precisa avançar muito no enfrentamento à transfobia. Como você enxerga esse momento atual da representatividade e o que acredita que ainda precisa mudar dentro e fora das telas? Avançamos bastante! E, ao mesmo tempo, estamos com a possibilidade de retroceder. O jogo não está ganho. Precisamos seguir nos fortalecendo coletivamente. Acessamos lugares importantes, porém o desafio da permanência continua. Há muitas mudanças necessárias, mas uma das mais significativas é que possamos ocupar as cadeiras de decisão, com atores políticos conscientes. Todo um tecido social precisa seguir se movendo e se remodelando para que consigamos ampliar as condições de vida e dignidade de pessoas como eu. Seguimos em disputa. Depois de uma série intensa como Reencarne, o que te inspira para os próximos passos? Há algum tipo de personagem, gênero ou projeto que você ainda sonha viver? Reencarne foi filmado em 2023 e, felizmente, de lá para cá pude interpretar muitos outros papéis entre audiovisual e cinema. Porém, reviver a história, ao assisti-la, me lembra que devemos seguir lutando pelo que é justo. Assim como a personagem, isso nos transforma individualmente, mas também enquanto sociedade. Reencarne me lembra que devemos enfrentar nossos medos enquanto humanidade, e isso segue nas minhas próximas produções. Spoiler: estou em sala de ensaio para meu próximo espetáculo, com direção de Sidney Santiago Kuanza e Gabi Costa, inspirado na vida da ativista social Laudelina de Campos Mello. E quero fazer uma comédia romântica! (risos), está aí um lugar no qual raramente somos vistas atuando, principalmente mulheres trans negras. Quero poder acessar esse imaginário social também. Quem sabe…