O elogio, quando mal formulado, pode mais reduzir do que reconhecer (FreePik) Mês da criança. É natural que a data desperte lembranças como presentes, doces, passeios — e elogios. Mas há algo curioso nesse hábito social de elogiar. Muitos dos elogios que ouvimos na infância continuam a nos acompanhar na vida adulta. A diferença é que, agora, já não soam tão inocentes. “Você é uma menina muito inteligente!” “Você é uma graça!” “Como você é boazinha!” Essas frases, aparentemente inofensivas, carregam camadas sutis de diminuição. Elas não reconhecem competência, maturidade ou autoridade — apenas docilidade, simpatia e obediência. Quando ditas a uma mulher adulta, reforçam a lógica de que o valor feminino está em ser agradável, contida e facilmente aprovada. O problema da exaltação disfarçada O elogio, quando mal formulado, pode mais reduzir do que reconhecer. Torna-se uma ferramenta de enquadramento social travestida de gentileza. Mulheres são elogiadas por “serem educadas”, “sorrirem sempre”, “não criarem problema”, “terem jeitinho”. Homens, por outro lado, recebem elogios por “liderarem”, “terem visão”, “saberem se impor”. Essa diferença não é apenas de vocabulário: é de construção de percepção. O modo como elogiamos molda a forma como enxergamos — e como somos vistas. Estratégias para identificar e reformular Observe o eixo da mensagem: ela valoriza quem você é ou como você se comporta para agradar? O primeiro afirma identidade; o segundo reforça passividade. Perceba o tom: diminutivos como “menina”, “boazinha” e “bonitinha” soam afetivos, mas retiram autoridade. Reflita sobre o contexto: um “você é doce” pode caber em uma conversa íntima, mas soa inadequado em um ambiente profissional. Lugar e intenção importam tanto quanto as palavras. Redirecione os mal formulados: ao ouvir algo que te diminui, reformule com naturalidade: “Obrigada, esse resultado reflete meu trabalho e a consistência com que atuo”. Isso muda o foco da docilidade para a competência. Elogie outras mulheres com precisão: evite reforçar padrões. Troque “que linda!” por “que presença!”, “que inteligência!”, “que clareza!”. O reconhecimento se torna ferramenta de fortalecimento. O modo como elogiamos diz muito sobre a cultura que perpetuamos. A mulher elogiada como “fofa” dificilmente será lembrada como “líder”. Já a mulher vista como “forte demais” costuma ser penalizada por não corresponder ao ideal de docilidade esperado. Compreender a linguagem do elogio é também compreender a linguagem do poder. Nunca deixe sua criança interior morrer, mas não permita que tratem você como uma.