Elana Dara : “Quando parei de tentar caber em alguma caixinha, a minha voz apareceu com mais clareza" (Náthaly Oliveira/Divulgação) Com uma carreira em ascensão e cada vez mais autoral, Elana Dara se firma como um dos nomes mais interessantes da nova geração da música brasileira. Dona de uma voz afinada e um estilo que transita entre o pop contemporâneo e a nova MPB, a artista também construiu uma trajetória sólida como compositora, assinando hits gravados por nomes como Luísa Sonza e Pedro Sampaio. Após ganhar projeção nacional ao participar do Poesia Acústica 8, abrir show do Coldplay e dividir experiências com artistas como Nando Reis, ela agora vive um momento criativo especial: um projeto conceitual inspirado nos sentidos do corpo humano. Em entrevista, Elana fala sobre identidade artística, processo de composição e os próximos passos desse universo sensorial que vem marcando sua obra. Você vem construindo uma identidade artística própria dentro da nova MPB e do pop brasileiro. Em que momento sentiu que encontrou sua voz e deixou de tentar caber em rótulos? Acho que isso foi acontecendo aos poucos. No começo da carreira a gente ainda está tentando entender onde se encaixa, quais são as referências, o que o mercado espera. Com o tempo, fui percebendo que me identifico e me emociono com a música brasileira, mas também sou recheada de referências que, se bem alinhadas, tornam minha criação única… então entendi que minha identidade estava justamente nessa liberdade. Quando parei de tentar caber em alguma caixinha, a minha voz apareceu com mais clareza. Além de intérprete, você tem uma trajetória forte como compositora, com sucessos gravados por artistas como Luísa Sonza e Pedro Sampaio. Como é alternar entre escrever para si e para outros artistas? É um exercício muito interessante, porque são processos diferentes. Quando escrevo para mim, geralmente parto de um lugar muito pessoal e vulnerável. Já quando componho para outro artista, tento entender o universo daquela pessoa e compreender não só seu momento de carreira, mas o que o movimenta. São momentos igualmente sensíveis e imersivos que me enriquecem pra muito além da profissão. Você participou do projeto Poesia Acústica 8 ao lado de nomes como Xamã e Projota. O que essa experiência trouxe para sua musicalidade e alcance de público? O Poesia Acústica foi meu primeiro projeto de grande visibilidade e aconteceu logo no início da minha carreira autoral. Existia um misto de empolgação e medo, porque era uma vitrine enorme e eu ainda estava me descobrindo como artista. Ao mesmo tempo, foi uma oportunidade que abriu muitas portas, me conectou com diversos artistas e apresentou meu trabalho para um público muito maior. Ali começou uma expansão importante da minha música. Dona de uma voz marcante, Elana Dara abriu show do Coldplay (Náthaly Oliveira/Divulgação) Seu projeto sensorial é um dos mais interessantes da nova cena. Como surgiu a ideia de traduzir os sentidos humanos em música e estética visual? Essa ideia nasceu de um da minha curiosidade em temas como filosofia, psicologia e espiritualidade, que me fazem refletir muito sobre como a gente percebe o mundo. Os sentidos acabam sendo uma espécie de âncora da nossa experiência aqui, e é através deles que acessamos emoções, memórias e significados. Um cheiro pode te levar para um momento da infância, um som pode mudar completamente o seu estado emocional. Comecei a pensar que a música poderia explorar isso de forma mais consciente, quase como um portal para essas sensações. O projeto sensorial surgiu dessa vontade de investigar como cada sentido pode revelar camadas diferentes da nossa relação com a vida O EP Gritos & Sussurros trabalha a audição, enquanto Perfumes & Cigarros mergulha no olfato... Comecei pensando na audição porque é o sentido mais diretamente ligado à música. Gritos & Sussurros fala muito sobre intensidade, contraste, volume emocional. Depois veio o desejo de explorar o olfato, que é um sentido muito ligado à memória. Um cheiro pode trazer lembranças muito específicas da vida da gente. Perfumes & Cigarros nasce um pouco desse lugar da memória afetiva, das atmosferas e sensibilidade. Você já dividiu palco com Nando Reis e abriu shows do Coldplay no Brasil. Como essas experiências impactaram sua confiança e visão de carreira? No caso do Coldplay, pude ver de perto a dimensão de um espetáculo gigante, me sentir parte daquilo. Poder contribuir com minha música é inspirador e motivador, um grande combustível pra sonhar cada vez mais alto. Sobre o Nando Reis e outros artistas incríveis com quem já tive a honra de trocar experiências, é transformador. Aqueles momentos preciosos da vida que têm a capacidade de mudar a química do cérebro, sabe? Pessoas como ele têm uma energia forte e sensível, e a admiração só cresceu ainda mais. Poder ouvi-lo e dividir pensamentos foi um grande presente. A turnê Odara tem uma atmosfera mais próxima e autoral, com sessões esgotadas no Blue Note São Paulo e no Rio. O que muda na sua entrega artística quando o público está tão perto? Quando o público está perto, a experiência fica mais humana e verdadeira. Você percebe que não está cantando para uma multidão abstrata, mas para pessoas reais, com histórias tão complexas e intensas quanto a sua. Isso cria uma troca muito bonita. Eu sinto que a música vira um espaço de acolhimento coletivo, onde emoções que às vezes são difíceis de dizer encontram uma forma de existir. Quando vejo que uma canção toca alguém ou provoca alguma transformação interna, sinto que meu trabalho ganha um sentido profundo, e consigo enxergar um propósito interessante pra minha vida. Há previsão de shows na Baixada Santista? E que spoiler pode nos dar sobre o terceiro EP e a continuidade desse universo sensorial? A Baixada Santista é uma região muito rica culturalmente e seria lindo levar o show para aí em breve, então espero que a gente consiga marcar uma data. Sobre o terceiro EP, posso adiantar que ele continua expandindo esse universo sensorial e aprofundando ainda mais essa investigação sobre percepção e emoção. O processo criativo é uma das partes em que eu mais sou feliz, e tenho tido experiências cada vez mais profundas e transformadoras dentro do estúdio.