Cristovam Ferrara é diretor de Valor Social da Globo (Fabio Rocha/ Globo/ Divulgação) Mais de 8 mil pessoas, 256 palestrantes, 133 horas de conteúdos diversos e um leque de gente compartilhando experiências e em contato direto com quem faz a Educação acontecer no País. Essa é a fotografia do que foi, este ano, a terceira edição do Festival LED (Luz na Educação), realizado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Há três anos, o Movimento LED, composto pelo festival, pelo prêmio e por uma plataforma de educação, mobiliza a comunidade educacional do País, dando evidência a projetos e pessoas que fazem a diferença em suas comunidades. Nesta entrevista, o diretor de Valor Social da Globo, Cristovam Ferrara, fala sobre como surgiu o projeto, o que vem sendo conquistado com ele Brasil afora e quais são os próximos passos para torná-lo ainda mais relevante nesse debate sobre o futuro da educação brasileira. Por que Luz na Educação? De onde surgiu esse nome? A Rede Globo sempre teve uma atuação em Educação, mas faltava um expoente, uma marca que ficasse atrelada à emissora. O LED nasceu em 2021 para ser esse expoente da ação da Globo em Educação. E acho que o nome foi muito feliz para dar o olhar que queríamos à Educação. É Luz na Educação porque resolvemos olhar para o lado luminoso da Educação. É claro que reconhecemos todas as mazelas e todos os desafios da Educação, mas resolvemos que, para alcançar e resolver essas mazelas, nós precisamos valorizar as práticas mais relevantes e luminosas que estão surgindo. Então, o Festival LED acaba refletindo esse espírito de ser um olhar positivo da educação brasileira, mostrando quem está fazendo diferente, quem está fazendo bem, quem está construindo ideias inovadoras, quem está fazendo com pouco, quem está propondo iniciativas que possam ser replicadas e amplificadas para impactar mais pessoas. O LED nasceu com esse propósito. Para montar um projeto assim, que conversa com todo o País, precisa ter parceiros diversos também, não? Tudo que fazemos no LED é chancelado. A Globo reconhece que não é uma empresa de Educação, então, a primeira coisa foi criar um conselho de organizações muito representativas, com 14 entidades muito diversas. Temos desde organizações indígenas até agências da ONU, Unicef, Todos pela Educação, organizações que atuam dentro de comunidades. Estamos há três anos nessa caminhada e temos projetos para o futuro. A ideia precisava ir amadurecendo pouco a pouco. O festival é um dos pilares do Movimento LED, que é composto por um prêmio em que distribuímos R\$ 1,5 milhão por ano; o festival, que é feito de forma presencial no Rio, e uma comunidade digital para compartilharmos boas práticas em Educação. Você fala em ‘dar luz na educação’ mostrando as boas práticas que existem Brasil afora. Mas o que você acha que o Movimento LED ajuda a mudar na educação brasileira efetivamente? Isso que é o mais bacana. O LED tem o propósito de ser luz e motor. Luz é o mais visível e fácil de identificar. O festival leva as iniciativas finalistas do prêmio, libera espaço dentro do festival e dá visibilidade a elas. Temos um programa de televisão que este ano teve 18 milhões de telespectadores com as seis iniciativas ganhadoras do prêmio. Isso é oferecer um canal de visibilidade a quem já tem luz pelo que faz. E a gente quer ser motor de duas formas. A partir da luz, essas iniciativas ganham um reconhecimento tão grande e tão poderoso que começam a conquistar uma nova escala e entrar em fóruns de debates e discussões que não entravam antes. Das 18 iniciativas reconhecidas pelo Prêmio LED, três viraram políticas públicas em seus estados. E por quê? Porque não eram conhecidas. A partir da visibilidade que ganham, o governador chama para homenagear, um deputado aparece para entender melhor e fazer acontecer e foi assim que três delas já viraram políticas públicas. A partir disso, essas iniciativas também ganham proporções diferentes. Se antes impactavam 100, 200 pessoas, hoje a maioria já multiplicou em inúmeras vezes o impacto que causa. Elas também acabam sendo replicadas em outros lugares. Exatamente. O portal (comunidade.led.globo) disponibiliza a descrição de todas as metodologias de todos os finalistas. Isso permite a quem tiver interesse em replicar o passo a passo completo no site. Dá para replicar em qualquer território. As iniciativas vão ganhando escala. Um detalhe interessante no festival é que nenhuma mesa de debate ou oficina tinha a participação do poder público: nenhum prefeito, governador, secretário, deputado, vereador... É proposital? A gente reconhece que muitas iniciativas inovadoras que estão acontecendo na educação ocorrem dentro de escolas públicas e são desenvolvidas por secretarias municipais e estaduais, mas temos um cuidado grande para não politizar os temas dentro do festival. Então, não levamos para as mesas ninguém que ocupe cargo eletivo. Nesses três anos de Movimento LED, é possível identificar alguma região do Brasil onde há mais carências educacionais? Todos os anos, temos inscrições de todos os estados para o prêmio. Em média, 2.500 inscrições por ano. Naturalmente, o número é proporcional à população do estado, mas em termos de ganhadores, notamos que há mais das regiões Norte e Nordeste do que do Sul e Sudeste. Principalmente no Norte, vejo que são estados que demandam um engajamento maior da população frente às dificuldades logísticas, estruturais que há por lá. Os casos mais bem-sucedidos do mundo em Educação são aqueles em que a população entende que é parte do trabalho dela também e não só do governo. O LED tem estreita relação com os ODS também? A ONU lançou os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável com 169 metas na Agenda 2030, mas eu acredito que a ODS 4, que fala sobre educação de qualidade, é a base de tudo. Acredito nisso de verdade, minha carreira é dedicada a isso. Se eu tenho uma certeza na vida é que a Educação é o vetor de transformação mais importante do Brasil. Todas as ODSs são importantes, mas é pela Educação que a gente consegue transformar todas elas. É nisso que a gente acredita. Eu conheço e vejo de perto muitas iniciativas e pessoas dedicando suas vidas a fazer algo diferente por meio da Educação. São pessoas fortes, que me fazem acreditar em um futuro melhor.