(FreePik) Desde a última quarta-feira tenho comigo, como parte da minha identidade, o título de doutora. Ao contrário do que prega a linguagem popular, não me tornei advogada nem médica para assim ser chamada. Doutora ou doutor é quem tem doutorado, um dos mais altos graus acadêmicos obtidos depois da defesa de uma tese de pesquisa. A minha durou quatro anos e meio, resultando na análise e no retrato do sofrimento das mulheres, de diferentes realidades, durante a pandemia de covid-19. E como isso reforçou ainda mais um sentido de vulnerabilidade do feminino. Consegui provar que nas crises da humanidade, das mais diversas naturezas (sanitárias, políticas, econômicas, sociais), as mulheres sempre perdem primeiro espaços e direitos – o que atrasa e/ou retrocede nossas conquistas, nos deixando constantemente fragilizadas como grupo. Inclusive às violências. Estou exausta. Estou feliz. Mas estou intrigada. Minha conquista me localiza entre uma minoria no Brasil. Apenas 0,2% da população brasileira possui doutorado. Dá uma média de 10,2 doutores por 100 mil habitantes, muito abaixo da média dos países da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de 30 doutores por 100 mil habitantes. Essa baixa proporção é reflexo de um Ensino Superior ainda restrito, da falta de estímulo para a formação de profissionais com alta qualificação e da incompreensão da importância da pesquisa, em todas as áreas de conhecimento, como parte da evolução de uma sociedade. Já ouvi até mesmo de quem é acadêmico que fazer doutorado é coisa para massagear o ego. Será mesmo que eu investiria quatro anos e meio da minha vida, abrindo mão de horas de sono, de lazer, de convívio com família e amigos porque eu gostaria de ser… elogiada? Não consigo imaginar maior falta de noção. Lamento que este seja um mundo em que construir mais um pedacinho do saber de um tema, que se torna gigante ao jogar luz na dor daqueles que afeta, seja desvalorizado. De certa forma, como esperar o contrário em dias de tanta informação e estímulo supérfluo, distorcido, em que se bate palma para quem faz dinheiro rápido, mesmo que sem procedência clara, para luxar nas redes sociais? Talvez esteja nas mãos das mulheres inverter essa lógica de que dedicação aos estudos não importa. Entre os poucos doutores do país, somos cerca de 55%, ou seja, a maioria. E se não vamos bem no cômputo geral de doutores entre os 38 países membros da OCDE, por outro lado o Brasil é o país que apresenta maior número de mulheres entre os titulados desses países. Há quem tenha muito mais doutores. Mas as brasileiras são a maioria das doutoras. Um lindo sinal de que a ciência nacional avança com base em empatia, cooperação, desenvolvimento de pessoas, resiliência nas adversidades, foco na solução e capacidade de comunicação compassiva – características das lideranças femininas. Somos mais transformacionais e inclusivas com equipes e com o trabalho. Assim, vamos juntas deixando cada vez mais para trás a ideia de que o reconhecimento social de uma mulher ainda se define pela infame pergunta: senhora ou senhorita? Caros, aqui é doutora. P.S.: Que nenhuma garota duvide de onde pode chegar e, como diz a cantora Sia, em Unstoppable: “Sou imparável, sou invencível, sou tão poderosa, estou tão confiante, sim, hoje eu sou imparável!” Pra ouvir alto!