Aceitar o desconforto como coisa da idade e tomar remédios por conta própria podem adiar a avaliação médica (Adobe Stock) A caminhada fica mais curta. O sono passa a ser interrompido. Atividades antes simples começam a exigir ajuda. Atribuir a dor, que muda a rotina de uma pessoa idosa, apenas à idade pode fazer com que um problema tratável permaneça sem avaliação. Recorrer sempre ao mesmo remédio promove alívio temporário, mas também acaba adiando um tratamento realmente eficaz. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O desafio é reconhecer que conviver com dor não precisa ser uma obrigação do envelhecimento. Em nota técnica, o Ministério da Saúde cita dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil) segundo os quais a dor crônica atinge 36,9% dos brasileiros com mais de 50 anos. O percentual se refere a essa faixa etária, que inclui adultos ainda não classificados como idosos. A frequência do problema, porém, não justifica sua banalização. Dor que se repete, piora ou compromete sono, mobilidade e tarefas cotidianas merece avaliação. Para o médico Leandro Miranda, especialista em Medicina da Dor, com formação pela USP e em Dor Crônica Intervencionista pela FMRP-USP, a melhora temporária não significa necessariamente que a condição responsável pela dor tenha sido tratada. “Medicamentos podem aliviar, mas não significa que o problema foi resolvido”. Medicamentos têm, sim, lugar no tratamento da dor. O risco está em repetir doses, prolongar o uso ou acrescentá-los à rotina sem verificar se são adequados a cada caso. Segundo o Ministério da Saúde, mudanças no funcionamento do fígado e dos rins podem tornar o organismo idoso mais sensível aos efeitos dos medicamentos. O uso de vários produtos ao mesmo tempo também exige atenção às interações e aos efeitos adversos. Entre os anti-inflamatórios, há medicamentos cujo uso prolongado pode provocar sangramento digestivo e problemas renais, alerta o Instituto Nacional sobre o Envelhecimento dos Estados Unidos, integrante dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Isso torna especialmente importante avaliar o histórico de saúde antes de utilizá-los. Analgésicos também exigem cuidado A Associação Internacional para o Estudo da Dor (Iasp) define como crônica a dor que persiste ou reaparece por mais de três meses. Esse prazo serve para a classificação do quadro, não é uma orientação para esperar antes de buscar atendimento. No caso de dor recorrente, vale observar o que mudou: ficou mais difícil levantar da cadeira, tomar banho, sair de casa ou dormir? O impacto na vida diária ajuda a mostrar a dimensão do problema, além da intensidade do desconforto. A investigação também não se resume a localizar uma lesão. A dor pode continuar mesmo depois de tratada a condição que a desencadeou e, em alguns casos, tornar-se o principal problema de saúde. Fatores biológicos, psicológicos e sociais participam da dor crônica, conforme a Iasp. Isso não diminui a realidade do sofrimento nem dispensa tratamento. O tratamento vai depender do tipo de dor, das condições de saúde e das necessidades de cada paciente. Pode reunir medicamentos, exercícios adaptados, reabilitação e apoio psicológico. Melhorar a capacidade de realizar as atividades também é uma meta do tratamento. Leandro Miranda também destaca a importância de acompanhar a evolução do paciente e considerar aspectos como sono e atividade física. Prepare-se para a consulta Um registro simples pode ajudar a explicar o que está acontecendo: Onde dói: indique o local e relate se a dor se espalha; Quando começou: conte há quanto tempo ocorre e com que frequência; Como é: descreva com suas palavras, como pontada, aperto, queimação ou choque; O que muda a dor: observe situações que aliviam ou agravam o desconforto; O que ficou difícil: relate prejuízos no sono e nas atividades; O que já foi usado: leve nomes, doses, horários e embalagens dos medicamentos, incluindo os tomados por conta própria. Essas informações ajudam a avaliação clínica. Exames complementares são solicitados conforme a necessidade, após a análise da história e o exame físico. Cuidados com os remédios Não aumente doses nem prolongue o tratamento por decisão própria; Não utilize medicamentos prescritos para outra pessoa; Informe todos os produtos em uso aos profissionais que o atendem; Peça ajuda ao médico ou farmacêutico se houver dúvida sobre dose, horário ou combinação; Não interrompa um tratamento prescrito sem conversar com a equipe responsável.