Entre histórias, memórias e questões que atravessam gerações, Dinah Feldman construiu uma carreira marcada pela investigação da identidade e do pertencimento. Com mais de 20 anos de trajetória, a atriz está em cartaz com Mazal Tov – Quando a Vida Sorri, no Teatro Moise Safra, em São Paulo, onde interpreta Margot. A peça aborda diferenças culturais, religião e relações humanas. A atriz também revisita as próprias raízes judaicas em O Vazio na Mala, espetáculo autoral inspirado na história de sua família e no testemunho de um primo. Ao mergulhar no passado, Dinah se deparou com marcas que atravessaram gerações e que também ajudaram a transformar seu olhar sobre a própria trajetória. Em Mazal Tov, sua personagem se aproxima de uma cultura diferente por meio da curiosidade. Você acredita que estamos mais curiosos ou mais fechados ao que é diferente? Acredito que hoje temos muito mais informação sobre tudo, mas é uma quantidade impossível de assimilar e repleta de vieses. Dependendo de onde circulamos, com quem falamos e, cada vez mais, do algoritmo, somos bombardeados com uma versão dos fatos. O aprofundamento, a contradição e o diálogo requerem tempo, dúvida e escuta. E sinto que isso acaba nos dando a impressão de que sabemos sobre tudo, ao mesmo tempo em que cristalizamos nossas opiniões muito rapidamente. Há uma sensação de curiosidade, mas o resultado pode ser o de estarmos cada vez mais fechados nas nossas próprias certezas. Inclusive porque as opiniões estão rapidamente disseminadas publicamente. Voltar atrás, rever um ponto de vista e admitir que talvez não tenhamos entendido alguma coisa requer, como sempre, um bocado de coragem e de escuta. Acho que a peça planta algumas dúvidas nas certezas dos personagens, incomoda, desloca e amplia alguns caminhos. A peça também aborda o conflito entre judeus e muçulmanos, com o namoro da protagonista e tutora das crianças. Como o enredo trata essa questão tão delicada e à flor da pele hoje? Senti isso muito nos ensaios e tenho falado bastante sobre isso: a peça se embrenha nas relações humanas. Quando a gente dá um passo nessa direção, as instituições e as tradições ficam, por um tempinho, na soleira da porta. Mas estão sempre à espreita. As culturas tradicionais, como a judaica e a muçulmana, acabam tendo mais similaridades entre si do que muitas vezes percebemos, e isso também aparece na peça. O relacionamento de uma europeia com um muçulmano sofre com esse choque cultural. Os afetos levam as pessoas a se transformarem, mas também trazem esses conflitos para o centro das relações. Acho que a peça toca justamente nessa delicadeza das relações humanas, sem verdades supremas. Nesse difícil equilíbrio entre o encontro entre duas pessoas e as instituições que se inserem nessa relação — ou que essas pessoas representam. Entre o íntimo e o público. Vazio na Mala nasceu de uma história da sua família. Houve algum momento em que você percebeu que a peça estava transformando a sua relação com o passado? Sim. Sinto que, na minha trajetória, dei literalmente voltas ao mundo para entrar em contato com tesouros que estavam em mim. O Vazio na Mala conta a história da família do meu primo. E, ao mergulhar nessa história, focamos muito na questão do trauma transgeracional: aquilo que segue nas gerações que não viveram a guerra ou os conflitos em si, mas carregam o peso do passado. No processo, fui entendendo muito sobre a minha própria história. A família da minha mãe veio para o Brasil antes da Segunda Guerra, da Rússia e da Romênia. Meu pai e a família dele vieram do Egito, no final dos anos 50, durante o êxodo dos judeus dos países árabes: expulsos, sem nacionalidade, sem saber o idioma. Esses fatos eu sempre soube e convivi com eles. Mas foi no processo da peça, na relação entre os personagens, no contato com o público, na oportunidade incrível de fazer o mesmo espetáculo mais de cem vezes no palco e, inclusive, de ir para a China falar sobre isso, que fui me dando conta da dimensão dessas tragédias nas gerações posteriores. Principalmente na família do meu pai, que nunca conseguiu recriar suas raízes e teve trajetórias muito difíceis, sofridas e marcadas pelo deslocamento. E, certamente, eu carrego isso em mim. Mas estou em um tempo de ressignificar e viver outras possibilidades. Você costuma interpretar mulheres movidas pela busca de identidade e pertencimento. O que essas personagens revelam sobre a Dinah que o público talvez não conheça? Embora a gente traga assuntos complexos e tabus para o centro da discussão hoje em dia, ser mulher ainda é um desafio. Os temas e as questões das mulheres no mundo não estão resolvidos. Foi vivendo a vida na intensidade que eu escolhi que precisei enfrentar essa realidade: viajar sozinha pelo mundo, criar uma filha, ser artista e produtora, agregar identidades diversas em mim — brasileira, mulher, judia —, enfrentar questões do meu próprio corpo e um sistema de saúde que ainda não evoluiu para olhar para o corpo da mulher como poderia, entre tantas outras coisas. Tudo isso me faz ter uma urgência de levar essas questões. Depois de mais de 20 anos de carreira, como você escolhe seus projetos hoje? A curiosidade continua sendo um guia? Grande parte da minha carreira nasceu da busca por histórias que eu queria contar. Tive ideias, encontrei parceiros e, muitas vezes, criei meus próprios projetos para estar em cena. Continuo muito curiosa, mas hoje também quero experimentar novos formatos, ampliar minha atuação no audiovisual e trabalhar com públicos diferentes. Mazal Tov surgiu como um convite e representa esse momento de abertura para novos encontros, parcerias e possibilidades. Continuo sabendo o que me move, mas estou mais disponível para descobrir onde isso pode me levar. Você já revelou o desejo de interpretar Shakespeare, Tchekhov e personagens das tragédias gregas. Que tipo de mulher gostaria de levar para a cena nos próximos anos? Hoje tenho dificuldade de escolher uma única personagem. Penso mais em um conjunto de mulheres, como Medeia, Antígona, Lady Macbeth, Lucrécia e Sônia, figuras muito diferentes, mas que em algum momento desafiam o lugar que lhes foi imposto. Aos quase 50 anos, quero investigar essas personagens a partir do meu corpo, da minha experiência e das questões que ainda atravessam as mulheres. Mais do que um papel específico, desejo construir um território de histórias e descobrir o que essas mulheres, escritas há séculos ou pouco conhecidas, ainda têm a dizer sobre nós.