A nutricionista Maria Fernanda tem aprendido a lidar com as autocobranças com mais leveza (Arquivo pessoal) Ser mãe é se redescobrir em um papel novo — tantas vezes idealizado, romantizado e pouco compreendido. Longe dos retratos perfeitos das redes sociais, a realidade é feita de noites mal dormidas e, muitas vezes, de medo, mas também é repleta de amor, novas experiências e uma força que surpreende. A maternidade revela que ser mãe não é sobre ser perfeita, mas sim sobre ser real e estar presente da melhor forma possível. Essa foi uma das lições que a nutricionista Maria Fernanda Fernandes de Araújo, de 36 anos, aprendeu nessa fase da vida. No início, ela se sentiu sozinha e passou a ter receio de não conseguir cumprir bem o papel de mãe, o que a levou a se cobrar excessivamente. Diante de tantas situações, enfrentou a depressão pós-parto e ainda precisou lidar com o fato de que sua filha, Maria Eduarda de Araújo Catarino, hoje com 1 ano, não aceitou mamar no peito, e era seu sonho poder amamentar. “Me senti impotente, questionando se estava falhando. Foi aí que percebi que não dava para me cobrar o tempo todo e que não existe mãe perfeita. Existe mãe real, que sente, que erra, que aprende. E foi nesse momento que eu abracei essa realidade com mais leveza”, pontuou. A nutricionista destaca que a rede de apoio foi essencial. Segundo ela, o acolhimento oferece calma, conforto e segurança, além de ajudar a enxergar os desafios sob uma nova perspectiva. Também contribui para compreender que não existe mãe perfeita, e que esse é um ótimo momento para se libertar da cobrança excessiva e viver a maternidade de forma mais leve. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Experiência da maternidade Cada experiência nesse momento da vida é única e diferente. Os desafios surgem com o tempo para cada mãe, e é assim que, aos poucos, cada uma aprende a lidar com o medo, a exaustão e as incertezas. A administradora Laysa de Assis Gomes, de 36 anos, comentou que, depois que uma mulher se torna mãe, há uma grande mudança nos sentimentos e nas emoções. No nascimento de seu primeiro filho, Yan Assis Azurza, de 8 anos, ela relembra o desejo de protegê-lo de tudo. Estava sensível, tomada por uma enorme responsabilidade, e chegou a considerar reorganizar a vida para recomeçar. Durante essa época, ela era mãe solo. Em sua segunda gestação, de Oliver Assis Salvadori, atualmente com 7 meses, ela conta que viveu esse momento ao lado de quem ama, seu marido, o que fez toda a diferença. Nos dois partos, idealizou o nascimento normal, mas acabou sendo levada à cesárea em ambas as vezes. Após a gestação, percebeu que não dava para ser a mãe heroica o tempo todo. Quando Yan nasceu, ela se sentia cansada, passava noites em claro e, por conta da cesárea, não conseguia nem se levantar para dar banho no filho. “Ali eu já percebi o quanto queremos fazer por eles, mas existe a nossa limitação de humana, do nosso corpo. Não basta querer, você precisa se olhar, se cuidar. Tem dia que vai conseguir dar conta de muitas coisas, e outros em que mal vai dar conta de você mesma, mas vai ter que levantar porque seus filhos precisam de você, mas dentro das suas condições”, afirmou. Uma das palavras que Laysa acredita que deveria fazer parte do vocabulário de todas as mães é ‘desacelerar’, embora reconheça que isso nem sempre seja possível. Para ela, deveriam existir pausas no maternar, para que fosse possível, de fato, aproveitar o momento com os filhos e acompanhar todas as fases. A microempresária Samantha se sente mais forte após o nascimento da filha Chloe (Sílvio Luiz/AT) A microempresária Samantha Silva dos Santos, de 40 anos, sempre sonhou em ser mãe de uma menina. Quando descobriu a gravidez, já com 16 semanas, sentiu uma realização em dobro, pois, já pôde saber o sexo do bebê. Para ela, a maternidade é uma oportunidade única de viver uma nova experiência. Antes, se sentia iludida em relação a esse momento, pois via muita gente romantizando a maternidade, mas hoje entende que existem diversos lados. Samantha descreve esse momento como uma roleta-russa, em que já se sentiu sozinha, com medo e sobrecarregada. “Eu vejo muita gente romantizar a maternidade, mostrando tudo o que é de bom, de positivo, fingindo que não existe o lado dolorido, sofrido, cansativo, sendo que não tem como não passar por isso (...) Porque o tempo da mulher é roubado, porém, ao mesmo tempo, essa mulher ganha uma experiência única”. Durante esse processo, percebeu que era forte. Após o nascimento de Chloe Garcia dos Santos, de 4 anos, muitas coisas mudaram na vida da microempresária. Sua visão de futuro se transformou, e ela passou a carregar a responsabilidade de formar um ser humano com caráter. “Algumas decisões minhas eu já não trato mais de forma tão rápida, porque eu penso que agora não se trata mais só sobre mim. Não decido mais somente pela minha vida e sim pela dela também. Isso foi um sentimento natural. Eu me senti um ser humano muito mais forte, muito mais sólido, depois da Chloe”. Em seu mundo ideal, ela gostaria de voltar ao trabalho apenas quando a filha completasse dois anos, mas a realidade foi diferente. Antes mesmo de Chloe atingir a idade que havia planejado, já estava de volta ao mercado. Hoje, em quase tudo que está relacionado à vida profissional, a filha acompanha a mãe, e Samantha afirma que, no futuro, sabe que será uma ótima recordação. Mesmo com noites sem dormir, rotinas intensas e a necessidade de pausar interesses pessoais, a beleza de ser mãe continua existindo. Para Maria Fernanda, a maternidade é uma tarefa árdua, mas também uma missão linda, que exige paciência, sabedoria e entrega para enfrentar os desafios do dia a dia. A beleza de ser mãe “A maternidade me mostrou uma força que eu nem sabia que existia em mim. Quando nos tornamos mães, despertamos uma verdadeira leoa — tiramos forças de onde nem imaginávamos. Isso me fortaleceu e me fez sentir ainda mais capaz e realizada como mulher”. A administradora Laysa, mãe de Yan e Oliver, descobriu que é preciso desacelerar (Sílvio Luiz/AT) De acordo com Laysa, ser mãe é tudo o que ela é hoje, é ter o coração e a mente fora de si, em outro lugar. É pensar constantemente nos filhos, garantir que estejam bem e colocá-los sempre como prioridade. “Ser mãe é tanta coisa! Ser mãe é avassalador! Ser mãe é sereno e corrido, é acelerar e desacelerar, ser mãe é ser o conforto no abraço, o acolhimento, no olhar, o cuidado na roupa que usa, no lanche que leva, a segurança no que precisa. Ser mãe é tudo e mais um pouco sempre”, mencionou. Samantha destaca a maternidade como um momento de renovação, transformação e renascimento. “É tudo em dobro, sentimentos positivos e negativos de forma mais intensa, uma nova estrutura de maturidade”, pontuou. A idealização da perfeição é nociva A psicóloga clínica Marcia Lawant Atik explica que a idealização da mãe perfeita é nociva tanto para a saúde mental da mulher quanto para o desenvolvimento da criança. Ela complementa, ainda, que essa cobrança pode ser considerada uma regra totalmente artificial, já que, na realidade, as mães não são robôs. “A imperfeição é saudável porque as emoções são percebidas e, principalmente, sentidas”, destacou. Depois que uma mulher se torna mãe, ela deixa de atender apenas aos próprios desejos e passa a se dedicar também às necessidades desse novo ser humano que está gerando, marcando um novo estágio em sua vida, de evolução. Segundo Márcia, um dos grandes desafios da maternidade é o medo. A psicóloga diz que, hoje em dia, a maternidade tem se tornado uma experiência muito solitária, e reforça a importância e a necessidade de uma rede de apoio. Além disso, destaca o papel do amor, que também proporciona acolhimento. “O amor supera as minhas falhas. É uma crença que dá acolhimento, porque você se apega no amor, na verdade desse amor e tudo vai ficando mais leve, porque não é feito por obrigação, nem por medo, nem por culpa, mas por amor”.