Dostoiévski (Divulgação) Aprendi certa vez com um homem muito rico, que promete fazer outras pessoas tão ricas quanto ele, que o grande segredo é estar atento ao Zeitgeist, o Espírito do Tempo. Zeitgeist é a palavra usada para descrever o conjunto de ideias, crenças e sentimentos que definem o clima cultural, intelectual e social de uma época. Para alcançar o sucesso, disse ele, é fundamental se conectar ao que está acontecendo, ao que as pessoas estão pensando e sentindo no momento. Na mesma época, eu estava lendo autores como Dostoiévski e Maupassant, clássicos do século 19, e bateu uma angústia. Ler estes autores, e não os novos, nos deixa deslocados do Zeitgeist? Ler estes clássicos, e não os novos, nos torna sujeitos anacrônicos? Para a primeira pergunta, a resposta é não. Vou recorrer ao próprio Dostoiévski, escritor que, aliás, nunca havia lido até os meus 44 anos. Antes, só um comentário: você vai ouvir sempre que é obrigatório conhecer a obra do russo, e é, mas não se penalize por isso. Tudo vem ao seu tempo, ao seu espírito do tempo. Foi lendo Recordações da Casa dos Mortos, romance publicado em 1862, que encontrei muitos dos fantasmas que vivem dentro de nós e das pessoas ao nosso redor no turbilhão de imagens da vida contemporânea. O livro é uma narrativa semiautobiográfica que segue Alexander Petrovitch, um nobre condenado a trabalhos forçados na Sibéria por assassinar a esposa. A obra retrata a brutalidade do sistema penal russo, mas, mais do que isso, explora o impacto psicológico da prisão, tanto no corpo quanto na alma. Dostoiévski mergulha na questão da liberdade interior e da alienação, mostrando que, muitas vezes, somos prisioneiros de nós mesmos. A prisão como pena de um crime é algo presente na obra. No entanto, a prisão interior, provocada pela ausência de identidade e propósito, tem os mesmos efeitos devastadores, e Dostoiévski trabalha com isso o tempo todo. Em certo trecho, Alexander Petrovitch afirma, pela pena de Dostoiévski: “Concluí um dia que se quiséssemos atormentar um homem, puni-lo cruelmente, esmagá-lo de modo que o mais feroz assassino se horrorizasse ante esse castigo e tremesse mesmo, bastaria dar ao seu trabalho o caráter de completa inutilidade, de verdadeiro absurdo”. Por suas origens, Petrovitch é considerado um fidalgo e suas relações dentro da prisão são moldadas em virtude dessa origem. Ele havia atingido a glória em sua vida pregressa, mas agora está preso a algo que lhe foge ao controle. Esqueça toda a conversa sobre status e pense em uma pessoa comum que, ao pôr a cabeça no travesseiro, confronta seus próprios fantasmas. A ideia de pertencimento a um mundo de glórias, dinheiro, sucesso e reconhecimento é uma armadilha sedutora que pode nos conduzir aos mesmos grilhões e à mesma pena cumprida pelo taciturno Petrovitch. Em Recordações da Casa dos Mortos, as personagens surgem como sombras, pulam à nossa frente, aparecem e desaparecem. E, como se nos manipulasse, Dostoiévski faz com que fantasmas vagueiem pelas páginas e por nossas cabeças, em um festim macabro onde o limite do que se pode chamar de humano fareja o inferno. Não é fácil guardar todos os nomes, perfis e características dos arremedos de gente que cercam o protagonista. Petrovitch (Dostoiévski) desabafa: “O criminoso, que é um revoltado contra a sociedade, odeia-a e julga sempre que tem razão; a sociedade, para ele, é que a não tem. Além disso, não foi ele condenado?” Tire suas próprias conclusões. De qualquer forma, acho que também respondo à segunda pergunta feita lá no início. Ler clássicos não me torna um sujeito anacrônico. Na verdade, esses autores transcendem épocas, abordando questões humanas universais que se aplicam a qualquer Zeitgeist, inclusive o nosso. Isso aqui não é uma receita sobre ler livros, mas um convite para você tentar fazer o mesmo exercício. Se os clássicos nos ajudam a olhar para dentro e para fora de nós mesmos, talvez não exista conflito entre eles e o Zeitgeist. Afinal, os grandes temas humanos – dor, culpa, redenção, medo, liberdade – são perenes, ressoando em diferentes épocas e sociedades. Ler esses autores nos coloca em contato com o que é atemporal, ao mesmo tempo que nos permite refletir sobre o que há de novo em nossos dias.