Quando fiz um cruzeiro pela Escandinávia e pelo Mar Báltico, nenhuma cidade me surpreendeu tanto quanto Gdansk, no extremo norte da Polônia. Foi uma daquelas gratas surpresas que temos em viagens, quando o repertório de cidades conhecidas que vamos visitar é tão vasto. Mas, esta cidade é tão bela e surpreendente, que impressiona que ainda seja pouco conhecida pelos brasileiros. Quem chega ali encontra um destino vibrante e cheio de personalidade, com ruas coloridas que lembram Bruges, canais que evocam Amsterdã e uma atmosfera marítima que remete a cidades hanseáticas do norte europeu. Mas Gdansk não é imitação de nada: ela é única. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A primeira impressão acontece ao caminhar pelo Long Market, uma avenida larga cercada por prédios estreitos e elegantes em tons pastel, reconstruídos com perfeição depois da Segunda Guerra Mundial. Ao contrário de tantas cidades europeias que sobreviveram intactas, Gdansk praticamente desapareceu durante o conflito. O que vemos hoje é um renascimento impecável, fruto de um esforço minucioso que devolveu à cidade sua dignidade histórica. A Fonte de Netuno se destaca na Royal Way, rua principal que conduz o visitante por edifícios que misturam influências flamengas, escandinavas, alemãs e polonesas. Essa fusão de culturas faz de Gdansk um lugar especial, onde cada esquina parece contar um capítulo diferente da história do Báltico. A poucos minutos dali, o calçadão à beira do Rio Motlawa se enche de vida. Restaurantes, cafés e galerias ocupam antigos armazéns portuários, criando um cenário perfeito para longas caminhadas ao entardecer. É ali que surge um dos cartões-postais mais icônicos da cidade: o Zuraw, um guindaste medieval que simboliza a força comercial de Gdansk nos séculos passados. Mas a cidade é mais do que beleza arquitetônica. A grandiosa Basílica de Santa Maria, uma das maiores igrejas do mundo construídas com tijolos, impressiona por dentro e por fora. Subir seus mais de 400 degraus é quase um ritual para o visitante — lá do alto, o centro histórico se estende como um mar de telhados vermelhos cortados por torres góticas. Fonte de Netuno se destaca na Royal Way (Encierro/stock.adobe.com) Outro elemento que torna Gdansk especial é o âmbar, conhecido como o “ouro do Báltico”. A cidade se tornou o maior centro mundial de joalheria de âmbar, e caminhar pela rua Mariacka, com suas casinhas charmosas e sacadas ornamentadas, é mergulhar em um universo de butiques artesanais, onde cada peça parece guardar um fragmento de história pré-histórica dentro da resina dourada. Gdansk também respira acontecimentos que mudaram o mundo. Foi ali, em Westerplatte, que a Segunda Guerra Mundial começou, com o ataque alemão em 1939. Anos depois, foi nos estaleiros da cidade que nasceu o movimento Solidarnosc, liderado por Lech Walesa, que se tornaria símbolo da luta contra o regime comunista na Europa Oriental. O Museu da Segunda Guerra Mundial e o Centro Europeu de Solidariedade estão entre os museus mais modernos, emocionantes e bem montados do continente — experiências que ficam na memória de qualquer visitante. Fonte de Netuno se destaca na Royal Way (Encierro/stock.adobe.com) Mas Gdansk não vive apenas do passado. A gastronomia da região é saborosa, diversa e surpreendente. Pierogi recheados, sopas servidas dentro de pão, peixes frescos do Báltico e doces com especiarias fazem parte do dia a dia. O licor Goldwasser, feito com flocos de ouro, é uma curiosidade histórica que se transformou em souvenir típico. E, como boa cidade portuária, Gdansk tem uma vida social animada, com bares aconchegantes e cafés charmosos espalhados por toda parte. Long Market, avenida com prédios reconstruídos pós-Segunda Guerra (Aliaksandr/stock.adobe.com) No fim das contas, Gdansk é uma daquelas cidades que conquistam sem esforço. Tem a beleza das cidades mais visitadas da Europa, mas sem multidões; tem história grandiosa, mas com leveza; tem preços acessíveis, segurança, boa gastronomia e uma excelente conexão aérea com o resto do continente. Para quem busca a Europa fora do óbvio, charmosa e profunda, Gdansk é uma descoberta que encanta — e que merece entrar no radar dos brasileiros. Zuraw, guindaste medieval que simboliza a força comercial de Gdansk (Adobe Stock) Guia prático Moeda: Zloty polonês (PLN). Idioma: polonês; inglês amplamente usado no turismo. Clima: invernos frios (0°C a –5°C). Verões amenos (20°C a 26°C). Melhor época: maio a setembro; dezembro para clima natalino. Como chegar: voos via Frankfurt, Amsterdam,Varsóvia ou Munique. Transporte interno: excelente rede de bondes, ônibus e trens. Cidade perfeita para caminhar. Onde ficar: Centro histórico (Stare Miasto) para vistas e conveniência; Ilha Granary para hotéis modernos. O que comer: Pierogi, arenque báltico, sopa Zurek no pão, bolos com especiarias e o licor Goldwasser. *Pedro Braun é guia de turismo internacional, empresário e advogado. pedro@braunturismo.com.br