(Carolina Mossin/Divulgação) Durante algum tempo, a impressão era de que havia uma fórmula para os projetos residenciais contemporâneos: paredes claras, poucos móveis, formas puras e uma paleta neutra. O resultado era elegante, mas, quando essas características se tornaram recorrentes, ficou para trás uma referência fundamental: a personalidade. Aos poucos, esse cenário começou a mudar. À medida que as casas passaram a ser compreendidas como uma extensão de quem somos, os ambientes ganharam objetos afetivos, lembranças de viagens, peças garimpadas e outros elementos capazes de revelar a história e a identidade dos moradores. Para as arquitetas Danielle Dantas e Paula Passos e o arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar, o movimento aponta para projetos mais quentes, sofisticados e pessoais. O menos é mais ainda vale? Para Eduardo Baldelomar, o minimalismo que marcou tantos projetos nos últimos anos já não traduz tão bem o momento atual. O problema, segundo ele, não está no estilo em si, mas na repetição de uma mesma linguagem. “Antigamente todos adoravam morar em casas com visuais mais 'clean' e poucas informações, pois prevalecia a máxima de que menos é mais. Entre tons off-white, formas e volumes puros, a natureza era o único elemento capaz de produzir um contraste dentro dessa composição”. Para o arquiteto, a mudança também está relacionada à maneira como passamos a perceber nossas casas. “Depois do período de reclusão que precisamos viver, passou-se a compreender que nossas moradas vão além de edificações com ambientes muito bem elaborados. Elas são refúgios espirituais que nos abraçam, recarregam a nossa energia e onde revisitamos nossas memórias. No meu ponto de vista, essa conexão só ocorre quando cultivamos nossas raízes, reconectamos com nossos ancestrais e valorizamos nossa identidade”. É nesse contexto que entram as cores, os objetos e as referências pessoais. “Nossa latinidade sempre foi colorida e cheia de detalhes. Por isso ouso dizer que esse fluxo nos leva a ser quem somos”, completa. -galeria (1.530185) Base neutra Deixar completamente de lado a base neutra por entender que ela ficou datada está longe de ser o único caminho. Ambientes claros podem ganhar uma nova leitura com pequenas intervenções, principalmente quando incorporam materiais, tecidos e objetos que acrescentam profundidade à composição. Danielle Dantas e Paula Passos apontam para uma paleta mais conectada com a natureza, com tonalidades como terracota, argila, areia, marrom-chocolate, caramelo, verde-oliva, verde-musgo, vinho e ameixa. As cores aparecem tanto em grandes superfícies quanto em detalhes, sempre com a proposta de criar uma atmosfera mais envolvente. A mesma lógica vale para a composição dos ambientes, com cortinas encorpadas, tapetes grandes, livros, mantas, objetos pessoais, iluminação indireta e obras de arte. A intenção é criar diferentes camadas visuais e sensoriais. “Estamos caminhando para casas mais vibrantes e autorais”, resumem. Toque de materiais naturais Entre os materiais que acompanham essa mudança estão madeiras mais escuras, como nogueira, carvalho escuro, ébano, freijó de tom médio e pau-ferro. Com veios aparentes e texturas marcadas, elas acrescentam calor e profundidade aos espaços. A proposta, no entanto, não é escurecer a casa inteira. Segundo Danielle e Paula, essas madeiras aparecem como pontos de destaque, equilibradas por acabamentos mais claros, como cumaru e jequitibá, que continuam presentes nos projetos contemporâneos. Nas pedras, travertinos, quartzitos verdes, mármores vermelhos e vinho e materiais com veios fortes ganham espaço. A intenção é valorizar a aparência natural de cada peça e permitir que ela se destaque na composição. “O feito à mão, a beleza da imperfeição e o artesanal terão uma presença importante dentro das casas e o intuito é que esses elementos se conectem com nossa memória afetiva”, opina Eduardo Baldelomar. Mistura de épocas Uma das maneiras de evitar que o ambiente pareça excessivamente calculado é mesclar diferentes estilos decorativos. Um sofá contemporâneo pode dividir espaço com uma mesa antiga; uma marcenaria de linhas limpas pode se alinhar a uma cadeira clássica; e uma obra de arte moderna pode conviver com uma peça garimpada em antiquário ou trazida de uma viagem. Na avaliação de Baldelomar, essa mistura também permite aproveitar o que já existe em casa. “Uma poltrona antiga, desde que esteja com sua estrutura conservada e faça feat com o projeto, é tranquilamente renovada ao substituir os tecidos, quando são realocadas em uma nova configuração ou acompanhada por novos elementos”. Nesse cenário, o maximalismo surge como uma possibilidade para associar peças diferentes. “O estilo é um aliado para o mix entre artefatos modernos e itens retrô”, diz Eduardo. Paredes e espelhos Depois de tantos ambientes dominados por superfícies lisas e uniformes, as paredes passaram a participar mais ativamente da composição. Danielle Dantas e Paula Passos destacam pinturas minerais, massas texturizadas finas e papéis de parede sofisticados como recursos para acrescentar profundidade sem necessariamente recorrer a cores muito fortes. Os tons terrosos também aparecem com destaque. Inspirados na natureza, eles ajudam a criar uma atmosfera mais acolhedora e tranquila. Outro elemento que ganha novas possibilidades é o espelho. Mais do que ampliar visualmente os ambientes, ele passa a ser explorado por sua forma, proporção e enquadramento. Entre as alternativas estão modelos orgânicos, côncavos e convexos, composições geométricas, peças de chão de grandes dimensões, molduras elaboradas e versões retroiluminadas.