(Saulo Moreira/Divulgação) Aos 31 anos, o santista Vinícius Neri vive um momento marcante de sua trajetória artística. Formado pela prestigiada Escola de Arte Dramática da USP, após a base nas escolas e festivais de teatro e cinema de Santos, e com uma caminhada versátil, o ator colhe os frutos de sua entrega à arte. Atualmente no ar como Marcelo, protagonista de Fúria, nova série da Netflix dirigida por Zé Henrique Fonseca, Neri mergulha na busca por identidade de seu personagem no universo do MMA. Além do streaming, o artista se prepara para chegar às telonas com o longa Esta Noite Não Seremos Estranhos, de Marcelo Grabowsky. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Você vive um momento especial da carreira, como protagonista de Fúria. O que esse projeto representa para você? Fúria representa colheita para mim. A colheita dessa jornada toda que vivi como ator até aqui. Durante muito tempo, nos últimos anos, eu achava que precisava negociar muito com os meus desejos como ator e visar o que fosse importante comercialmente para conseguir furar essa bolha e me estabelecer no mercado. Fúria veio para dizer que eu posso ter tudo. Dá para sonhar grande. Posso ser o artista que sou dentro de um trabalho que comercialmente é muito forte. Representa escutar a minha potência e o meu desejo de me conectar com o público, de levar meu trabalho para o máximo de pessoas. Seu personagem acorda sem memória e precisa reconstruir a própria identidade. Como foi mergulhar emocionalmente nessa história? Sempre tive uma coisa muito similar ao que o Marcelo vive, em uma eterna busca de quem eu sou. Isso vem desde a busca da minha identidade como pessoa, da minha espiritualidade, ancestralidade, até a busca sendo um homem negro. É um processo constante de reconstrução da identidade social e de aprender a separar o que vivi do que sou. Tive uma preparação artística breve, mas intensa. Para olhar para as dores e buracos desse personagem, precisei parar de fugir da minha história e encarar onde dói, como a morte do meu pai na minha infância. Foi desafiador, mas muito rico para me conectar com o personagem e me curar. Fúria envolve o universo do MMA. Você precisou se preparar fisicamente ou aprender técnicas de luta para o papel? Como foi esse processo? Precisei me preparar muito. Eu não tinha intimidade com a luta, só tinha feito uma aula de muay thai aos 15 anos e um pouco de taekwondo quando criança. A partir da aprovação, passei a fazer três treinos de luta por dia, musculação, mudei a alimentação e fiquei sem beber durante todo o processo. Cuidei do corpo como uma máquina para conseguir exercer esse trabalho. Sabia que a dor fazia parte do universo do personagem e precisei aprender a conviver com ela todos os dias, o que aumentou muito a minha resistência. Você transita pelo cinema, televisão, teatro e performance. O que cada uma dessas linguagens desperta? Acho que o cinema, a televisão e o audiovisual como um todo fazem a gente, do ponto de vista do ator, desenvolver um lugar de soltar o controle e entregar o trabalho nas mãos de uma pessoa. Agora você também chega ao cinema com Esta Noite Não Seremos Estranhos. Como foi participar desse filme e o que pode contar sobre seu personagem? Foi uma alegria imensa porque esse filme é filho de um projeto de 2019, o Fotos Privadas, que inicialmente era um piloto de série e acabou virando filme. Foi uma gestação de 5 anos. Consegui gravar junto com a preparação intensa de Fúria. Sou muito amigo do diretor, Marcelo Grabovsky, e foi ótimo atuar com o Lucas Galvino. É um universo muito diferente: meu personagem tem uma vida bem mais confortável, relaxada, em um filme que explora muito o prazer Depois de tantos trabalhos diferentes, que tipo de personagem ou desafio você ainda gostaria de experimentar na carreira? Gostaria muito de humanizar um vilão. Como sempre me interessei muito pelo trabalho de corpo, personagens que exijam isso me atraem. Adoraria fazer um personagem que dança, que canta, ou atuar em outra língua, como inglês ou espanhol. Também amaria construir personagens com masculinidades sensíveis e com ternura, tendo o Irandhir Santos como uma grande referência. Você se formou na Escola de Arte Dramática da USP. Qual a importância da formação acadêmica na sua trajetória? Foi 70% ou 80% da minha história como ator. Foi onde mais fiz teatro, me explorei, errei, acertei e descobri minhas potências e capacidade de criar. Sou muito grato a todos os professores e lugares por onde passei. Para o ator, o estudo é uma musculatura constante, não acaba com a formatura. Estar em uma escola me inspira, me desenvolve e me permite trocar com pessoas em diferentes momentos da carreira. E fora dos palcos e telas, o que curte fazer no tempo livre? Estou quase sempre cantando, sou um grande cantor de chuveiro! Morando no Rio, gosto de correr na praia, andar de bike e passear na Lagoa. Estar na natureza me faz muito bem. Amo ir ao teatro, cinema, assistir a shows e contemplar a vida. Como bom virginiano, amo observar as coisas. De que forma Santos contribuiu para a sua formação pessoal e profissional? Santos é o grande berço do meu fazer artístico, o lugar onde tudo começou. Foi no colégio Cidade de Santos que entrei numa sala de aula para fazer teatro pela primeira vez, apresentando no Teatro Rosinha Mastrângelo. Foi naquele instante que senti o bichinho do teatro me picar e tive a epifania de que queria fazer isso pelo resto da vida. A cidade me deu a base com a Escola de Artes Cênicas (EAC) Wilson Geraldo, um projeto incrível que forma atores profissionalmente e onde me desenvolvi demais antes de ir para a USP. Tenho uma memória afetiva linda dessa época. Usava o Bike Santos para ir aos ensaios, pedalando pelo cais do Porto e pela Avenida Perimetral com fone de ouvido, sonhando acordado com a carreira — às vezes quase batendo a bike no caminho. Santos é respirar arte: tem a história do Plínio Marcos no Centro, o Festa, o Mirada, a Vila do Teatro, o Guarany e coletivos locais. Sou fruto direto dessas políticas públicas de incentivo cultural, de ter uma escola de teatro que forma atores aqui na cidade para buscarem seu lugar no mercado. Da EAC Wilson Geraldo, eu sou o segundo a protagonizar uma série na Netflix. O primeiro foi o Christian Malheiros, em Sintonia. É meu irmão e estudou comigo na mesma turma lá na escola. É muito lindo esse momento de receber o bastão dele, agora que ele está terminando a jornada com Sintonia e a gente está começando Fúria. Me sinto muito acariciado pela vida por ver uma história onde as coisas se cruzam de uma forma tão bonita. É emocionante olhar para trás e perceber que realizei o sonho de viver da minha arte, de pagar minhas contas e ajudar minha família. Quais experiências vividas em Santos foram importantes para definir o seu caminho? Toda a trajetória nas escolas de teatro e o hábito de fazer teatro desde a época escolar. Como venho de uma família sem outros artistas, exigia muito sonho. A energia de sonhar combinada ao acesso a esses espaços de formação permitiu que eu estivesse onde estou hoje, vivendo do meu trabalho.