Radicado nos Estados Unidos, o santista Gabriel da Costa Alves construiu uma carreira internacional na indústria de games (Divulgação e Reprodução) De Santos para a indústria global dos games, Gabriel da Costa Alves construiu uma trajetória marcada pela paixão pelos videogames e busca constante por novos desafios. Hoje radicado nos Estados Unidos e atuando na Light & Wonder, o artista brasileiro se destaca em uma das maiores empresas do setor, liderando projetos e participando de decisões criativas que impactam milhões de jogadores pelo mundo. Com passagens pela animação, pelos quadrinhos e pelo design gráfico, Gabriel acumula experiências que ajudaram a moldar uma carreira internacional e uma visão ampla sobre o futuro da criação de jogos. Nesta entrevista, ele relembra o início da cena independente brasileira, fala sobre os desafios da mudança para o exterior e compartilha aprendizados. Como aconteceu a transição do mercado brasileiro para a carreira internacional? De forma natural. A indústria de games no Brasil sempre foi importante para a minha formação profissional e vem crescendo de forma consistente ao longo dos anos. No entanto, quando tomei a decisão de seguir carreira internacionalmente, o mercado brasileiro ainda era significativamente menor do que o dos Estados Unidos em termos de tamanho, investimentos e oportunidades. Desde o início da minha trajetória, eu queria entender como funcionavam os grandes estúdios, trabalhar ao lado de profissionais de diferentes nacionalidades e participar de projetos em uma escala que, na época, ainda era difícil encontrar no Brasil. O maior desafio dessa mudança foi a adaptação. Além da questão cultural e do idioma, existe uma diferença na forma como as equipes se organizam, nos processos de produção e nas expectativas em relação ao trabalho. Também foi um período de reconstrução profissional, em que precisei conquistar a confiança de novas equipes e demonstrar meu valor em um mercado extremamente competitivo. Ao mesmo tempo, essa experiência foi enriquecedora e contribuiu para meu crescimento como artista e profissional da indústria de games. Hoje você ocupa uma posição de liderança na Light & Wonder. Como é o seu dia a dia? Como artista sênior em uma posição de liderança, atualmente sou responsável por um projeto no qual, além de trabalhar diretamente nos aspectos visuais, também contribuo para decisões criativas e estratégicas relacionadas ao produto. Isso inclui colaborar com diferentes áreas, como design, engenharia, produção e animação, para garantir que todos os elementos do jogo estejam alinhados e ofereçam a melhor experiência possível ao jogador. O dia a dia em uma empresa do porte da Light & Wonder é bastante dinâmico. Os projetos envolvem equipes multidisciplinares, o que exige comunicação constante e um alto nível de organização. Grande parte do trabalho consiste em transformar ideias em experiências visuais que sejam não apenas atraentes, mas também funcionais e alinhadas aos objetivos do projeto. Um dos aspectos mais interessantes é justamente a colaboração. O desenvolvimento de jogos é um processo coletivo, e cada decisão passa por diferentes perspectivas e especialidades. Quais aprendizados das suas experiências internacionais influenciaram a sua forma de liderar equipes? Minhas experiências internacionais me ensinaram que liderança não é apenas sobre direcionar pessoas, mas, principalmente, sobre criar um ambiente em que a equipe possa colaborar e dar o seu melhor. Ao longo da carreira, tive a oportunidade de trabalhar com profissionais de diferentes culturas e perfis, o que me mostrou a importância da comunicação, da empatia e da capacidade de adaptação. Como lead artist, uma das minhas principais responsabilidades era garantir que a equipe estivesse alinhada em relação à visão artística do projeto, ao mesmo tempo em que cada pessoa tivesse espaço para contribuir com suas próprias ideias. Aprendi que as melhores soluções criativas quase sempre surgem dessa troca de perspectivas. Também passei a valorizar ainda mais a importância de ouvir a equipe. Liderar não significa ter todas as respostas, mas saber reunir talentos diferentes em torno de um objetivo comum. (Reprodução) Como foi o início no desenvolvimento independente de jogos no Brasil? Foi um período muito desafiador, mas empolgante. Naquela época, o mercado brasileiro de jogos independentes dava seus primeiros passos e havia poucos recursos disponíveis. Não existiam tantas opções de formação especializada, comunidades estruturadas ou a enorme quantidade de tutoriais e conteúdos que encontramos hoje na internet. Começamos trabalhando com as ferramentas às quais tínhamos acesso, principalmente os jogos em Flash, que eram uma porta de entrada importante para muitos desenvolvedores independentes. Grande parte do aprendizado acontecia na prática, por tentativa e erro, e também por meio da troca de experiências com outros pequenos estúdios e equipes que faziam parte dessa primeira geração de desenvolvedores independentes no Brasil. O que nos movia era muito mais a paixão pelos jogos e a vontade de criar nossos próprios projetos do que qualquer expectativa financeira. Havia um sentimento de descoberta e de construção de algo novo. Olhando para trás, tenho orgulho de ter participado desse momento, porque muitos dos profissionais e estúdios que abriram esse caminho contribuíram diretamente para o crescimento da indústria brasileira que vemos hoje. Qual foi o projeto mais marcante da sua trajetória? Sem sombra de dúvidas, foi o Mr. Bree. Esse foi literalmente o primeiro jogo que desenvolvemos de forma independente e nasceu com um objetivo muito simples: aprender. Queríamos entender, na prática, tudo o que envolvia a criação de um jogo, desde direção de arte e animação até mecânicas, narrativa, programação e áudio. Não existia uma expectativa de retorno financeiro ou reconhecimento. O projeto era, acima de tudo, uma oportunidade de adquirir experiência e colocar em prática tudo o que estávamos aprendendo. Por isso, foi muito gratificante ver que não apenas alcançamos esse objetivo, mas também conseguimos transformar o jogo em um sucesso comercial para os padrões de um pequeno estúdio independente da época. O Mr. Bree acabou abrindo portas para diversos outros projetos e nos deu a confiança necessária para continuar investindo no desenvolvimento de jogos. Anos depois, lançamos uma nova versão do jogo para a Steam, a maior plataforma de distribuição digital de games do mundo, como uma forma de homenagear o projeto que deu início a tudo. Foi ele que transformou um sonho e uma vontade de aprender em uma carreira profissional. Como você enxerga o impacto da inteligência artificial no futuro da indústria? É difícil prever com precisão como a inteligência artificial vai transformar a indústria nos próximos anos. A IA já faz parte do nosso dia a dia e tem se mostrado uma ferramenta bastante útil para acelerar determinadas etapas do desenvolvimento. Ela pode ajudar, por exemplo, na criação rápida de mockups, na geração de referências visuais, na automação de tarefas repetitivas e até mesmo no suporte a algumas demandas técnicas e de programação. Isso permite que as equipes ganhem tempo e concentrem mais energia nos aspectos criativos e estratégicos dos projetos. Ao mesmo tempo, ainda vejo a visão artística humana como algo fundamental. Um jogo não é apenas uma coleção de imagens ou códigos; ele envolve direção criativa, tomada de decisões, interpretação de feedbacks, compreensão do público e a construção de uma experiência coesa. São elementos que, pelo menos por enquanto, continuam dependendo muito da sensibilidade e da experiência humana. Acredito que, independentemente da evolução da tecnologia, o papel dos artistas e diretores de arte continuará sendo definir a visão criativa e dar propósito às ferramentas utilizadas para construir essas experiências. Que conselho você daria para quem sonha em trabalhar com games? Eu diria para acreditarem nos seus sonhos e estarem dispostos a trabalhar por eles. Pode parecer clichê, mas foi exatamente isso que aconteceu comigo. Quando iniciei minha carreira, por volta de 2010, havia outras oportunidades profissionais na área criativa que talvez fossem mais seguras ou até mais lucrativas. Ainda assim, escolhi seguir meu objetivo de trabalhar com games e persistir nesse caminho. Essa jornada exigiu muito esforço, dedicação e, em alguns momentos, sacrifícios pessoais. Mas, olhando para trás, posso dizer que valeu a pena. Gosto de comparar esse processo a um jogo desafiador: muitas vezes é preciso tentar várias vezes antes de vencer um chefe, mas a sensação de alcançar esse objetivo torna tudo ainda mais gratificante. Ao mesmo tempo, acredito que apenas trabalhar duro não é suficiente. É importante desenvolver a capacidade de avaliar o próprio trabalho com honestidade e buscar feedbacks constantemente. Como artista, aprendi cedo que a evolução depende de entender seus pontos fortes, reconhecer o que ainda precisa ser aprimorado e estar disposto a aprender continuamente. A indústria de games é extremamente competitiva, especialmente em nível internacional. Se você acredita no seu potencial e percebe que está evoluindo na direção certa, continue estudando, praticando e construindo seu portfólio. Muitas vezes, a diferença entre quem alcança seus objetivos e quem desiste está justamente na capacidade de continuar avançando, mesmo quando os resultados demoram a aparecer.