Sylvester Stallone e Carl Weathers em Rocky: Um Lutador (1976) (Reprodução) Quando Brasil e Haiti se enfrentaram na primeira fase da Copa do Mundo, na Filadélfia, nos Estados Unidos, em 19 de junho, a estátua de Rocky Balboa, em frente ao Museu de Arte da cidade, tornou-se ponto de encontro de torcedores de diversos países. Mas não era apenas uma referência de localização, tampouco só futebol. Era também o fascínio que só o cinema proporciona. Apesar de ser um boxeador fictício, Rocky conquistou gerações. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A estátua reproduz uma das cenas mais memoráveis do cinema: Rocky Balboa erguendo os braços após vencer os 72 degraus da escadaria do museu ao som de Gonna Fly Now, de Bill Conti. O gesto, improvisado por Sylvester Stallone e ausente do roteiro original, simboliza o momento em que Rocky está pronto para enfrentar Apollo Creed, interpretado pelo saudoso Carl Weathers. É o azarão diante do campeão dos pesos-pesados. A imagem perfeita da superação. O título original do filme é Rocky, simples e direto. No Brasil, ganhou um complemento: Rocky: Um Lutador. Lançado em 1976, o longa-metragem chegou aos cinemas com a aura de um azarão, tão desacreditado quanto seu protagonista. A história de um boxeador desconhecido, vivida por um ator igualmente desconhecido, transformou-se em um clássico. No ano seguinte, recebeu dez indicações ao Oscar e ganhou três estatuetas: Melhor Filme, Direção (John G. Avildsen) e Montagem. Antes dos dias de glória, porém, houve muitas lutas. A trajetória de Rocky se confunde com a do próprio Stallone, também um azarão naquele momento. No documentário Sly, o astro de Hollywood conta que, desde criança, sonhava em trabalhar com cinema e decidiu seguir esse caminho contra todas as probabilidades. Sem contatos na indústria, pobre e com parte do lado esquerdo do rosto paralisada por um erro médico durante o parto, suas chances de protagonizar um grande filme eram remotas. Obstinado, Stallone escreveu o roteiro de Rocky em apenas três dias, inspirado na luta entre Muhammad Ali e Chuck Wepner, em 1975. Wepner resistiu aos 15 rounds e chegou a derrubar Ali. Na ficção, Rocky também enfrenta Apollo Creed por 15 rounds e leva o campeão ao limite. Stallone acreditava tanto no projeto que recusou propostas tentadoras para vender o roteiro sem atuar no filme. Para quem mal tinha dinheiro para comer, qualquer oferta seria irrecusável. Mas não para ele. Sem recursos sequer para alimentar seu cachorro, Butkus, Stallone precisou vendê-lo por apenas US\$ 40. Ainda assim, manteve uma exigência inegociável: só venderia o roteiro se interpretasse Rocky Balboa. A maioria dos estúdios recusou a condição, até que os produtores Irwin Winkler e Robert Chartoff apostaram nele. Filmado em apenas 28 dias e com orçamento de US\$ 1 milhão — modesto para os padrões de Hollywood —, Rocky virou um fenômeno. Com parte do primeiro pagamento, Stallone recomprou Butkus por US\$ 15 mil. O cão aparece em Rocky e Rocky II: A Revanche (1979) e sua imagem está tatuada no braço do ator. A boa notícia é que os bastidores do clássico serão contados no filme I Play Rocky (ainda sem título em português), com estreia prevista para 19 de novembro nos cinemas. Com direção de Peter Farrelly, vencedor do Oscar por Green Book – O Guia, o longa será estrelado por Anthony Ippolito como Stallone. O fato é que, 50 anos depois, Rocky continua vencendo os rounds do tempo. Embora o boxe seja o grande chamariz, o que toca o coração do público é o drama de um homem comum, financeiramente quebrado, pouco instruído, morador de um bairro operário da Filadélfia e apaixonado por Adrian (Talia Shire), cuja timidez e delicadeza o encantam. No fim das contas, o que eterniza uma obra é a emoção que ela provoca. Assim, Rocky segue invicto na memória de tanta gente. Boa semana!