Matthew Broderick, Mia Sara e Alan Ruck estrelam comédia de John Hughes (IMDB/Divulgação) Cômico, irreverente e controverso, Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off), de John Hughes, chega aos 40 anos “inteirão”. A comédia adolescente que desafia o senso comum estreou em 11 de junho de 1986, nos Estados Unidos, e conquistou gerações mundo afora. No Brasil, entrou para a galeria dos clássicos da Sessão da Tarde e faz parte da memória afetiva de muita gente. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O enredo gira em torno de Ferris Bueller (Matthew Broderick), um adolescente engenhoso que engana os pais e arma um plano para matar aula e passar o dia se divertindo em Chicago ao lado da namorada, Sloane Peterson (Mia Sara), e do melhor amigo, o depressivo Cameron Frye (Alan Ruck). Aluno mais popular do Ensino Médio, Ferris desperta o ciúme da irmã, Jeanie (Jennifer Grey), que não se conforma por ele ser o queridinho de todo mundo. Ferris não é um exemplo de virtude, mas se tornou um ícone da cultura pop. Inteligente e espirituoso, não se prende às regras impostas pela sociedade e debocha da autoridade dos adultos, inclusive do inspetor Ed Rooney (Jeffrey Jones). Porém, ele não desafia as regras porque odeia a escola, mas por entender que a vida não deve ser vivida apenas em função de obrigações. Enquanto os adultos estão preocupados com horários, responsabilidades e aparências, ele quer experimentar o mundo. Um indicativo de que Ferris é um adolescente fora da curva é sua perspectiva sobre a vida. Quando cita diferentes regimes políticos e diz que isso não muda o fato de ele não ter um carro, ironiza a ideia de que grandes sistemas resolvem automaticamente os problemas individuais. Para ele, nenhuma teoria é mais importante do que a vida cotidiana. É justamente por isso que o filme cria uma relação tão íntima com o público, reforçada por um recurso incomum para a época: a quebra da quarta parede. Herdado do teatro, o conceito representa a barreira imaginária que separa os personagens da plateia. Ferris destrói essa barreira ao olhar para a câmera e conversar diretamente com quem assiste ao filme. O efeito é irresistível. O espectador deixa de ser apenas um observador e se torna cúmplice de sua travessura. Talvez isso explique por que tantas pessoas guardam o filme na memória afetiva. John Hughes sempre levou a sério os sentimentos e as inseguranças dos adolescentes. Ele fala diretamente aos jovens também em Gatinhas e Gatões (1984), Clube dos Cinco (1985) e Mulher Nota 1000 (1985). Curtindo a Vida Adoidado também é um retrato vibrante da cultura pop dos anos 1980. Faz referências a Star Wars, Alien: O 8º Passageiro, à televisão e aos esportes. Uma das cenas antológicas é o desfile. Ao som de Twist and Shout, na aclamada versão dos Beatles, Ferris sobe em um carro alegórico e transforma uma avenida de Chicago em um musical a céu aberto. A coreografia na rua reproduz passos de Thriller, de Michael Jackson, mas a cena vai além da homenagem ao pop. Hughes constrói uma celebração da diversidade norte-americana. Negros, brancos, latinos, asiáticos, crianças, idosos, homens, mulheres, religiosos e não religiosos dançam juntos. A música funciona como uma linguagem universal capaz de unir pessoas de origens distintas em torno da mesma alegria. É uma sequência profundamente simbólica e atemporal. A produção é ainda uma ode a Chicago, onde Hughes cresceu. Museus, estádios, avenidas e praças integram a história, mostrando uma cidade pulsante, cultural e bela. Entretanto, o coração da história talvez seja Cameron. Inseguro, ansioso e pressionado pelo pai, ele representa o medo que impede as pessoas de viver plenamente. Ferris quer libertar o amigo desse medo. Em suma, o filme de John Hughes mostra o que significa estar vivo, e é o próprio Ferris que diz isso ao público olhando para a câmera: “A vida passa muito rápido. Se você não parar e olhar em volta de vez em quando, ela passa e você nem vê”. Boa semana!