[[legacy_image_353101]] Outro dia, saindo de casa, encontrei o Seu Nicodemus, o “faz tudo” da rua. Troca lâmpada, arruma chuveiro, fixa quadros, pinta paredes, enfim, tudo. Estava sumido e perguntei o porquê. “Andei doente, descobri que tenho diabetes”. “Descobriu como?”. “Porque peguei dengue”. “O senhor não costuma ir ao médico?”. “Nunca fui não”. “E agora?”. “Tem que tomar insulina, mas meu amigo me indicou um chá que diz que cura”. Seu Nicodemus é um entre milhões de pessoas que não têm letramento em saúde, ou seja, não possui qualquer consciência ou conhecimento sobre seu estado e de como se cuidar. Anda em linha com um amigo meu, o Marco. Vive com indigestão, queimação e se automedicando. Perguntei: “Por que não vai ao médico e faz uma endoscopia?”. “Nunca! Só tomando anestesia geral”. Parece absurdo lendo assim, mas essas cenas são muito comuns. O autocuidado é uma atitude, aliás, muito mais feminina, porém às vezes também derrapamos porque cuidamos mais do outro do que de nós mesmas. Autocuidado significa olhar para si, observar o que nos faz bem e mudar hábitos para ter uma vida com mais qualidade e longevidade. Cuidar de si é, acima de tudo, uma busca por uma vida mais consciente. Significa se conectar com suas reais necessidades, com o que importa para você, com o que lhe faz bem. Autocuidado é fazer exames regulares para prevenir doenças (ninguém gosta, porém, é melhor prevenir o diabetes do que remediar depois), mas também é assistir a um filme comendo pipoca com quem a gente gosta. Prestar atenção nas pessoas que nos fazem mal e nos intoxicam, nas relações que queremos. Isso é cuidar de si. Quando a gente cuida da nossa saúde mental seja conversando com quem confia e acolhe ou indo para a terapia. Ainda mais no Brasil, onde cerca de 19 milhões de pessoas sofrem com transtornos de ansiedade, liderando o ranking mundial. O órgão mais importante em saúde do mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece nós, indivíduos, como agentes ativos na gestão dos nossos próprios cuidados, com ou sem apoio de um profissional e saúde. Isso porque há evidências de que adoção sustentada de intervenções de autocuidado reduz a mortalidade e melhora o bem-estar. O primeiro passo pode ser a auto-observação. Observe-se de forma verdadeira e tenha uma conversa sincera consigo mesmo. Sobre como se sente, o que gostaria de mudar, porque e de que forma fazer isso. Deseja emagrecer, mas vive comendo mal e não faz atividade física? Fica difícil quando a gente não se esforça. É a nossa determinação e vontade que nos ajudarão a avançar. Entendo que autocuidado tem a ver com as escolhas que fazemos. Escolher incluir atividades na rotina que procurem prevenir doenças cardíacas, por exemplo, é uma boa escolha – trocar o elevador pelas escadas já conta – e retirando a má alimentação do cardápio – que tal ovo ao invés do pão? A fruta pelo doce? O refrigerante pela água? São escolhas assim, às vezes pequenas no dia a dia que, reunidas, se transformam em uma bomba relógio se você decidiu por aquelas que fazem mal ao seu corpo e mente. Insisto na questão da escolha porque na realidade tudo o que disse até agora provavelmente você já sabe. Sabe que precisa comer bem, fazer exercício, dormir bem e ficar menos estressado. A questão é que é muito mais rápido passar no fast food do que cozinhar a refeição. Pegar o ônibus ou dirigir do que ir a pé. A gente vive no piloto automático e conduzir tudo de forma diferente é difícil porque nos acostumamos em nossa zona de conforto. Adquirir um novo hábito exige tempo, geralmente três meses. Enraizá-lo, quase um ano. Então, não estipule metas ambiciosas, assim você consegue alcançá-las e se sentir recompensado pelo esforço. Não gosta de academia, ande pelo parque. Não gosta de andar no parque, suba as escadas do prédio. Odeia verduras e legumes, prepare de outro modo e introduza ao menos duas vezes no cardápio da semana. Melhor que ficar só no hambúrguer. Ao fazer suas escolhas e seguir com elas, lembre-se: ninguém cuida melhor de você do que você mesmo, porque você é a pessoa mais importante da sua vida.