Meryl Streep como Miranda Priestly e Anne Hathaway como Andy Sachs (20th Century Studios/ Divulgação) Assim como na moda, em que tendências retornam a cada 20 anos, O Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas em alta: elegante, afiado e sofisticado, à altura do original. Duas décadas após o lançamento de O Diabo Veste Prada, cujo sucesso é atemporal, a continuação apela à nostalgia. A comédia aborda temas relevantes, com leveza e inteligência, ainda que sem alcançar o mesmo impacto do filme original. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Com roteiro de Aline Brosh McKenna e direção de David Frankel, a mesma dupla do primeiro filme, a produção preserva o timing da comédia e a sátira aos mercados editorial e jornalístico — agora pressionados a se reinventarem diante da avalanche da era digital para não se tornarem, ironicamente, “fora de moda”—, mas tropeça na montagem. Na tentativa de imprimir ritmo, o filme acaba gerando desconforto: há uma sucessão de cenas com diálogos excessivamente explicativos e cortes abruptos, que impedem o espectador de saborear a narrativa. Em vez de envolver, a história apenas passa, rápida, fragmentada, pouco digerida. Para um filme sobre moda, de apelo visual, espera-se mais contemplação num cenário com roupas marcantes, contextos dramáticos bem construídos e trilha sonora à altura do legado de 2006. A sensação é de uma certa ansiedade narrativa, como se os realizadores quisessem abarcar tudo de uma só vez em quase duas horas, prejudicando o equilíbrio entre novidade e nostalgia. Nesta segunda fase, a trama acompanha a jornalista Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway, agora menos ingênua, mas ainda idealista. Mais do que protagonista, Andy repercute o grito de alerta do jornalismo atual. A personagem enfrenta uma instabilidade crônica na carreira por insistir em produzir grandes reportagens para o impresso. Em uma das sequências mais simbólicas, é demitida por mensagem de texto, junto com todos os colegas de redação, no mesmo momento em que recebe um prêmio por uma reportagem — um retrato dos novos tempos na era digital e das contradições da profissão, em que ser um bom jornalista já não é garantia de emprego. Na revista Runway de 2026, Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep, também precisa se adaptar ao novo mundo. A editora-chefe já não pode exercer sua liderança com o mesmo rigor de antes: o risco de acusações de assédio moral impõe limites à sua postura, enquanto a revolução digital exige mudanças urgentes na linha editorial. Hoje, não é mais a revista que dita tendências — é o público que escolhe o que consumir. A Runway impressa perde espaço e glamour, e o sucesso passa a ser medido por métricas, visualizações e engajamento nas redes sociais. O grande acerto do filme continua sendo o elenco. Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci retomam suas personagens com precisão, preservando o carisma e a química que marcaram o primeiro longa. Já reforços de peso, como Kenneth Branagh, Lucy Liu e Justin Theroux, acabam subaproveitados. A produção conta ainda com as participações especiais de Donatella Versace e Lady Gaga durante a viagem da equipe à Itália, em meio à efervescência da semana de moda, com destaque para locações como o refeitório do antigo convento dominicano onde Leonardo Da Vinci pintou A Última Ceia na parede, ao lado da Igreja Santa Maria delle Grazie, e o deslumbrante Lago de Como. O Diabo Veste Prada 2 diverte, provoca reflexões sobre jornalismo, ética e caráter e oferece um desfecho digno para a equipe aguerrida e criativa da Runway. Ainda assim, deixa a sensação de que poderia ter sido mais — mais elegante, mais ousado, mais bem lapidado. Como um look promissor que, no fim, não sustenta todo o impacto que promete na passarela, ou melhor, na tela mágica do cinema.